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ALMAS COMPLEMENTARES

A tarde cai vagarosa, espichando as sombras das arvores, enchendo de uma estranha saudade o peito de Felipe, simples caboclo marajoara. Nascera naquele lugar, criara-se ali, tinha tudo que precisava e não precisava de muito, vivia bem. Bonito e valente não sofria muito com os males do amor, as ribeirinhas suspiravam por ele, os pais achavam-no um bom partido, era feliz.

O amor segue fielmente a lei da física, sim os opostos se atraem. Naquela manhã o nosso jovem encontrou o seu oposto perfeito, uma linda jovem chamada Gabriele, moça de hábitos urbanos, fina, rica e estrangeira. Quanto a ela posso afirmar que a beleza de Felipe não passou despercebida. O encontro aconteceu por acaso, como deve ser todos os grandes encontros; uma queda, um salvamento, eis a receita do amor à primeira vista.

Naturalmente os turistas chegam cheios de curiosidade, vontade de aproveitar tudo. Gabriele e seus primos John e Hart chegaram à tardinha, hospedaram-se na única pousada da cidade e descansaram da longa viagem. Pela manhã cheios de disposição, embrenharam-se no mato, queriam banhar-se no famoso igarapé das almas, Hart já havia passado férias na cidade e conhecia minimamente o lugar, trilha fácil, teoricamente nada poderia dar errado, porem nada é cem por cento seguro. Estavam todos se banhando quando a moça notou uma árvore toda florida na parte mais íngrime do igarapé, encantada resolveu olha-la de perto, a terra cedeu e Gabriele despencou.

Felipe estava próximo do local do acidente, pois era hábito seu entrar em comunhão com a natureza antes de iniciar os afazeres do dia, segundo ele assim recebia as bênçãos do sol, da água, do vento e da terra. Enquanto fazia suas preces matinais escutou o grito da moça, dentro de segundos estava lá descendo o barranco para resgatá-la, os primos assustados ainda não haviam se movido. Tomo-a no colo e trouxe-a para a ribanceira, não havia grandes ferimentos, só um pé torcido, depois de duas tentativas fracassadas de ficar de pé, Gabriele cedeu o oferecimento do rapaz de carregá-la até a pousada. Falaram pouco, apenas alguns agradecimentos por parte da moça, Felipe manteve-se calado durante quase todo o trajeto. O aroma do corpo dela era tão bom o rapaz perdeu-se por algum tempo nele, deixou que os sentidos o guiassem, beleza estonteante, carregá-la-ia pela vida intera se preciso fosse, mas a pousada não era tão longe assim, logo chegaram.

O velho Firmino, o dono da pousada, apareceu na porta levaram-na para o quarto e chamaram a puxadeira local, depois de alguns gritos o pé estava em forma outra vez. Dona Chica ao sair do quarto disse a Felipe que a Moça queria vê-lo, ele entrou, conversaram como dois velhos amigos, Felipe nunca fora de muita conversa mais agora as palavras vinham fáceis, era estranho que tivessem tanto assunto, sendo de mundos tão diferentes.

Tudo isso acontecera pela manhã e já possuía raízes profundas no coração do moço, aquela saudade, uma vontade enorme de vê-la novamente apertava o peito, como incapaz de resistir largou os devaneios em meio a sombra alongada da mangueira e caminhou guiado por impulso, resoluto. Avistou-a linda, sorridente, era sem dúvida a mais linda moça de toda a face da terra, pensou o apaixonado. Ficou parado contemplando-a, não quis se aproximar, o que falaria? Ela perceberia seu interesse? Riria de seus sentimentos? Estava decidido a voltar quando escutou aquela voz cheia de sotaque chamando-o, aproximou-se, fora recebido com um largo sorriso e um beijo sincero no rosto. Mundos diferentes nenhum futuro juntos, sofrimento na separação, Felipe mandou toda essa racionalidade para o inferno, faria como todo o enamorado aproveitaria o momento. Consolava-se acreditando na efemeridade de tudo, nada é eterno pensava; arriscaria, no mínimo teria uma bela história para contar na velhice.

Espontânea segurou-o pela mão, caminharam pela pracinha como dois namorados, olhares curiosos seguiam-nos, ela nada percebia não estava acostumada com a vida em cidade pequena, ele percebia tudo, mas não ligava, estava muito feliz para isso. Tomaram sorvetes, foram até o trapiche olhar o rio, tudo perfeito, como um encontro de almas pares, eles completavam-se. A noite chegou, Felipe sugeriu que fosse a uma festa regional, ela aceitou; muito carimbo, algumas caipirinhas, um beijo, a noite estava completa.

Outro dia, as lembranças ainda vivas, acompanhavam não só Felipe, mas também Gabriele, a jovem não esquecia um só minuto o caboclo. Ao meio dia Felipe apareceu para buscá-la, iria levá-la para conhecer um parte do seu mundo, ela foi. Foram a cavalo, vinte minutos depois estava num lugar lindíssimo, terra firme, sombreado por lindas árvores de folhagens densas, um córrego em frente, e ao meio disso tudo um banquete preparado por ele para ofertá-la, ela soltou um gritinho de contentamento, abraçou-o forte e beijou-o de forma intensa e apaixonada.

