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CONTEMPORÂNEIDADES DE UM LOBISOMEM


Sentado numa cela de cadeia, da cidade maravilhosa onde morava, ouvia eu histórias mirabolantes dos companheiros de cárcere, meros ladrões de galinhas. Alguns contavam os motivos de estarem ali, outros falavam de histórias vividas em suas cidades, suas vilas. Eu, sem opção me prestava àquela noite besta em meio a contos bobos sem emoção, então, resolvi falar de um fato que chegado seu fim, causou muito medo e agitação no cubículo.
Bem, costumava eu, quase sempre bêbado, passar as noites em claro a observar a rotina noturna do bairro onde morava, lugar que há certo tempo sofria com ataques noturnos banhados pela lua cheia.
Toda noite de lua cheia estava eu posto na janela do meu quarto onde tudo era calmo até que a lua alcançasse seu cume, então, a partir daí havia sempre uma mulher que gritava de desespero, uma mulher qualquer, nem sempre a mesma, e, brevemente, o grito cessava-se.
Na manhã seguinte, os comentários no bairro eram aguçados e todos se punham a falar sobre o escândalo feminino da noite anterior, mas nunca alguém sabia quem era a dona da gritaria e quem o havia feito não esboçava qualquer reação ou intenção de dizer.
Naquela madrugada, no entanto, eu vira tudo acontecer. Um homem peludo, com garras fortíssimas e, as presas que saltavam sobre os lábios, adentrando o quarto de D. Maricota, presenciei também o despulo e o uivo que findava todo o conflito bem perto da janela do meu quarto. Com medo de me envolver mantive silêncio sobre o acontecido, além disso, no dia seguinte avistei a vítima toda feliz sem queixa alguma.
Já no fim do dia o boato era outro: D. Maricota pedira desquite do marido, que acabara de voltar de viagem, naquela hora (todos sabem como é, em pequenos bairros as notícias correm muito depressa).
Na segunda noite de lua cheia estava eu lá, na janela do meu aposento pronto para presenciar outra noite agitada, e na ânsia do aguardo percebi D. Maricota aflita no canto de sua janela, parecia esperar alguém que estava atrasado, porém não me preocupei muito com isso.
E então, novamente, a lua no cume do céu. Um grito feminino que muito breve durava. Viveria eu, mais uma noite instigante, pois a vítima agora era D. Carlota, que passa noite sim noite não sem a companhia do marido por conta do trabalho noturno do homem, no alambique.
Pela manhã, o povo destravava a língua a comentar o provável devaneio ouvido por todos. E assim como D. Maricota, D. Carlota também pediu desquite do marido e o povo todo se pôs a falar sobre as particularidades da mulher.
Com os fatos acontecidos no bairro, o Delegado Andrade, que era o mandante das redondezas, possuidor de muitas terras por ali, reuniu um grupo de policiais com a intenção de averiguar os tais gritos.
Num ato de autoridade reuniu todo o bairro antes do anoitecer, na praça, em frente ao coreto e questionou:
_ Alguém sabe de alguma coisa? Viu ou ouviu algo além do grito? Ninguém se prontificou.Olhei atentamente para Maricota e Carlota, mas, nenhuma reação, então, resolvi falar.
Trêmulo, quase minha voz não saía, mas saiu:
Trata-se de um lobisomem Delegado! (Eu tremia como bambu verde)
Como sabe? Indaga o chefe local.
Eu o vi, uivando bem perto de minha janela. Em seguida ele correu rumo a serra e sumiu, acho que não volta mais.
Mirando uma espingarda na direção do meu focinho o delegado esbravejou:
E como sabe que ele não voltará, por acaso tens algum pacto com ele?
É claro que não senhor! É que eu o vi fugir, só isso!
E por aquelas noites seguintes, o bicho meio-homem e meio-lobo não apareceu, mas chegaram aos nossos ouvidos, boatos de que o tal lobisomem, havia atacado outro pequeno bairro, pois o ciclo da lua cheia não chegara ao seu fim até ali.
O tempo passou, a cidade voltou ao normal, eu nem sentia mais necessidade de bisbilhotar a vida dos outros pela janela do meu quarto. As luas, agora, eram outras, tudo estava como antes, exceto o casamento de D. Maricota e D. Carlota que viviam angustiadas, principalmente durante a noite.
