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O DIA EM QUE MINHA MULHER NÃO COZINHOU PRÁ MIM

 

 

   Eram exatamente seis e meia da manhã, o telefone tocou e minha mulher atendeu. Era minha cunhada. “Alô. Quem é ? Oi , tudo bem ? (pausa) Você não pode ir ? (pausa) Tá tudo bem. Eu tinha outros planos, mas tudo bem. Pode deixar que eu acompanho a mamãe” . Completamente embriagado de tanto sono ouvi bem ao longe as explicações da minha mulher.

   Pelo que entendi, minha sogra precisava de alguém para levá-la ao hospital. Ia fazer uns exames demorados e na volta alguém teria que ficar com ela , até que minha cunhada pudesse substituí-la. Parece que ouve um imprevisto.

   Voltei a cochilar e só me lembro de ter ouvido algo parecido com : “ Não vai dar para fazer almoço, mas você pode dar um jeito. Só não se esqueça de trocar a água do gato e dar comida para os periquitos. Tchau, um beijo”.

   Virei para o lado , peguei no sono e só acordei lá pelas 9 horas, com o barulho da chuva que caía forte. São Pedro esquecera alguma torneira aberta! Gosto de me espreguiçar quando acordo, só que de repente me lembrei que minha mulher tinha saído, talvez demorasse e deixara instruções tipo, trocar a água dos periquitos e dar comida para o gato , ou alguma coisa assim.

   As mulheres são engraçadas. Se preocupam mais com os animais de estimação do que com os maridos (por ordem de preferência e atenção os filhos estão em primeiro lugar, os bichos de estimação em segundo e os maridos em último lugar na fila).

   Em principio não vi muitos problemas pelo fato de ficar sozinho. Talvez fosse até bom e com certeza, tentaria tirar todas as vantagens disso. Vejam só quanta coisa poderia fazer : ir ao banheiro e deixar a porta aberta, calçar o tênis e deitar no sofá, escutar minhas músicas no volume máximo, tomar banho , sair do banheiro enrolado na toalha e ir descalço para o quarto, enfim, fazer tanta coisa que minha mulher reclama, resmunga e proibe ! E olha que não sou fumante, porque se fosse aproveitaria para fumar na sala, bem em frente a televisão deixando cair cinza de cigarro no tapete.

   Gosto muito da minha mulher mas as mulheres têm uma característica em comum : reclamam, resmungam e proibem os maridos de fazer tudo o que mais gostamos de fazer. Não entendo e nem sei se algum dia vou entender o motivo.

   Mas, e tem sempre um mas, o dia estava só começando e os problemas também e jamais poderia supor as dificuldades que teria que enfrentar ficando sozinho em casa. A primeira coisa a fazer seria tratar dos bichos de estimação.

   Não me lembro o que era para dar para os periquitos, água ou comida ? E para o gato ? Na dúvida faria o seguinte: água e comida para os dois .Era muito mais prático. Dar água não era complicado mas e a comida ? Bem, gato não come alpiste (que conclusão brilhante!), portanto, a partir deste raciocínio, resolver esta questão não seria complicado. Abri um dos armários (na verdade abri todos os armários) até que encontrei um pacote escrito “comida para gatos”.

   Dentro tinha uns grãos ou caroços esquisitos, de várias cores e sem nenhum cheiro e então peguei a vasilha do gato (pelo tamanho não podia ser a dos periquitos) , coloquei uma pequena porção e fiquei em dúvida se tinha que misturar leite ou não. Achei melhor misturar só um copo, mas seria frio ou morno ? Decidi que morno ficaria melhor.

   Tudo bem, tudo certo, coloquei o leite na leiteira para esquentar, mas onde estava a caixa de fósforos ? Demorei um pouquinho para encontra-los. Isso não era nenhuma novidade pois só há pouco tempo, absolutamente por acaso e sem que ninguém me orientasse, descobri que no forno tem uma lâmpada que acende se você pressionar determinado botãozinho.

   Demorou mas consegui dar água e comida para os bichos (considerando-se que esqueci a gaiola aberta e quase que os periquitos fugiram). Se fiz certo ou se eles gostaram, só Deus sabe! Pelo menos alimentei os bichos mas e meu café ?

