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             ~ Sem verão e Sem outono~

                                        Rosa Pena


“O que aconteceu à minha vida? Se eu realmente olhasse para dentro de mim e visse o que perdi na vida , uma raiva tão poderosa sairia de mim que derrubaria o prédio , partiria você em um milhão de pedaços e até tiraria o Queens do mapa"

( Pearl, personagem de Shirley MacLaine, falando com a filha Bibby no filme Romance de outono ).



Bete descobriu aos 52 anos que sempre fora uma débil mental. E começou a sentir uma certa raiva da filha que a levou a esta descoberta.

Terrível este sentimento de uma mãe por uma filha. Pecado, pensava ela. Deus me castigou! Filhos foram feitos para serem amados, idolatrados, endeusados. Afinal foi isto que ela fez nestes últimos vinte cinco anos.

Desde o nascimento de Clara, havia abdicado de quase todos
os prazeres que a vida reserva. Clarinha nasceu com alergia à proteína animal. Então todos na casa viraram vegetarianos. Os açougues perderam uma freguesa. A soja ganhou uma consumidora ativa.

Nunca colocou babá , simplesmente pendurou o diploma de economista na parede do corredor e assumiu a maternidade como profissão de fé. Caminho único de vida.

Nos primeiros dez anos de mãe, foi a glória. Acompanhou Clara em tudo, chorou quando teve que deixar a menina no maternalzinho, esqueceu o que era cinema, o que era jantar fora, o que era acordar ao meio-dia.

Hoje percebe que todos os fatos ocorridos nos anos oitenta, passaram batidos. Não foi fã de Cazuza, nem de Renato Russo. Não lembra das roupas que estavam na moda nesta década, não consegue saber os filmes que estouraram. Nem de novelas globais,consegue lembrar. Afinal, seu som predileto era o chorinho de neném, sua imagem era aquele rostinho de bebê e seu roteiro eram fraldas, mamadeiras, encapar cadernos.

Engordou de tanto comer as sobras de geléia de mocotó. Ficou com problemas intestinais pela overdose de suquinhos, ficou paranóica com limpeza. Aquele cantinho pode ter vírus!

Nunca faltou a uma reunião de pais na escola da menina. Virou representante de turma e fez parte da AMPA(Associação de mestres e pais dos alunos), de todas as escolas que a filha estudou. Representante ativa.

As festinhas temáticas da filha valeriam globos de ouro. Ela era o “ Joãozinho trinta” das comemorações infantis no espaço play- ground.

Abriu mão de ir à Europa , mas foi à Disney quatro vezes. Os hotéis- fazenda eram seus passeios preferidos. Andar de charrete era bom demais.

Alice no país das maravilhas, sua heroína. Os três porquinhos seu livro de cabeceira.

Nunca mais comprou uma peça de boutique; afinal, o preço da boneca Barbie levava toda a sua grana.

Perdeu a graça de tanto contar as gracinhas da garotinha.

Bete julgava-se a melhor mãe do mundo e julgava-nos as mais perversas, por usarmos creches. Mães ausentes, mães não participativas, resultam em filhos traumatizados, era sua sentença.

O pai de Clarinha achou cômodo pra cacete deixar tudo na mão da heroína. Considerava o padecimento dela, o paraíso. Prestigia-a no dia das mães. Flores, cartões e finalmente o almoço fora. - Bete pode até escolher o restaurante!

- Vamos ao La Mole da Marquês de Valença, é mais pertinho e tem bastante espaço para crianças. em aquele escorrega que ela adora e aquela bola imensa do camelô! Dia das mães. Dia do Fettutini.}

Clarinha cresceu acostumada a ser a Pequena Tirana, achando-se mais bela que a outra pequena, a Sereia. Isto a fez insuportável. Daquelas crianças que acham que podem chutar nossas canelas e isolar nosso cinzeiro de cristal pela janela, roubar o amiguinho e ter certeza da defesa da mãe.

Não bastasse isso, virou alguém hostil, agressiva em demasia com todos. Feliz em ver a mãe humilhada, era sempre a primeira a julgar e condenar qualquer expressão de alegria materna.

- Olha o mico mãe!!!!!!!! Ficou ridícula nesta saia de couro. Fala baixo. Come de boca fechada, aliás não come na frente de meus colegas. Aliás, mais, vai para o quarto quando a galera estiver aqui. Some!

Bem, em janeiro foi a formatura da tiraninha na UFRJ. Ela estava feliz da vida. O vestido talvez fosse o mais belo da festa. O pai estava todo prosa. Orgulhoso, elegante e até charmoso.

Cismei em perguntar pela ausência da Bete; aliás, percebi naquele momento que já não a via há bastante tempo.

- Mamãe não veio, pois teve que tirar um caroço. Sabe como ela é né! Adora um drama, podia ter tirado em outra época, mas cismou em tirar logo.

Bete , você é uma débil mental, como é que arruma um câncer pra roubar o brilho da sua filhinha? pensei eu.

Ontem liguei para Bete depois de tantos meses de esquecimento. Ela estava arrasada, não pelo seio que perdeu. Pela descoberta da vida que não viveu.


março de 2004
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 23/12/2004
Reeditado em 23/10/2008
Código do texto: T757
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
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