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Aniversário de casamento

Sábado de sol e as flores da primavera enfeitam as ruas arborizadas do Rio de Janeiro, deixando a cidade ainda mais maravilhosa. Deolinda e Alcebíades planejam um fim de semana especial, no qual irão comemorar seus trinta anos de casamento. A vida sexual do casal ia de mal a pior. Com os filhos crescidos e independentes, Deolinda sofreu de depressão com a "síndrome do ninho vazio". Sempre que o marido a procurava para fazerem sexo a desculpa era sempre a mesma: hoje não dá querido, estou com enxaqueca. O tempo foi passando... e com ele veio a aposentadoria, a menopausa, o pneu na barriga cresceu, a bunda caiu, o rosto enrugou, os peitos muxibaram, as orelhas despencaram, a gengiva subiu, enfim, desgraça quase total se não fosse pelo avanço da medicina estética. Quanto ao marido,hum ... pintou os cabelos de acaju, passou a malhar em academia, mascar chicletes, usar tênis de marca, brincos, camisetas do tipo "engana mamãe" -aquelas bem apertadinhas, e fez tatuagem de dragão no peito.
O telefone celular que o gatão ostentava pendurado no cós da calça jeans tocava com insistência até que Deolinda curiosa perguntou: - Alcebíades, que tanto ligam para você? Desconsertado o marido respondeu: - Sabe o que é Lindinha, vai ter um concurso de dança de salão lá no Clube Recreativo e tem muita dama sem par. - E daí, Alcebíades? Interrogou desconfiada. - E daí que eu vou ter que dançar com a vencedora do concurso interno. Deolinda teve um ataque de piti e quase esganou o marido. - Seu velho filho da puta, eu ainda estou viva! Por que você não me convidou para ser seu par? - Porque você está sempre com enxaqueca, Lindinha. Disse ele cuidadosamente. Aquelas palavras a atingiram como um tiro de canhão. Deolinda emudeceu, trancou-se no quarto e chorou desoladamente. Percebera que aquele marido romântico de tempos atrás não existia mais, pelo menos para com ela. Precisava fazer alguma coisa para recuperar o homem da sua vida, o pai dos seus filhos, o amante de tantas aventuras lascivas. Decidida a dar a volta por cima, na segunda-feira seguinte iniciou um regime de emagrecimento, consultou-se com um dermatologista especialista em estética e matriculou-se num curso de dança do ventre.
Seis meses se passaram e Deolinda transformou-se numa outra mulher. Dez quilos mais magra, soutien meia taça com bojo de gel que levanta os seios, calcinha especial para levantar bunda, unhas curadas da micose, dentes clareados a laser, virilha e buço depilados, cabelos cortados e pintados a la "Ana Maria Braga", botox na testa, olhos, lábios e queixo, além de craque na arte de sedução que as aulas de dança do ventre lhe despertaram. Sua auto-estima cresceu tornando-a segura e pronta para o ataque.
Com a proximidade do aniversário de casamento, Deolinda providenciou todos os detalhes da viagem à romântica Ilha de Paquetá. Pagou uma grana preta numa belíssima roupa de dançarina do ventre com a qual surpreenderia o maridão. Na bagagem perfumes, calcinhas comestíveis com sabor de morango, uma garrafa de espumante francês, camisola longa de renda vermelha com decote em V e abertura lateral na perna direita, tudo no melhor estilo.
Chegara o grande dia. Na Praça Quinze os pombinhos embarcaram felizes numa lancha rumo a Paquetá. Na metade da viagem o tempo muda repentinamente. Chuvas e trovoadas assustam os passageiros que começam a rezar em voz alta. O comandante desliga o motor da embarcação e avisa aos tripulantes que a viagem só poderá prosseguir quando a tempestade diminuir. Horas se passam quando a calmaria finalmente acontece. Já era noite quando atracaram no cais em Paquetá. Cidade pacata, chuva fininha, alguns casais de namorados trocando juras de amor sob as marquises das lojas fechadas. Silêncio absoluto nas ruas da ilha.
Deolinda e Alcebíades finalmente chegam até a pousada. À meia luz tomam um banho de espuma numa jacuzzi maravilhosa. Beijinhos pra lá, beijinhos pra cá, brindam esse momento com espumante francês de ótima procedência. Logo após essas preliminares, Deolinda sai de fininho com o objetivo de se preparar pra grande surpresa que a noite prometia. Perfumada e lindamente vestida com uma roupa preta bordada de dourado e lantejoulas de citrino na mais elegante indumentária de dançarina do ventre, Deolinda liga o som e lança-se requebrando o ventre em direção ao amado que, imerso na hidro, sorvia a bebida com toda a pompa. Sua voz lânguida ao pé do ouvido era um convite para o amor voluptuoso que crescia dentro dela. O lençol os convidava para uma noite de orgia. Sem oferecer nenhuma reação aos apelos libidinosos da mulher, Alcebíades confessa meio sem jeito: - Lindinha, não fica brava comigo, mas eu esqueci de comprar o viagra.  Deolinda enfurecida esbraveja: - Puta que o pariu !!!  Eu devo ter cuspido na cruz !!!
Cátia Paiva
Enviado por Cátia Paiva em 25/11/2005
Reeditado em 27/01/2006
Código do texto: T76152
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Sobre a autora
Cátia Paiva
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Cátia Paiva