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Eternamente

Hoje vi a morte, trajava vestes escuras como a noite. Disse-me em tom sombrio que minha triste existência não passava daquele dia e desapareceu sem que eu pudesse argumentar ou sequer ver seu rosto. Minha face, dantes tão severa, empalideceu. Meu corpo tremia de uma forma nunca antes sentida. Comecei a caminhar sem rumo, sem direção.

No caminho vi pessoas de rostos amigáveis, antigos conhecidos que puxaram conversa, nada respondi.

Chegando em casa vi meus quadros, meus livros, meu computador; objetos que tanto lutei para obter, agora os vejo sem importância alguma. Penso em me matar, pelo menos encurtarei minha dor, mas não posso, mesmo que a vida esteja curta, aproveitarei cada segundo que me resta. Corro penso em fugir, mas quem foge da morte?

Escuto barulho, ando até a janela, vejo crianças a brincar, lembro-me da minha infância, sem amigos, sempre só. No outro lado da rua vejo rapazes a conversar com expressões alegres. Imagino eu daquela idade, nada fiz apenas me afoguei num mundo repleto de solidão, como um barco que navega sozinho no oceano.

Ao voltar da janela lembro-me da hora. Ainda me restam treze horas. Decido: morrerei feliz, sairei na noite, vou me divertir. Ao ver minha figura no espelho, percebo que não sou feio como imaginava, mas o que isso importa perante a certeza que trago comigo?

Tomo um banho, barbeio-me, ponho minha melhor roupa, passo-me uma loção que ganhara da minha pobre genitora antes dela falecer a dois anos. Quero sorrir, mas o fardo que carrego é muito pesado.

A noite inicia, esforço-me para não chorar, mas as lágrimas se acumulam. Ando na rua, entro num bar, peço uma dose de pinga, o moço sorri, traz o copo e diz:

- a melhor pro amigo.

Ao tomar, sinto arder conforme o líquido desce. Sinto vontade de correr, clamar por água, mas nada fiz. Senti tontura, algo que jamais havia tido. Paguei a dose com uma nota, das poucas que me restaram do último pagamento. Saí do bar, vi um local que de imediato chamou minha atenção. Aproximei meu corpo que apesar da relutância ainda caminhava. Ao chegar à porta, leio em pequenas letras: “proibido a entrada de menores de dezoito anos”. Entro sem barreiras, pois minha face denuncia meus 40 anos. Ao entrar vejo refletores de luzes que me encadeiam a visão; vejo mulheres e homens a namorar, algo que julguei desnecessário, agora sinto um vazio que despertara tão assustadoramente. Lembro-me de Ana, quão lindo eram seus lábios, que lhe dava a aparência de menina-mulher.

Avistei do outro lado, uma jovem de sorriso amigável. Aproximei-me e perguntei se poderia sentar ao seu lado, ela assentiu com um pequeno movimento, deixando-me em puro êxtase.

Conversamos, sorrimos, mas eu ainda continha expresso o nervosismo dos seres de almas tímidas, que vi desaparecer quando ela tocou minhas mãos, convidou-me a dançar. Levantei, coloquei o copo em cima da mesa e tomei-lhe a mão num gesto de puro cavalheirismo. Deixamo-nos levar pela música, pelo toque dos instrumentos, naquele ritmo alucinado da nova geração. Eu me divertia, ela parecia está tão feliz, seu sorriso era contagiante. Seus lábios vieram ao encontro dos meus e terminamos aquela dança num beijo sôfrego e ao meu tempo suave.

Depois daquele beijo demorado, voltamos à mesa, pedi champanhe, o rapaz trouxe, pedi-lhe duas taças; paguei tanto o champanhe, quanto as taças, que tais não podiam ser levadas do local. Levamos com ajuda do garçom que depois que lhe passei uma nota de cinqüenta reais, falou-me que entendia o amor.

Andamos de mãos dadas, feito adolescentes. Chegamos à praia, vimos os raios da lua descendo no mar, formando um cenário maravilhoso. Sentamos na areia, abri com maestria a garrafa de champanhe e coloquei até transbordar as taças. Bebemos e nos despimos ali mesmo, entramos na água, a praia estava deserta, tínhamos a lua como única testemunha do nosso amor.

Entregamos-nos de corpos ardentes àquela atração eloqüente. Depois de algum tempo lembrei do meu triste destino que se aproximava e senti o bafo gélido da morte. Quis implorar para ficar mais um pouco nos braços de Michely antes de partir para minha última viagem. Apenas chorei, ela olhou-me e perguntou o motivo de meu pranto, falei de súbito:

- vou morrer hoje.

Grande foi a minha surpresa, ela respondeu:

- eu também.

Depois disso viemos entender que a morte nos uniu para terminamos juntos e felizes.

Olhei no relógio, ainda faltavam quinze minutos, ficamos abraçados, marcou meia-noite, vimos abrir o túnel da morte, entramos sem medo algum. Estávamos apenas felizes por estarmos juntos.

Triste é que comecei a viver quando comecei a morrer.

tetê castilho
Enviado por tetê castilho em 20/11/2007
Código do texto: T744525

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Sobre a autora
tetê castilho
Belém - Pará - Brasil, 30 anos
73 textos (50768 leituras)
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tetê castilho