Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

ALGUÉM BATE À MINHA PORTA





Quem será a esta hora? Quase meia-noite. Vou olhar pelo olho mágico. Nenhuma pessoa. Alguém querendo brincar comigo? Algum vizinho, talvez. O pessoal aqui não simpatiza comigo. Mas e daí? Querendo me provocar assim... não faz sentindo. Bem, vou tomar meu remédio para dormir. Droga! Acabou, nem um comprimido. Como que não me atentei para isso. Sem calmante, não durmo.

Bateram à porta de novo. Abri-la, jamais. Não perdi o juízo, ainda. Se for um bandido? Deixa-me ver pelo olho mágico de novo. Hum! acho que vi... parece um homem com uma capa preta e óculos escuros. A cor dele não dá para distinguir.  Não, não, foi impressão minha. Reflexo, sombra, qualquer coisa. Menos gente. Mas se for... O que faria uma pessoa com uma capa preta e com óculos escuros esta hora e batendo a minha porta? Ligo para a polícia? Não, não vão encontrar ninguém. Vai ver que foi o vento, faz a porta tremer. Isso mesmo! Está ventando forte.

Esta televisão que não funciona direito.Também não passa nada que preste. Sempre as mesmas notícias e filmes de quinta categoria. Vou tomar água com açúcar, talvez o sono venha. Parece brincadeira, também acabou o açúcar. Tomarei só água. Essa tem. Meio quente, mas tem. Agora a batida foi nítida. Não tenho dúvidas. Deve ser o homem da capa. Ou será uma outra coisa? Meu Deus! A noite será medonha.

Por que estaria fazendo isso comigo?  Não tenho desavença com quem quer que seja. A intenção é me assustar, me afligir. Vou ligar para a polícia. É o mais sensato. Que este desequilibrado vá procurar outra freguesia.

Daqui a pouco a polícia estará aqui. Só esperar.  O homem da  capa vai ser surpreendido. Vou aguardar sentado no sofá. Nossa! Acabou a energia. Faltava-me mais nada.  Vela não tem,  muito menos,  lanterna. E agora?! Neste breu a polícia não virá. A luz acabou geral, pelo que posso observar daqui. Estou escutando passos no corredor. Barulho de ferramenta. Um pé de cabra? Vai querer arrombar a porta e me matar. E  a polícia que não chega. Tudo escuro. Tenho um facão guardado, vou pegar, qualquer coisa...

Começa a chover. Complicou de vez. Se pelo menos a energia retornasse. Sem energia, chovendo e um doido querendo invadir meu apartamento. Ou de real mesmo é a falta de energia e a chuva? Sem o meu remédio, não raciocino direito. Se for um psicopata?

Está forçando a porta. Lá, isso tá, é real.  Vou dar um grito para assustar o invasor. Não resolve. No olho mágico, não vejo bulhufas. Isso não está acontecendo. Ouço barulho e não vejo nem vulto.. Talvez se abaixou. E a polícia que não chega. Vou ligar novamente. Agora o telefone está totalmente mudo. Tudo conspira contra. Só falta desabar o teto.

Volta o barulho. Vai abrir a porta a qualquer momento. Vou pegar o facão. Se entrar, meto-lhe o facão no meio da fuça. Não vai sair barato  para  este  calhorda.  Tenho  que  manter  a  serenidade. Nervosismo só vai me atrapalhar. Vou encostar o sofá na porta, irá reforçar. Ouço passos  pelo corredor, deve ser morador chegando. Um grito. Será o insano da capa matando um desprevenido? Só pode. O que faço, peço socorro pela janela? Moro no décimo andar, fica difícil me ouvir. Meu coração dispara. Um ataque cardíaco, o resultado é a morte. Água, preciso tomar mais um copo d’água.

A porta sendo forçada. Parece pé de cabra mesmo. Dou mais um grito,  em vão. Continua a operação. Terei coragem de usar este facão? Mãos trêmulas. Nunca matei em minha vida. E também não sei se terei êxito. Está muito escuro. Posso me esconder e esperar um melhor momento. Besteira, será daqui mesmo. Ou eu ou ele. Ou eles? Aí pode me complicar, mato um e o outro depois me pega.

A porta vai se abrir. Abre. O sofá está sendo arrastado. Tento impedir. Não adianta. Levanto o braço com o facão. Só vejo escuridão. Vou morrer.

É uma questão de segundos.

Adeus.
Marcos Arrébola
Enviado por Marcos Arrébola em 27/11/2007
Código do texto: T755076
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Marcos Arrébola
Serra - Espírito Santo - Brasil
236 textos (10351 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/08/17 21:55)
Marcos Arrébola