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A garota caindo no mar

Preparam minha execução, querem me envenenar, um veneno que me fará explodir de dor, meu pai está na platéia e protesta, pede uma morte mais humana, a policial loira diz que não tem nada com isso. Mas eu ainda tenho heroina de uma pureza assassina no bolso, imploro por uma overdose “ Vai sair de graça para o estado, estou financiando minha própria morte”.
Diante do fim, porque minha indiferença? Porque esse show que montaram para me ver morrer me agrada?
O governo decidiu aplicar a pena capital aos viciados, segundo eles, todos os males do estado eram culpa nossa, a massa da prostituição éramos nós, nós financiávamos o narcotráfico. Quem ainda não havia se metido com drogas ficaria assustado vendo as execuções públicas. O movimento teve uma ótima aceitação popular, os pais entregavam seus filhos junkies e recebiam uma fantástica indenização do governo e os melhores lugares na hora do show.
“ a cidade está querendo beber teu sangue” sussurra no meu ouvido um guarda sardento com ares de inteligente, eu o conheço, autografei um livro pra ele pouco tempo atrás. Sou uma romancista conhecida, no ultimo ano havia me tornado um ídolo, os jornais diziam que meus livros haviam ajudado aos jovens Brasileiros retomarem o prazer da leitura. Muitos desses jovens estão gritando lá embaixo, xingam os policiais, ameaçam quebrar tudo, como eu amo essas crianças, meu bom Deus.
Entreguei o pequeno embrulho laminado para a policial que me olhou com desprezo, uma outra segura me braço e me manda ajoelhar, posição humilhante nunca, a carrasca gorda destila seu cinismo “ colabora com a gente menina, uma picada no seu caso nem é caridade é luxo. E terminada num deboche espetacular “ Ou tu prefere o carinho de chute, pau, murro, faca, fogo, pedra?” Para levantar mais a multidão, puxa meu cabelo “covardes, baixos e desclassificados, isso não se faz”. Hoje é aniversario da minha mãe, recebi um bilhete dela reclamando que eu atrapalhei as comemorações e que eu não pensasse que eles colocariam luto sequer por um minuto. pela manhã li o bilhete para a minha companheira de cela que riu e acrescentou: “tua família vai se fazer com sua condenação, não vai sobrar livro seu nas livrarias, de certo que vai chegar a centésima edição cada um”
Morre-se todos os dias, pelos melhores motivos mas tem muita gente que nunca foi nada morrendo também. Queria morrer por um sonho, mas não, morro pelo heroina que se nada me valia consolava e ainda deixo uma obra bem feita e estruturada, mas é engraçado: morro pelo meu consolo. Me jogam no chão “facilita, senão tu vai acabar mesmo é no cacete”
É um absurdo, uma garota como eu, um gênio da literatura contemporânea vai morrer ajoelhada no chão, despida de honra, nivelada a marginal. Não é justo, eu dou prazer a esse povo todo e eles me tratam assim? Não merecem mais a minha companhia.
Suplico a mulher gorda que me mate logo, ela puxa meu cabelo para trás fazendo inclinar a minha cabeça e as veias do pescoço saltarem, com um golpe só enfia a agulha com força e eu começo a chorar, parecem prontos, a gordona aperta o embolo até o fim; meu coração deu um baque surdo e uma névoa branca encobriu minha visão, quis respirar fundo mas o ar não entrava, quando tentei engolir um pouco de saliva percebi que minha boca estava tão seca que parecia em chamas, a moça loira levantou a perna e chutou a minha cabeça, cai gemendo e sentindo pontadas no meu coração, a imagem de uma garota se jogando no mar surgiu em minha mente, o mar, a garota e o precipício não tinham cor, era tudo como se fosse um daqueles filmes antigos que eu tanto amava; a garota caindo no mar.
Marcela Fells
Enviado por Marcela Fells em 22/11/2007
Código do texto: T747140

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Sobre a autora
Marcela Fells
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 29 anos
11 textos (407 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 24/08/17 06:21)
Marcela Fells