Encontravam-se diariamente, totalmente envolvidos sentiam necessidade quase que física um do outro. Como Felipe morava só, Gabriele dormia quase todas as noites com ele, apesar. Passaram as duas semanas previstas, Gabriele prolongou a estadia por mais duas. Não falavam da separação, viviam o presente, aproveitavam cada segundo; longos passeios a cavalo durante a madrugada, lindos cenários, surpresas agradáveis, liberdade. Contudo o dia da partida chegou, era inadiável dessa vez, Felipe sofria mudo sabia que nada podia fazer, Gabriele era mais expansiva, deixava as lágrimas rolarem soltas. Sete horas anunciava o sino da igrejinha, acompanhado as seguir do apito agudo do barco anunciando a partida, Os turistas eram levados de barco a capital de lá seguiriam de avião, beijaram-se, sentiram o gosto da despedida através do salgado da lágrima, agora elas fluíam copiosamente de ambos. O último apito e a partida.

Não houve telefonemas, passaram seis meses e nenhuma palavra, Felipe sofria sozinho, procurava isolar-se de tudo, resistia às investidas de futuras pretendentes e ficava cada vez mais fechado, numa noite sonhou com Gabriele chorando, acordou assustado, cheio de angústia. Por volta do nono mês de separação recebeu um telefonema, uma voz masculina se apresentou como pai de Gabriele, disse que a filha teve um mal súbito e desconhecido na chegada ao país, ficando em estado de choque por todo aquele tempo, não falava, não fazia nada, apenas chorava, por obra divina voltara a si no momento que dava a luz, sim, Gabriele estava grávida, Felipe era pai de um lindo bebê. Durante as dores do parto a moça gritava o nome do amado, por isso o pai informado de quem se tratava resolveu ligar avisando e oferecendo a passagem àquele que poderia ser à cura definitiva da filha. Felipe viajou, chegou a um mundo que não era o seu, encontrou um rosto transfigurado pela dor, mas que se abriu em um largo sorriso quando o viu, foram longos meses de tratamento, mas era aparente a melhora da moça, o bebê crescia lindo e saudável, o jovem vivia em função daqueles a quem amava.

 No início não sofrera tanto com a diferença de habitat, pois pouco percebia o mundo além daquele círculo onde estava os seus, porém com a recuperação completa da moça, vieram os passeios, tudo era novo, assustador, principalmente a língua diferente inteligível. Com o estranhamento viera à saudade de casa, do mato, dos amigos; Gabriele por outro lado parecia radiante mais bela que nunca, totalmente integrada. Na comemoração do primeiro aniversário de Mateus, o filho do casal, Felipe sentiu-se totalmente intruso, um estranho, no dia seguinte chamou a amada e comunicou o que estava sentindo, ela chorou disse que ele não a amava mais, ele jurou amor eterno. Eram almas complementares e não idênticas cada uma tinha suas necessidades, seu jeito, mas amavam-se, amor puro e verdadeiro, por isso tinha que haver um jeito de conciliar aqueles mundos opostos. A oportunidade aconteceu duas semanas depois, Gabriele que trabalhava na empresa hoteleira da família desde dezoito anos, afastada apenas no período de convalescença, recebera uma nomeação para presidir um complexo de lazer destinado aos turistas no Brasil, mas precisamente no Marajó.

Felipe ajudou na construção do complexo, ele aceitou dividir seus pequenos paraísos, hoje o empreendimento é um dos mais lucrativos da empresa, recebe gente dos mais variados lugares. Tudo organizado, muito bem planejado, a qualidade das instalações recebe grandes elogios dos hóspedes e da imprensa relacionada à hotelaria, a programação variada atrai públicos de diversas idades, por ser um espaço do mais alto nível, só é freqüentado pela elite, tudo é extremamente caro, por isso a pousada do velho Firmino não perdeu seus hóspedes.

Casados há dez anos, Gabriele e Felipe, vivem felizes, tem um ao outro, além de um filho lindo e inteligente. Mateus é um garoto muito amado pelos seus pais e querido por todos da localidade, carismático sabe como ganhar novos amigos, sempre é o comandante das brincadeiras, não por imposição, cativa, um líder nato. Felipe é o vice-presidente do complexo é ele quem substitui a amada quando esta viaja o que, aliás, é freqüente. Ambos trabalham com o que gostam Felipe, na verdade aprendeu a gostar da parte administrativa, mas sempre gostou da parte de planejamento do espaço físico, é ele o incumbido de revelar a natureza exuberante do lugar, aos olhos ávidos dos turistas; Gabriele apesar de viver no mundo do amado, não despovoou o seu, viaja muito a trabalho o que a deixa em contato com a família, os amigos e principalmente com o espaço urbano. Apesar do tempo transcorrido desde primeiro encontro, ainda sentem paixão, o fogo dos primeiros dias ainda arde vigoroso e arderá por toda a vida, almas complementares não se separam.

tetê castilho
Enviado por tetê castilho em 22/11/2007
Código do texto: T747338

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Sobre a autora
tetê castilho
Belém - Pará - Brasil, 30 anos
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