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Um Simples Eu Te Amo

             Nossa, que trânsito infernal! Só mesmo com o rádio em volume máximo para esquecer todos os problemas e o estresse dessa tarde. E esse clima? Por que eu tinha que nascer numa cidade tão quente? Abençoado ar-condicionado!

             Ah, finalmente o sinal abriu! Poxa, não ando bem, minha vida ultimamente tem me desagradado bastante. Minha carteira de motorista está vencida, acelero com cautela para não chamar a atenção do guarda na esquina. Nossos olhos se cruzam e, ao contrário de receber uma ordem de parada, vejo uma expressão aflita, ao mesmo tempo um súbito pensamento me envolve a mente, por que os carros pararam?

             Com um estranho pressentimento, olho para a esquerda. Meus olhos se abrem em profundo espanto e minha boca se contrai num espasmo de medo. Meu Deus, eu não vi a ambulância! A bela música para afugentar os fantasmas da minha mente e o ar para refrescar o meu corpo me traíram, me colocaram cara a cara com um pesadelo.

             O terrível veículo se aproxima e o barulho contínuo da sirene inunda os meus ouvidos. Engraçado, apesar da situação assustadora, me pego pensando no dia em que nos conhecemos. O som ensurdecedor da sirene traz à lembrança o som da banda que tocava. Ainda recordo com carinho o agradecimento silencioso que fiz àqueles músicos que, por tocarem tão alto, proporcionaram o beijo furtivo; o nosso primeiro, que você, como um moleque travesso, insiste em afirmar que não roubou. Como eu fui feliz naquele dia! Tantas sensações antigas foram desenterradas, tantos desejos foram despertados. Lembro bem do seu primeiro olhar me encarando com extrema doçura, um convite à embriaguez em seus beijos e à perdição em suas carícias.

             Não consigo conter as lágrimas enquanto os faróis do veículo enlouquecido me varam a alma. As luzes brilham como duas tochas incandescentes e trazem à minha mente o dia festivo em que brigamos pela primeira, e quem sabe, última vez. Meu ciúme que sempre me causou tantas mágoas foi, novamente, o culpado pela noite perdida; sei que você não teve culpa, embora tenha me magoado muito, minutos depois. As lágrimas que salgam minha boca agora, mancharam o meu rosto naquela noite, emoldurando a cara de humilhação que você me obrigou a fazer na frente de todos, e foram interrompidas com sua dolorosa ordem para que eu as engolisse. Ainda nesse momento, sinto a fúria de seus olhos flamejantes a me encararem como se eu fosse uma estranha. Como eu tentei mergulhar nos seus olhos e trazer à tona o amor que sempre sentimos.  Como eu senti raiva naquela hora! Eu não conseguia pensar em outra coisa a não ser negar todos os bons sentimentos que me dominavam. Como eu desejei sepultar para sempre o primeiro instante em que nossos olhares se cruzaram e nossas vidas foram unidas. E em minha dor, eu só queria fugir para o mais longínquo e deserto lugar da face da Terra para não ter que tocar o seu corpo outra vez, para não ser desarmada e esquecer o sofrimento que você me causou com suas palavras cruéis. Eu só desejava correr o mais rápido que pudesse e abandonar-lhe à dor da minha perda, numa esperança silenciosa de que você sentiria saudade de mim.

             Que ironia, não? Estou em desespero e agora começo a compreender que, muito em breve, você me perderá definitivamente, e, em meu íntimo, fico aliviada pela recente certeza de que sentirá minha falta. A ambulância está tão próxima e eu consigo visualizar o rosto do motorista e ele também está nervoso, murmurando palavras que, embora, eu não possa ouvir, consigo distinguir bem, Cuidado! Por favor, saia da frente. Desculpe, moço, eu não tenho mais saída. Morrerei daqui a, talvez, alguns segundos e você será meu assassino.

             Ouço a freada tão violenta quanto o aperto de sua mão segurando o meu ombro e me puxando para um beijo de reconciliação, após tantas mútuas ofensas jogadas na cara. Um gesto que eu não consegui retribuir devido à minha mágoa e ao meu orgulho, eu sempre lhe disse ser uma pessoa geniosa. Você me olhou, talvez já sem aquele brilho inflamado de raiva, e me abraçou, me aconchegando em seu peito para acalmar meu espírito e abrandar meu coração. Não consegui lhe tocar com o mesmo carinho de antes, me senti mal por tocar o corpo que tantas vezes fiz e fui feliz. Caminhamos para casa, as pessoas me olhavam, questionando o meu choro, e eu só conseguia pensar em meu sofrimento, esquecendo o seu, negando que também te fiz sofrer. Você parou, me abrigou em seus braços e me beijou outra vez. Segurando o meu rosto com mãos gentis você disse, com uma voz nervosa, Eu te amo pra sempre! E eu? Eu só consegui baixar a cabeça, olhando fixamente para o chão, e não disse nada. Eu fui incapaz de perdoar você naquela hora e me jogar nos seus braços e eternizar o amor que eu também sinto. Não fui capaz de sobrepujar a minha raiva, o meu orgulho, e dizer simples palavras que traduzem o bem mais precioso que eu tenho. O meu silêncio nos feriu e agora?

