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Fronteiras e limites

Dia após dia, a comichão lhe subia, pior que sarna, a consciência tal qual a pele, retalhada, unhada, sulcos vermelhos, vergastadas na alma. Era ela mesma. Ela. A certeza do proibido – inegável, besteira dizer - prazeroso, maçã do Éden, o perigo do todo. Nem se lembra quando começou, na verdade não sabe se um dia teve início, ou foi combustão espontânea, uma produção específica de reposição do que quer que houvesse falta no seu eu mais eu.

O gosto começou assim por acaso. Domingo à noite, trabalhara até tarde sábado, serão, fim de ano, e a problemática envolvida em pagar contas, produzir mais, gastar menos e pisca-piscas a serem pendurados, mais os parentes de Juiz de Fora. Pane evidente. Zapeando freneticamente, caiu no canal de variedades, fim do barroco na arquitetura nacional e a necessidade de móveis arrojados compatíveis à nova situação. E aí? Nascimento do design brasileiro e de sua obsessão. Cadeiras. Diversas. Tanto faz tamanho ou fato de se poder, ou não, sentar, afinal, objeto de amor e origem de ciúmes e arroubos furiosos em inúmeras feiras badaladas. Explico.

Da vez, ida há muitos, em que comia a primeira papinha e o ursinho violeta do babador disputava atenção – perdendo de goleada – com o braço-bandeja da cadeirinha, até os dias de horas extras e aquisição de uma Philip Starck (a estrela no centro da sala e que se danem as mesinhas), muita água rolou. Segundo seu terapeuta, desenvolvia-se a esse tempo seu furor, estupor, loucura mesmo pelas tais – um troço latente.

A bunda quadrada. Enrascadas das mais improváveis, logo ele, tímido convicto (daqueles por opção, a pior espécie). Se gostasse de um modelo em uma festa, por exemplo, sem titubeios ou gracejos, desejoso, não hesitante daria desculpa para sua companhia e, rápido, elevador de serviços carregando o trambolho, a “peça”.

Nas quermesses em Juiz de Fora, ficou conhecido como "depredador do patrimônio religioso-cultural". Vinte em um mês, prejuízo incalculável, fora outras paróquias, praças e monumentos. É, porque além da questão funcional e apelo estético, importava também a inventividade, o material utilizado; não fosse assim, por seu crivo rigoroso seria desdenhada, tratada por “banquinho”.

Todo entrave advindo, em seus seis casamentos ao longo de uma vida breve, da introdução literal da coleção em sua vida sexual. Quando muito uma doida aceitasse, teria ainda de disputar atenção com a mais nova aquisição de estofados brilhantes. Ou com a outra, aquela, de Nova Iorque, cheia de papagaiadas customizadas, super in na noite de Manhattan. Daí pra pior. O olhar no acabamento e detalhes e, livro de cabeceira, o Kama Sutra dos assentos, novo capítulo escrito e revisado, ali mesmo, em tempo real. Acontece que nenhuma parceira, por mais inanimada que fosse, viria a ter quatro pernas - residia aí o problema.

- Ah, meu tesouro!

De pijama e pantufas, condicionou-se a dormir sentado.  A manha de manter o centro de massa, equilibrando-se, um olho aberto e outro fechado. Apartamento inteiro na Dias da Cruz, Méier, herança de Vovó, abarrotado das amadas. Catalogadas e polidas, tratadas a pão-de-ló. Femininas, o tratamento de invejar miss. Dias inteiros de folga, alheado em meio a poli-las. Flanela seca em umas, outras lustra-móveis; as clássicas no seguro; religiosas e históricas, toda uma biografia dos fatos que as envolvessem. Reforma grandiosa, o “Lar dos Guimarães 1915” um depósito – Vovó de bruços no caixão.

Só cogitou a possibilidade de enfermidade, febre na cabeça, na emergência do Cardoso Fontes. Após se embolar horas a fio na teia da queridinha, nu, suado e bêbado, bunda encarquilhada de pequeninos losangos – o grande toque, o apreço da “peça” – caiu de peito no embate com uns percevejos, que mesmo após dedetizações e simpatias insistiam em perturbar as meninas. Foi. Resultado desastroso. Melhor, quinze pontos e dor aguda no peito: Proibido o passatempo pelo terapeuta.

- Nada saudável, nada saudável... Ah, seu tempo acabou.

Pra se resolver apelava às profissionais. As de dentistas, as melhores. Aperfeiçoou-se, num rito de autoflagelação - buscando perdão e expurgando culpa -, no contínuo e doloroso processo de fazer, desfazer, fazer, desfazer a coroa do pré-molar. Consultórios dentários varridos em dois anos de páginas amarelas de cabo a rabo. De tanto, anestesia sem efeito. Nada que o afugentasse da tranqüilidade da sala de espera, o motorzinho música, um papo amigável e aquela ansiedade gostosa de recém amantes que, na espera assassina de pombinhos, matam tempo a fim do outro chegar. Uma coleção de colutórios bucais na farmácia do banheiro. O preço pago por, se tivesse sorte e o procedimento se complicasse, algumas horas aproveitando o encosto de couro, cadeira que mais parece cama de tão confortável, descanso de braços e aquele plástico, higiênico, pra repousar a cabeça. Tinha lá suas preferências, que não era qualquer pra servir-se do disponível. Não, especialista, predileção por jovens saídos há pouco da escola de odontologia. Couro novo, não era bobo. Um especialista.

