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Dez minutos sete sorrisos e nenhum cigarro (Parte II)

xi

Mônica acordou há um pouco menos do que três minutos. Agora vai para o banho, um banho demorado, morno, solitário, morno. Solitária.
Ele caminha mais um pouco, só existe um destino interessante por ali...corre um pouco, está quase chegando ao Gasômetro. Desiste de correr, correr cansa, está cansado. Ofegante. O pulmão quase sai pela boca. Correu uma quadra. Vontade de fumar um cigarro, dor de cabeça... apalpa os bolsos, não acha nada, olha dentro da sua bolsa, não acha nada, apalpa os bolsos de novo, não acha nada... sua testa está suada. Desabotoa o primeiro botão da camisa. Abotoa o primeiro botão da camisa. Entra em um bar e compra cigarros. Ainda está ofegante. Acende um cigarro, nervoso, tremendo um pouco... passa a dor de cabeça. Anda pela rua um pouco apressado, caminhando rápido para não cansar nem demorar tanto para chegar. Chega. Caminha até a beira do rio, senta em uma pedra, com um graveto que estava ali faz desenho circulares na água. Da esquerda para direita. Da direita para a esquerda. Esquerda. Pega uma pedra e joga. Levanta, caminha até um pedaço, por ali, por sobre as pedras....sempre olhando para o rio. Sol. Sol forte e bom. Sombra. Por ali, por debaixo das árvores.
Ele resolve sentar em uma pedra...toca umas pedrinhas no rio: o barulho é lento, calmante. Acende um cigarro.
Mônica sentou na mesa da cozinha, preparou um café quente com leite morno, assistiu qualquer coisa na televisão. Mônica estava nervosa - onde ele estará? - Ela sentiu saudade. Sente. Sentirá.
Ele levanta atordoado. Joga o cigarro no chão. Pisa em cima. Olha para o rio e sai caminhando apressado.

xii

Entra em um bar e procura na prateleira por alguma bebida. Quem sabe vinho? Tinto. Seco. Quente.
– Pode ficar com o troco...
Bebe um longo gole da garrafa. Desce quente. Queimando. Queimante. Dói. Arde. E faz bem. O Álcool limpa seus pensamentos – mas e no que estava pensando, afinal? – E então olha para os lados, está parado na calçada, no meio da Rua Da Praia. Pessoas passam e esbarram nele. Pessoas pedem “com licença”. Pessoas o xingam. E como tem uma praça, ali adiante, resolve sentar-se um pouco. Bebe outro gole. Já com nojo. Desespero. Asco. Acende um cigarro. Escárnio. – e então acha-se nessa condição, está ali, como peça de decoração, para todos verem, para ser contemplado, quer fugir, mas não pode – Hoje ela estava ruiva, ou morena. Fizeram sexo até o amanhecer. Amanheceu. E então ele se levantou. Hoje ela tinha proporções grotescas. De imensidões e ninharias. De calma à culpa. De beleza à culpa. Culpa. Hoje ela tinha o tamanho de seus sonhos. A proporção de sua consciência. Estava ruiva, ou morena.
Acende outro cigarro e toma outro gole de vinho. Desabotoa os quatro primeiros botões da camisa. Sente-se melhor. Mais livre. Abotoa dois, de novo, por educação. Repugna. Repugna aquele gole. Repugna aquela tragada. Repugna aquela camisa. Repugna aquela praça. Repugna Mônica. Seu estômago dói. Regurgita. Pensa em um copo de água. Pensa em um chuveiro. Pensa em uma cachoeira, a água lhe batendo nas faces, nos cabelos, no peito, na barriga. A água lavando. Refrescando. Pensa em Anabelle. Seus pensamentos se enchem de fumaça. Quem era ruiva? Mônica ou Anabelle? - e porque não as duas? – Gargalha.
Traga agora com satisfação. Com calma. E sem culpa.