             Ouço o barulho aterrorizador da ambulância se chocando contra o meu corpo e, imediatamente, sinto a dor alucinante me invadir. Infelizmente, ainda tive o azar de receber a pancada direto no corpo, no lado esquerdo do carro. Sinto tudo girando, não consigo enxergar as pessoas. Meu carro rodopia várias vezes e bate violentamente contra um poste. Meu corpo é forçado contra o pára-brisas e o vidro se parte, cortando o meu rosto. Sinto a dor dominar minha face, quase tão intensa quanto os tapas excitantes que você me deu na cama, tentando fazer as pazes, e me amando loucamente. Sou arremessada para longe e caio no chão, batendo a cabeça fortemente contra o asfalto da famosa avenida. Não, eu não estava usando o cinto; tinha acabado de parar no supermercado para comprar o pão e o queijo que minha mãe pediu para o jantar, nem sequer tive tempo de me acomodar perfeitamente. Que droga, o queijo vai estragar! Minha mãe vai ficar irada.

             Eu não consigo sentir o meu corpo, será que isso é um mau sinal? Olho para cima e vejo um outdoor enorme anunciando um show que vai ter amanhã. Outra infelicidade, eu havia comprado os ingressos e vou perder porque não estarei viva sequer de madrugada. Vejo as pessoas gritando e correndo para cima de mim e, rapidamente, o policial que eu temia que me multasse se abaixa ao meu lado e toca o meu rosto, Chamem uma ambulância!, ele diz. Estranho, eu sempre pensei que todos os policiais não prestassem, mas, como me ensinou minha irritante professora de português, toda regra tem uma exceção. Ambulância? Será que as pessoas na ambulância estão bem? Como eu sou idiota! Eu estou morrendo e me preocupo com as pessoas que me atingiram. Mais uma vez, esqueço a minha própria culpa, eu devia ter prestado atenção. Sinto o sangue grudando o meu cabelo, devo estar com uma aparência horrível. Logo eu, que sempre tive tanto cuidado em manter um cabelo bonito e saudável.

             Surpreendo-me por ter pensado tantas coisas na situação em que me encontro. Olho para o céu e vejo uma noite tão linda. Será que eu, ao morrer, virarei uma bela estrela reluzente, como estas que estão sobre minha cabeça? Eu não quero morrer! Sinto minhas lágrimas vertendo novamente e se misturando ao sangue que escorre em meu rosto. Escuto uma música e, apesar de muito baixa, logo reconheço a melodia, And I’d give up forever to touch you... You’re the closest to heaven that I’ll ever be... Eu não agüento e começo a sorrir nervosamente, que ironia absurda! O policial me olha de maneira estranha, como se dissesse, Ela está delirando! Mas não estou, trata-se apenas da última peça que a vida me pregou. Esta é a nossa música e eu não consigo distinguir se ela vem de algum rádio próximo ou da minha alma em desespero. Sim, meu amor, eu faria tudo para estar em seus braços agora. Mas, infelizmente, estou morrendo e só posso lhe prometer aguardar sua ida ao meu encontro para nos amarmos novamente e durante toda a eternidade, seja no céu ou no inferno, onde aceitarem nos receber.

             Minha vista está escurecendo e não consigo ouvir mais som algum. Perdoe-me, meu amor! Eu sinto tanto. O gosto amargo do meu próprio sangue começa a inundar a minha boca, subindo por minha garganta. Devo agradecer por você não estar aqui para me ver cuspindo sangue, para não sofrer a agonia de ver minha vida se esvaindo. Mas eu adoraria um último toque seu, um último olhar apaixonado.

             Não posso suportar mais, nem consigo mais respirar direito. Faço apenas um último esforço para lhe dar um breve adeus. Entre meu sangue e minhas lágrimas, sussurro,
             Eu te amo!
Luciana Alcantara
Enviado por Luciana Alcantara em 19/11/2007
Reeditado em 19/11/2007
Código do texto: T743175
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Sobre a autora
Luciana Alcantara
Recife - Pernambuco - Brasil
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