   Aliás, como é que se faz café? Na minha casa tem uma cafeteira automática mas, sinceramente, o máximo que sei fazer é ligá-la na tomada. Como resolvi o problema ? Simples: tomei um copo de leite gelado com açúcar ( que minha mulher não descubra que o leite estava um melado..) e alguns biscoitos creme-cracker (pelo tamanho da embalagem, não tive dificuldade em encontrar a caixa de margarina na geladeira. Só não consegui encontrar foi o queijo minas).

   Continuava chovendo muito, por isso não fui a padaria comprar aquele pãozinho quentinho que minha mulher todos os dias me servia.

   O tempo foi passando e pude fazer tudo que prometera a mim mesmo, menos fumar e deixar cair cinza de cigarro no tapete. E aí chegou a hora do almoço. Claro que poderia almoçar fora, mas chovia muito e na véspera tinha deixado meu carro na oficina. Além disso, não sabia onde estava o telefone da pizzaria que entregava em domicilio. O jeito seria eu mesmo fazer meu almoço.

   Só  tinha um pequeno mas importante detalhe: eu não sabia cozinhar, muito menos fritar um ovo. A fome ou o apetite (nunca sei qual é o certo) estavam aumentando e eu tinha que arrumar uma solução. O que fiz ? Primeiro consegui “ cozinhar” dois ovos. A idéia seria cortá-los em rodelas para enfeitar o prato. Só que um deles saiu um pouco mole e aí tive a brilhante idéia de misturar um pouco de farinha de mandioca (minha mulher devia deixar essas coisas em lugares mais à vista, com mapas e placas indicativas), e a mistura acabou virando uma farofa, meio esquisita, mas era uma farofa.

   Já tinha um ovo cozido cortado em rodelas e um pouco de farofa esquisita. Pesquisando as sobras na geladeira achei um tomate, meio alface, azeitonas e uma fatia de presunto. Tinha outras coisas numas panelas e travessas mas nem quis olhar pois o que encontrasse ali dependeria de forno, micro-ondas e fósforos e eu não sou muito bom em nada disso.

  Finalmente (até que enfim !) meu almoço ficou pronto. Meu prato estava assim arrumado; um pouco de farofa esquisita, um ovo cozido cortado em rodelas, um tomate meio murcho e sobras de alface (na verdade, três folhas pequenas), presunto e as azeitonas. Coloquei algumas gotas de ketchup (o bico estava entupido), comi tudo ,“lambi o prato” mas isso não significa que almocei bem.

   A impressão é que tinha um buraco no meu estomago por onde o ar escapava, tanto é que logo em seguida deitei no sofá , não sei se fraco de fome ou se desapontado com meu fracasso na cozinha. Adormeci e tive um sonho delicioso.

   Sonhei que estava num restaurante italiano, sentado diante de uma magnifica mesa com vários pratos de massas , pães e saladas, com uma maravilhosa garrafa de vinho e um vidro grande de ketchup que me servia com fartura. Que maravilha! Acordei com um barulho de chave abrindo a porta. Graças a Deus era minha mulher. Que saudade! A chuva tinha parado e sorrindo, (sabem aquele sorriso maroto, sarcástico, irônico ? ) ela me perguntou :

        “E então, comeu alguma coisa ?”.

   Meio sem graça respondi :” Almoçar não almocei , só improvisei um lanchinho”. Ela continuou me olhando com aquele olhar irônico (as vezes as mulheres têm um terrível olhar irônico) e insistiu :

         “Quer comer alguma coisa ?” 
     Pensei bem antes de responder, torcendo para que ela me atendesse logo :

         “Que tal um almoço decente ? Vou poder repetir ?”

 

                                 **************

NOTAS: 1 – este texto  é dedicado a todos os maridos que não sabem cozinhar e que não perceberam o quanto as mulheres são muito importantes numa casa.

                2 - a instrução que minha mulher tinha dado era: trocar a água do gato e dar comida para os periquitos.

                3 - assim que tiver um tempinho, vou aprender a cozinhar.




(.....imagem google.....)

WRAMOS
Enviado por WRAMOS em 23/11/2007
Reeditado em 05/01/2013
Código do texto: T749508
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
WRAMOS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 73 anos
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