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Algum paete no top


Antes ele era tão meu e era tão bom, loirinho e eu amando cada moléculazinha dele.
Nunca quis filha, dizia sempre pra ele: Menina dá trabalho demais, tem que comprar vestidinho, batonzinho, vestir de princesa. E depois elas ainda vem e tomam o lugar da gente. é tão bom, filho, que você seja homem.
Imaginava ele já moço forte, maior do que eu. Então eu o exibiria para todas essa vizinhas ficarem loucas pras vagabundinhas das filhas delas casarem com ele. Não iam casar não.
Um dia ele encontraria uma princesa das europas e eu teria um lindo netinho, que iria virar outro homem lindo.
Mas o senhor vê o que os filhos fazem com a gente né? Vê se isso aqui é lugar de mãe, esse lugar frio, essas paredes cinza. Como o senhor disse que isso aqui se chama?
- Instituto médico legal, senhora.
Sim, sim, instumélega. É muita ingratidão um filho fazer uma mãe vir a um lugar desses, não é? Mas eu já estou acostumada, Dudu desde que entrou na escola me dá dor de cabeça.
Todo dia eu fazia o almocinho dele e ele nunca comia direito.  Quando inventou um tal de companhia de teatro no colégio então, era um martírio.
- Não vou comer mãe, to de dieta, pro vestido do personagem caber em mim. É a Julieta mãe.
- Personagem mulher, filho? Logo você, tão viril. você seria um lindo Romeu.
- Ai, mãe não pode, o Romeu o Ronaldo já vai fazer.
- Mas filho, as meninas devem querer fazer a Julieta.
- Ha não mãe, as meninas lá do colégio são todas idiotas, iriam estragar tudo.
Ficava tão feliz, pelo menos ele percebia que essas menininhas não estavam a altura dele. O meu bebê, um ator, encenando em um papel feminino por amor a arte. .  Sonhava muito com ele casando com aquelas famosas tipo a "Merilin Monrrrou".
Nunca vi alguém amar tanto o teatro, vivia me pedindo pra colocar ele num daqueles cursos profissionais. As vezes Dudu ia com os amiguinhos lá pra casa e pegava meus batons, meus vestidos e ficavam encenando dentro do quarto, quase sempre ele levava as coisas pro grupo e não voltava nunca mais com elas. Eu não ligava dele levar as coisas não, mãe tem mais é que apoiar mesmo. Só sinto falta de um top de paetês que eu ganhei um dia num bingo de festa junina e ele levou.
Ao menos ele estava feliz, e é isso que uma mãe sempre quer: a felicidade dos meninos.
Ele faz anos no dia 31 de dezembro. Quando ele estava pra fazer 17 anos. A família resolveu fazer um festão, juntar o aniversário dele com o ano novo. Nós começamos a juntar dinheiro pra alugar um sitio. E eu, ia guardando um pouquinho a todo mês pra poder costurar um vestido muito lindo pra mim usar no dia.
Eu fiquei muito triste quando o dinheiro sumiu faltando 1 mês pro reveillon. Mas, Deus fecha uma porta e abre uma janela né? Eu sou costureira sabe? Uma cliente minha morreu deixando um vestido quase pronto, faltando só uns retoques, alarguei um pouco e usei. Que ela descanse em paz.
- A senhora conhece a letra dele? Esse caderninho é dele
- Que menino delicado, sabia que eu ia gostar de ver esse caderno, mandou você me entregar, pra  já ir matando a saudade enquanto ele está lá dentro, né?
Ele sempre estava escrevendo nele e dizia que estava anotando so detalhes da surpresa  que ele ia me fazer no dia do aniversário.
Mas antes não tivesse tido essa festa, foi a última vez que vi meu bebê.  Minhas irmãs com todas aquelas filhas sebentas dela estavam lá, sempre falando mal do Dudinha, dizendo que teatro é coisa de "homemsexual".
Ele sumiu no meio da festa e voltou vestido de mulher. Ele decidiu encenar para todos aqueles ignorantes. Ai foi tão lindo meu filho, mas quando ele subiu em cima da mesa eu quase morri, a mesa podia cair, mãe não agüenta tanta preocupação.
- Bravo, Eduardinho, meu amor, agora bota sua roupa normal pra gente cantar os parabéns.
- Não mãe, não tem roupa normal, eu sempre quis ser mulher, eu to me assumindo mãe. Olha bem pra mim.
- Chega Eduardo, olha, seus primos vão falar. Deus me livre de maledicência de família.
Há essa juventude não sabe o limite das coisas né? Eu admito que errei em uma coisa na educação dele, eu o ensinei a ser muito orgulhoso, foi só eu falar dos primos e ele se ofendeu. Saiu em disparada, e sumiu.
Só Jesus sabe quantas saudades eu senti do meu menino, mas ainda bem que ele iluminou a cabeçinha orgulhosa dele e ele resolveu me procurar.
Esses jovens com gostos estranhos, marcar encontro com a mãe logo nesse lugar?  E ainda manda a policia avisar, há esses meninos.
Marcela Fells
Enviado por Marcela Fells em 21/11/2007
Código do texto: T745730

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Sobre a autora
Marcela Fells
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
11 textos (407 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/08/17 05:43)
Marcela Fells