xiii

Pequenos pingos de chuva caíam sobre sua cabeça. Molhavam a calçada. Molhavam seus cabelos. Chuva de verão. Passa a mão pelos cabelos molhados e sente a satisfação e a ternura que só ele sente por ele mesmo quando está chovendo. E sente a tristeza que sempre sente por saber que ninguém vai lhe ver assim. Molhado. Calmo. Olhando os pingos arrastados. Cada pingo uma lembrança. Cada lembrança um sentimento.
Caminha por dentro da chuva pensando na imagem que ele tem dela. Imagina a imagem que Ela tem dele. Esforça-se para passar uma imagem para ela que não deixa de ser o que ele é, mas mais rebuscada. Esteticamente melhor. Uma imagem que é exatamente o que ele quer ser. O que não deixa de ser intimamente o que ele é. Caminha por dentro da chuva pensando em uma cachoeira – passa a mão pelo rosto - a água lhe batendo nas faces, nos cabelos, no peito, na barriga. A água lavando. Refrescando. Pensa, novamente, em Anabelle. E novamente. E novamente.
Ela não pensa em mim como eu penso nela.
Ela não pensa em mim.
Como eu penso nela.
Ela não pensa em mim.
Mas ela está sempre sorrindo. Vejo em seus olhos. E sorrisos. E cabelos. E cigarros.
E novamente.
Ela chega, o encontra, fala algo. Está chovendo. Os dois estão molhados. Ela fica linda com o cabelo molhado. Ele estava sonhando ou pensando? Precisa de uma toalha. E de um banho quente.
Por dentro da chuva ele sobe a Borges. Por dentro da chuva ele se sente cansado. Por dentro da chuva ele se sente compelido a tomar outro café. E fumar outro cigarro. E morrer de câncer de pulmão. E por mais que saiba que outro café faria seu estômago doer, se sente compelido a tomar outro café. A ter Gastrite. Fugindo da chuva encontra a parada de ônibus. Fugindo da chuva acende um cigarro. A mulher que passou ao seu lado tossiu. E isso não fez sentido algum.

xiv

Seu estômago ronca. E se contrai. E dói. E pesa. E sua cabeça também dói e também pesa. Olha pela janela do ônibus agora. A cidade sempre fica mais romântica quando está molhada – e com cheiro de chuva – limpa a lente dos óculos que embaçaram com os pingos de chuva. E quando chegar em casa ele vai preparar um café novo. Bem quente. E bem amargo. E quando chegar em casa ele vai tomar um banho. Quente. Calmo.
E então ele chega em casa. E demora para achar as chaves e abrir o portão. E a vizinha do outro lado tem um cachorro e sacolas de lixo. Ela está com sacolas pesadas na mão esperando ansiosamente que ele abra o portão para ela, mas ele não acha as chaves. E fica nervoso. E olhando pela grade ele só vê um sorriso. Talvez o do sonho. Talvez o da vizinha paciente. E quando finalmente acha as chaves elas caem no chão. E o cachorro rosna. Mas o cachorro e a vizinha logo ficaram para trás, e o sorriso também. Nesse momento ele só quer um banho quente e um café quente. E uma roupa seca. Mas ainda tem tempo de olhar para as plantas, que ficam muito mais românticas quando estão molhadas – e com cheiro de chuva – limpa a lente dos óculos que embaçaram com os pingos de chuva, e entra em casa.
E quando chega em casa ele se despe e pega uma toalha. Seu corpo encontra um banho quente. O banheiro se enche de fumaça. Seus pensamentos se enchem de fumaça. Ela chega, o encontra, fala algo, sorrisos e sabonetes...e dois corpos a dividir a mesma água, água que lhe bate nas faces, nos cabelos, no peito, na barriga, água que lhe acorda, água que lhe lembra de ter esquecido de passar o café. De novo. Água que lhe dói. Dói tanto em matéria de metáfora quanto fisicamente. Dói quando bate na barriga. Vazia. Náusea. Desliga o chuveiro. Tontura. Se seca com pressa. Náusea. Abre a porta com raiva. Tontura. E senta no chão.
Quando o enjôo passa levanta e vai até a cozinha. Passa um café calmamente, ainda enrolado na toalha. Torradas já são o suficiente. Café não tão novo. Não tão quente. E nem tão amargo.
Gustavo Gaspar Almeida
Enviado por Gustavo Gaspar Almeida em 06/12/2007
Reeditado em 06/12/2007
Código do texto: T766720
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Sobre o autor
Gustavo Gaspar Almeida
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 28 anos
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Gustavo Gaspar Almeida