Apesar da calmaria momentânea sabíamos que a lua cheia voltaria, e perto deste fato acontecer eu passei a me sentir pressionado a visitar minha janela. Era mais forte do que eu, toda aquela vontade me angustiava. (Curiosidade mata viu...). Então corri para a janela e avistei a lua, logo em seguida o tenebroso uivo, afoito, ansioso, e lá se foi mais uma janela adentrada.
O grito feminino.  Breve, lançado no ar.  Era engraçado, pois começava pavoroso, e em seguida, tornava-se um gemido que gradativamente cessava.
A fera, então, pulava janela afora, quase sempre após umas duas horas de visita alheia, que inicialmente era indesejada e depois acabava em separação.
No dia seguinte, novamente a reunião. O delegado que havia passado a noite anterior na delegacia apurando os fatos, quase não conseguia abrir seus olhos de tanto sono, e ainda mais bruto que das outras vezes, gritava com os olhos nos meus:
 _ E agora, você viu algo, seu borra-botas?
_ Não senhor seu Delegado, não vi nada desta vez.
_ O delegado, ainda nervoso, questionava as damas que ali estavam:
_ E quem vai pedir separação desta vez? Prontifiquem-se senhoras!
As mulheres olhavam-se entre si, e nem um sussurro sequer.
Para finalizar a reunião, o delegado disse que ia montar uma guarda para vigiar a vila e descobrir, naquela noite, quem era esse tal lobisomem. Mas, antes que a noite caísse, faltava um fato acontecer, fato esse ocorrido sempre nas tardes seguintes aos ataques da fera. Como não podia deixar de ser, uma das senhoras, casadas, sem pensar em conseqüências pediu a separação ao marido. Mas, desta vez a separação que era rotineira sempre que ocorria um ataque, teria uma repercussão muito maior. Ninguém acreditava que aquele casal poderia se separar um dia, pois ali havia quinze anos de matrimônio muito bem sucedido. A esposa, solicitante da separação, ainda era jovem quando se casou, tinha apenas dezessete anos e seu marido ficou completamente transtornado com a notícia da separação. E com o transtorno do marido, o bairro todo escutou o cuspir da espingarda do delegado que soltava fogo pelas ventas. Para ele, o fato só aconteceria com homens comuns, não com a maior autoridade do bairro. Sendo assim, o delegado cuidadosamente, montou guarda na cidade e esperou a lua pairar no céu.
Eu, com aquela ansiedade costumeira corri para a janela e lá se foi o homem-lobo.
E lá se foi o delegado correndo, junto de seus capangas, atrás da fera.
Ao perceber o perigo, o animal fugiu pelos fundos.
Ouviam-se tiros para todos os lados, mas o bicho-homem desapareceu nas matas.
O que o delegado não percebeu foi que ao disparar contra a fera, uma de suas balas havia ferido o animal e só notou quando, no caminho de volta da perseguição, olhando para o chão, avistou gotas sangue. Então ciente do feito ele disse:
Bem homens, agora é só esperar quem é o indivíduo que aparecerá ferido pela manhã e saberemos a quem punir.
Pela manhã eu não vi se alguém foi preso, pois bem cedo segui viagem e só retornei três meses depois. Mas, para o meu azar, o delegado ainda não havia encontrado o meliante e, ao retornar ao bairro mancando, fui logo preso.
Como fui tão burro a ponto de voltar antes de a ferida cicatrizar totalmente? Prenderam-me... Vendo a dúvida e o desespero nos olhares de meus companheiros de cela, resolvi explicar:
Não se preocupem hoje não é lua cheia e não ataco homens.
Assustados e um pouco distantes de mim, curiosos, questionaram:
_ Diga-nos homem, ou seja lá o que você for, por que as mulheres separavam-se dos maridos no dia seguinte?
É que elas apaixonavam-se por mim após meus bons tratos, e eu sempre deixo a elas bilhetes como este:

“Amo-te tanto meu amor”... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de calmo amor prestante,
E te amo além presente na saudade.
Amo-te enfim, com grande liberdade
Dentro da liberdade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude”.
 
Clebber Bianchi
Enviado por Clebber Bianchi em 19/11/2007
Código do texto: T743428
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Sobre o autor
Clebber Bianchi
Taubaté - São Paulo - Brasil
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