Com toda análise e extremos, chegou o momento em que não conseguia nem satisfação nem rédeas mais justas em seus estímulos. O que o levou a reclusão, afogado em sua coleção. Recaída sempre pior. Num rompante de fúria, se não fosse impedido a tempo, teria cortado os dedos sujos de geléia de Clóvis, seu sobrinho de três anos. O pecado? A marca vexaminosa e incriminatória no encosto da Luís XV.

Vera, a sexta, achava tudo aquilo um hobby, bom gosto, sofisticação, assim como os apreciadores de um bom vinho ou charuto. Adorava vê-lo discorrer sobre temas como os vestígios da primeira cadeira criada pelo homem, ou então, sobre o período neoclássico e suas dissidências. Para ela, isso constituía todo seu charme, uma vez que não era exatamente um homem bonito. Nas rodas de conversas sempre tinha papo. E as amigas lhe pediam conselhos nos leilões: que peças deveriam adquirir, informações precisas sobre estas ou aquelas, melhores investimentos. Tratado como superstar e ela indo de rabiola sob a luz dos holofotes. Até aceitava as práticas sexuais pouco usuais.

Não tardou para, assim como as cinco anteriores, perceber o quanto de patologia havia naquela mania. Caiu na besteira e no erro recorrente por outras e outras vezes, de fazer um comentário, leve, durante o jantar, sobre “não acha que merece um descanso?”. Só teve tempo de se abaixar e agüentar os respingos quentes da sopa de tomate no espatifar do prato, raspando sobre sua orelha. Ficaram sem se falar por duas semanas.

Nesse meio tempo ele piorou. Abandonou o emprego público e abriu a porteira de vez. Foi trabalhar como negociante de antiguidades, claro que só vendia e comprava cadeiras, o que lhe fazia não exatamente perder dinheiro, mas deixar de ganhar. Isso e o fato de precisar de mais espaço para aquilo tudo.

A mania o consumia, um bicho o comendo pelas beiradas. Mais ou menos nesse período retomou o tratamento e aumentou a dosagem de sua medicação, o que acarretou em efeitos colaterais cada vez piores. A mão sempre fechada, tenso, passou a ter sudorese excessiva, mau hálito, queda de cabelo. E lá se foi a sexta mulher. Passados nem dois meses já não trabalhava, não comia, não dormia, sempre às voltas com a maldita coleção.  Após consenso da família, terminou por ser internado em uma instituição para “pessoas especiais”, caríssima, cheia de atividades que o desviassem de seu fetiche. Em seu quarto só poltronas e pufes.

Passava os dias no gramado do pátio, contando internos, conversas no ar, fumando cigarros. Na falta de algo melhor pra fazer, começou um diário, fazia cerâmica, empurrava o carrinho de livros da biblioteca, empurrava a lembrança pro fundo. Tido até então como ato inviável e, por que não, inimaginável, meteu-se com religião, enredou-se com a turma da oração, foi batizado nas águas do espírito santo e agradecia todos os dias sua benção, devoto de coração, curado de alma. O tempo fechava os buracos abertos, a ampulheta virando e tornando a esvaziar, a alta cada vez mais próxima.
 
Trabalhava com caridade, eventos. Atolou-se tanto nos campos do senhor que foi convidado a aproximar mais o passo, adiantando-se em direção a total redenção; seguindo fiel a procissão, juntou-se ao coro da capela do asilo, um voto de confiança do psiquiatra e, principalmente, de Josias, o pastor. Descobriu-se barítono e, excesso de confiança, tornou a dormir deitado – um assombro.

Visitas esparsas, escolhia a dedo quem receberia. Os médicos e enfermeiras achavam por melhor, vai que lhe desse uma recaída? E o medo da mudança espreitava, o terror da piora, o catálogo da coleção jamais tocaria outra vez. Aos poucos foi retomando a normalidade e rotina. Mais e mais tarefas, mais específicas, responsabilidade adquirida pelos seus avanços notáveis.

Enfim o grande dia. Sua alta.

Uma grande celebração preparada em conjunto por sua família e ex-mulheres. O pastor resolvera, em um gesto de orgulho e companheirismo, fazê-lo sentir-se um vencedor. O plano, uma cerimônia de apresentação oficial do coro da capela, só que desta vez: teste de fogo.

Às dezoito horas em ponto, a igrejinha toda decorada, os internos em trajes de culto, buffet contratado, ele mais que esperado. Após a ladainha e sermão, o coro entrou triunfal, fila indiana, a atenção voltada para eles. E teve início o cântico. Aguardava ansioso sua deixa quando, pupilas dilatadas, bateu o olhar no cadeirado especialmente instalado para sua despedida. Deu no que deu, engolfado por vinte braços grossos de enfermeiros, mesmo assim atrelado à tentação, como se daquilo dependesse sua vida, sob o coro retumbante e inquisidor dos internos: HEREGE, HEREGE, HEREGE!

Direto pro inferno, mas feliz.
 
Douglas Evangelista
Enviado por Douglas Evangelista em 24/11/2005
Reeditado em 24/11/2005
Código do texto: T75856
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Sobre o autor
Douglas Evangelista
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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Douglas Evangelista