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Eu não sou um classe média

Eu presenciei diversas loucuras nos períodos em que estive com minha família, invariavelmente vinha um e me dava umas porradas que só faziam alimentar meu ódio e eu fugia de novo, as surras eram violentas mas não o suficiente para levar alguém pro hospital. Eu sei que em muitas boas famílias  este problema é uma constante então o que esperar da minha? Onde ninguém conseguiu sequer terminar o primário?.
Meu pai morreu no dia vinte e oito de fevereiro de mil novecentos e noventa e seis  em conseqüência das enchentes que inundaram a favela da Cidade de Deus. A perna dele estava com um bruta corte mas o imbecil cismou de ajudar a resgatar os corpos que estavam submersos, quando acabou de tirar o quarto corpo, percebeu uma sanguessuga no ferimento. Caiu de cama por três dias se queixando de dores agudas nas juntas e cansaço, constataram que ele pegou leptospirose.
Na casa dele morávamos eu, minha irmã Daiane, meu meio irmão Nicolas, meu pai sua mulher, era ele quem comandava aquela guerra, minha madrasta instintivamente nos odiava, Daiane que é bem preta como minha mãe biológica era quem mais despertava a fúria de Marina, ela saía pro baile funk e retornava ao raiar do dia mas era só ela botar o pé em casa que começava a pancadaria, era de cinto, vara, tamanco...incrementado pelos xingamentos racistas. Me lembro que minha irmã, após tanta porrada, teve a coerência de ir embora e morar com uma amiga. Ela morreu assassinada dois meses depois, divida de crack
     Quando meu pai estava vivo ele me batia e eu fugia de casa e nunca ficava só na cidade do Rio, ia pra outros municípios principalmente para a Região dos Lagos, que eu adorava. Já fiquei num abrigo chamado Criam atualmente é um abrigo somente para menores infratores. Ele me buscou lá e depois num abrigo em Niterói chamado Feem  de onde era praticamente impossível fugir. Eu odiava a Feem, lá os meninos eram violentos e brigavam por qualquer besteira, eu não sabia brigar mas encarava, quase sempre levava a pior. Uma vez um moleque apertou meu saco até eu gemer e implorar perdão em outra levei um soco no nariz que saiu sangue de imediato e uma que num campinho do abrigo, eu pulei em cima do moleque enquanto ele estava amarrando os sapatos, pulei de brincadeira mas horas depois ele me meteu a porrada no banheiro. Na Feem, o código de honra era a lei de talião, dente por dente e olho por olho.
     A casa do meu pai era horrível, tinha uma estante tosca em forma de casinha que sustentava a televisão e sofás vermelhos imundos,  ele me proibia de ver filmes com sugestões eróticas, me dizia pra "virar de bruço e dormir". Dormir no meio da tarde? Estúpido.
Ele cheirava, e um dia a loucura do pó foi tão grande que ele pensou que eu fosse mata lo e  pegou a espingarda que estava sempre apoiada na parede e apontou pra minha fuça, e eu estava só brincando com duas tampinha de garrafa, ao menos ele quase nunca me bateu de mão fechada, só aberta.
   Depois desse episódio decidi ir morar com minha mãe, fugi de lá varias vezes também, mas ela nunca me buscava e lá a casa e o modo de vida eram bem mais precários. As paredes eram de madeira compensada e a face interna cobertas de carpete velho, o cheiro do lugar era terrível, algo como pano de chão guardado, suor e  restos de comida, ela  tinha um comportamento me relação a higiene que beirava á indiferença. Seu tom de voz era baixo e aparentava ter uma calma tremenda, mas na verdade era tudo conseqüência de muito fumo.
          Ela  morava na Rocinha bebia e usava drogas, ela é do tempo em que chamavam cocaína de "brizola", fim dos anos oitenta. Hoje eu não sei se ela está viva ou não. Vivia tendo problemas estranhos, pela manhã eu sentia um forte cheiro no ar e os lençóis dela estavam sujos e molhados por um líquido vermelho.
 Ratos e baratas cascudas proliferavam, uma verdadeira legião andando numa extremidade entre o teto e a parede, imundo.
          Um dia eu tinha comido siri cozido na casa do meu avô, que morava perto da minha mãe. E eu estava realmente com tesão de comer siri, mas o siri tinha acabado e eu fiquei de pirraça dizendo: "eu quero sirriiii", fiz tanta manha que minha mãe ficou puta e me chamou, Trancou a porta e mandou  comer um panelão de arroz e outro de feijão. Eles dois estavam na minha frente. Já tinha percebido sua cara raivosa. Comi um pouco e não agüentei mais. Ela me deu uma cintada na cara em cheio. Comi já chorando, parei e ela me deu outra que o sangue desceu. E me obrigou a comer mais. Eu chorei horrores. fui dormir e me falou que pela manhã eu iria comer 6 pães e muito café, pra parar de ser guloso.
               Meu pai se separou da minha mãe em meados dos anos 80, eles saíam na porrada MESMO. Um dia aconteceu uma coisa que me assusta até hoje, eles gritando quando eu pedi para  tomar um Yakult que minha mãe deu pro meu pai.
- Filho não toma, porque tá com veneno. Meu pai falou.
- Toma sim, filho, toma! Minha mãe.
 Ele jogou fora e um cachorro tomou e morreu no outro dia. Quando em um passeio eles compraram aquele biscoito Presuntinho da Piraquê mal eu abri a embalagem e eles saíram no tapa, o pacote acabou rasgado no chão. Uma outra vez, meu pai quebrou o aparelho de som e a televisão. Ele sempre resolvia as coisas no braço mesmo. Era rústico e burro. Um dia fui perguntar uma coisa bem idiota e o sujeito ficou incomodado falando pra não fazer "perguntas difíceis".
Depois da separação, minha mãe arranjou  muitos caras, ficava um tempo com eles mas não mais que dois ou três meses.
Ela ficou bastante tempo com um traficante conhecido como "crek-crek" e um dia meu pai me levou pra ficar na casa dela na Rocinha. Eles sequer se levantaram da cama e ficaram conversando, assim que meu pai foi embora e o cara disse:  - Eu poderia ter dado um soco na cara dele. Não sei porque ele disse isso. Depois transaram.
Era  tarde de março  e eu estava brincando com pedaços de tijolos quando ela me disse pra comprar cerveja, dessa vez ela namorava um cara parecido com o Lobão, quando eu cheguei estava um auê na casa, umas cinco mulheres levando e trazendo bacias d’água, ela tinha arrebentado uma garrafa na cabeça do rapaz, ele ficou retardo, esses dias eu vi ele andando lá pelos lado da vila Isabel, está pancada mesmo, mas nunca deu em nada, ela tinha uns affaires na policia também. Me lembro que ela era gorda e da última vez  que a vi parecia uma múmia, com cabelos brancos e banguela, mesmo no tempo das farras ela raramente se cuidava, preferia pintar o púbis de louro do que tomar banho e quando cozinhava, deixava o frango com as partes internas cruas e sangrando.
     Mês passado eu conheci uma menina que eu achei que fosse ficar comigo, quando nos começamos a conversar eu percebi que não acompanharia o papo dela e resolvi contar minha vida, golpe sujo, fiz isso para ver se ela se apiedava de mim, qual o que? Ela ouviu tudo calada e no fim, arrumou as coisas, virou se para mime disse com um olhar blasé:
- Ralé
Com louvor.
Marcela Fells
Enviado por Marcela Fells em 22/11/2007
Código do texto: T747138

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Sobre a autora
Marcela Fells
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 27 anos
11 textos (411 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/10/17 06:15)
Marcela Fells