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Dez minutos sete sorrisos e nenhum cigarro (Parte I)

vii

Acorda suando, joga longe as cobertas, passa a mão no rosto para limpar o suor, procura calmamente pelos óculos...os pés encontram o chão gelado, o corpo encontra um banho quente. Mal acordou, ainda é muito cedo, a mente se divide entre pensamentos triviais e lembranças dos sonhos sonhados naquela noite quente, ou fria? Dorme com frio, acorda sem...sempre assim: Ela chega, o encontra, fala algo, sorrisos e cigarros...aí as vezes vem o beijo, outras vezes vem o despertador. Esqueceu de passar o café antes de entrar no banho, passa depois, calmo...tem todo o tempo do mundo. Toma o café também calmo, enquanto se veste, procura as meias, procura os sapatos...derrama um pouco de café em sua camisa, joga em um canto e veste outra...todas cores iguais. Derramou porque aquele olhar ofuscou em sua memória, aquele nome ecoou, esqueceu de tudo, entregou-se aos pensamentos e tropeçou. Fuma um cigarro olhando pela janela... “deixe o sol bater, deixe a luz entrar”. O cigarro queima lentamente. Joga o cigarro pela janela, passa a mão pelos cabelos, fecha o vidro e procura as chaves. Onde estarão as chaves? Pacientemente abre a porta. E sai.
Se sente aflito e envergonhado, porque? Não sabe como agir, nunca soube, nunca, sempre...ela chega, e está bonita, como sempre, sorrisos e cigarros, gargalham, as gargalhadas se misturam com o som do despertador, os olhos dela se confundem com os raios de sol que entram pela janela. Corre para pegar o ônibus, é desajeitado correndo. Pega a fichinha, entrega ao cobrador levantando suavemente a cabeça, passa pela roleta e senta no banco mais escondido possível.

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Observa quem está a sua volta no ônibus...uma moça sonolenta, uma senhora franzina, um senhor-de-boina-bege... e lá pela frente, falando com o cobrador, um homem gordo e suado, de camisa de manga curta e gravata, e bigode, e pasta marrom. O cobrador finge simpatia, mas espera ansioso pela próxima parada. Ele olha pela janela e procura alguma beleza na cidade, o ônibus dobra na Ipiranga, crianças pedem dinheiro na sinaleira, outras crianças brincam quase que dentro do arroio, se distrai olhando para as crianças...
- Oi, licença, esse ônibus passa pelo hospital? (era a moça sonolenta)
- Ahn, ah, desculpa...hospital? Mãe De Deus? Passa na volta moça...agora ele tá indo pro centro...
- Ah, tá certo, obrigada.
Ele volta seu rosto para a janela de novo, o ônibus já saiu da Ipiranga...mais uns minutos e ele chega ao centro. Um galho bate na janela, estava aberta, algumas folhas caem sobre ele. Se sente incomodado, e enjoado daquele balanço suave do ônibus. Não devia ter sentado em cima da roda, mas agora já está sentado, não vai levantar, sente vergonha. Põe a cara na janela para pegar um vento e passar o enjôo. A tontura. A náusea. A vergonha. Quer descer logo e acender um cigarro.
O ônibus chega ao centro, faz a curva saindo da Borges e entrando na Salgado, ele se levanta rápido, o mais rápido possível. Desce e acende um cigarro. Sobe a Borges, uma quadra, entra em um boteco conhecido.
– Um cafezinho.

ix

Paga o café. Duas moedas caem, uma de dez e outra de cinqüenta centavos. As recolhe do chão. Pede uma bala, com o troco. A moeda de dez cai de novo, vai para baixo do balcão, difícil de pegar. O isqueiro, por favor. Acende outro cigarro. Sai do bar e desce a Borges calmamente, calmamente por fora, mas angustiado por dentro...desvia de algo sujo no chão, desvia de pessoas, bate em pessoas. Sorri um sorriso, como um sorriso-de-desculpas. Um sorriso foge do outro lado da rua, é um sorriso bonito...sorrisos bonitos o fazem lembrar: Ela chega...chega e sai logo, tinham cigarros? Ou eram apenas sorrisos? Nunca se é apenas sorrisos. Tropeçou, mas ninguém viu...se sente envergonhado do mesmo jeito. Arruma a mochila e dobra na Rua Da Praia...o que veio fazer no centro mesmo? Entra em algumas lojas, olha outras por fora. Continua caminhando, olha algumas banquinhas de artesanato, ela fica bem com esse tipo de colar, senhores jogando damas na praça, engraxates engraxando sapatos, o Quintana e o Érico ali em um banco jogando conversa fora. Pombos. Muitos deles, catando migalhas. Já está quase na Casa De Cultura, bela e rosa. Rosada.

x

Anabelle acorda sonolenta, tira suavemente as cobertas de cima de si, calça os chinelos que estão ao pé da cama. Vai até o banheiro, lava o rosto, calmamente, a água gelada pela manhã encontrando sua pele. É desagradável e agradável ao mesmo tempo. Enxuga o rosto com a toalha que está ali pendurada e em um caminhar arrastado se dirige até a cozinha. Um copo de água mineral, com gás. Volta até o quarto, tira o pijama, um pijama de moletom, azul, um azul clarinho, a calça um pouco mais clara do que a blusa. A blusa com estampas de flores e borboletas, desenhadas, quase que como abstratas. Começa tirando a calça, sente frio e treme. Depois tira a blusa, já está acostumada com o frio. Pega uma toalha do armário, limpa, com cheiro de amaciante, e se encaminha para o banho. Um banho quente e arrastado, a água quente pela manhã encontrando sua pele...se ensaboa calma e linda, linda e calma, linda. O banheiro se enche de fumaça.
Ele desce as escadas da Casa de Cultura um pouco apressado, um pouco nervoso, um pouco apreensivo. Passa a mão pelos cabelos. Desabotoa o primeiro botão da camisa. Abotoa o primeiro botão da camisa. Passa a mão pelos cabelos. Olha para os lados, para trás, para frente e segue descendo. Está quase no térreo, quase na rua, falta apenas mais um lance de escada. Passa a mão pelos cabelos e desce, cumprimenta a moça que está no guichê de informações...mas ela não o viu. Sai. Entra em um bar, tropeça em uma cadeira que estava na porta, nervoso, apreensivo...pensa em pedir um café. Desiste. Vai apenas no banheiro e se olha no espelho.
A imagem refletida é calma, o faz lembrar dos seus sonhos, o deixa com sono...arruma os óculos, ela chega – Oi, tudo bem? – Oi, que surpresa. Um cavalo azul passa por trás de uma moita. Não tinham cavalos azuis no seu sonho. As lembranças vêm confusas, se misturam com o barulho da torneira pingando na pia de louça. Uma nuvem passa, sorrisos e cigarros...vem a vontade de fumar. Apalpa os bolsos, não acha. Sorrisos. Sorri para o espelho e tenta fechar a maldita torneira que não pára de pingar... abre a torneira e joga um pouco de água no rosto. Não consegue fechar a torneira, ele está cada vez mais nervoso...não existe toalha naquele recinto. Alguém bate na porta, passaram-se apenas dez minutos sete sorrisos e nenhum cigarro. Ele acorda. Não, ele não estava dormindo...as lembranças vêm confusas...olha para trás, tem um relógio. Olha as horas e abre a porta.
Gustavo Gaspar Almeida
Enviado por Gustavo Gaspar Almeida em 06/12/2007
Código do texto: T766722
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Sobre o autor
Gustavo Gaspar Almeida
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 28 anos
59 textos (1823 leituras)
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Gustavo Gaspar Almeida