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O Espírito de Natal

- Bate o sino, pequenino, sino de Belém, já nasceu o Deus menino, para o nosso bem.
Mateus olhava o coral de crianças da Igreja Matriz da cidade com inveja. Todas elas tinham lindas túnicas azuis e sapatos novos, estavam limpinhos e eram observados, com orgulho, por seus pais e mães. Ele não. Seus pés eram protegidos apenas por um par de chinelos roubados há algum tempo da venda do Seu João.  Nem se lembrava mais já quanto tempo vestia aquela camisa (que também foi furtada de Seu João, seu “maior cliente”) e os olhares que recebia eram de terror e nojo.
- Ora, suma daqui, seu pivete!
Uma beata o afastou da Igreja com leves pancadas na cabeça. Ele correu, tomando alguma distância, e depois gritou para a mulher:
- Carola, mal amada! Velha, nariz de porco!
A mulher balança a cabeça , reprovando a atitude do menino. Depois se voltou para uma amiga e disse:
- Esses pivetes! Ouviu o que ele disse? Realmente, não sabem o que significa o espírito do Natal.
Mateus não entendia mesmo essa data. Ouviu certa vez no rádio que o Natal era um dia em que deveríamos expressar nosso amor pela família. Mas qual família? Seu pai era um bêbado que há quatro anos deu uma surra tão grande em sua mãe que a derrubou de uma escada e a matou.  Ficou tão consternado com aquilo que enlouqueceu e se suicidou três dias depois.
Ele ouviu também que era tempo de perdoar, ser gentil e amável. Até que fazia isso em Dezembro. As pessoas eram menos duras e ele retribuía. Mas com o passar do ano era difícil manter esse sentimento, pois todos voltavam a olhá-lo com olho torto, ódio e desprezo, fossem ou não seus clientes.
Mas mesmo não entendendo o Natal direito, Mateus gostava dele. As ruas ficavam mais bonitas e iluminadas, tinha música que o divertia e sempre ganhava uma bola da prefeitura (“Ta certo que não duravam uma semana, mas presente é presente”).
O que mais o agradava no Natal, no entanto, era a visita de um velho amigo. Todo dia 25 de Dezembro, um andarilho passava pela sua cidade, ia até a ponte onde ele pernoitava e lhe presenteava com um pedaço de pão doce.
- Feliz Natal, meu filho.
Ele o conhecia havia quatro anos, estava nas ruas há pouco tempo na época. Lhe ensinou alguns segredos da “arte de furtar” (que Seu João conhece tão bem), o levou até aquela ponte (onde ele também dormia quando era criança) e lhe deu aquele pão.
- Me escuta, garoto. Num levo ocê comigo porque pra onde eu vô não é bão pra criança. Mas prometo sempre te visitá no Natal se ocê promete que vai ser sempre homem direito, pessoa de bom coração.
O velho sorriu ao ver o rostinho alegre do menino.
- E qual o nome do senhor?
Ele ficou intrigado com a pergunta, já faz anos que ninguém lhe pergunta o nome. Sempre o tratam de “velho” ou “mendigo”. Talvez até tenha se esquecido do nome de batismo. Então, deu uma longa gargalhada e respondeu:
- Papai Noel!


Mateus perambulava com sua bola nova pelas ruas de um bairro pobre da cidade, quando escutou o choro de uma criança.
- Eu quero, mãe... Eu quero um presente do Papai Noel!
A mulher olhava com tristeza para o filho. Mal tinha dinheiro para a comida, quanto mais para presente e, nesse ano, o tumulto na prefeitura foi tão grande que não conseguiu pegar nada.
Mateus se sentiu mal por ver o menino triste. Olhou para a bola que tinha surrupiado de forma homérica (teria uma ótima história para contar para o velho nesse ano) e depois para o garoto chorando. “Ora, eu não gosto de bola mesmo”.
- Ei, garoto!
O menino, soluçando, se virou para ele.
- Se eu te der essa bola, você para de chorar?
O menino assentiu com a cabeça e disse:
- Mas você não é Papai Noel pra dar presente.
- Ora, eu sou amigo dele.
O menino agarrou a bola, disse um obrigado às pressas e correu para o colo da mãe para mostrar o presente. Mateus olhou para o garoto por alguns segundos ainda e depois saiu assoviando rua abaixo.
A mãe levou o filho para dentro e depois comentou o que tinha acontecido.
- Pensei que não existiam mais pessoas que entendessem o que realmente significa o espírito do Natal.

Gustavo Samuel da Silva
Enviado por Gustavo Samuel da Silva em 02/12/2007
Código do texto: T761468

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Sobre o autor
Gustavo Samuel da Silva
Itumbiara - Goiás - Brasil, 28 anos
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Gustavo Samuel da Silva