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O PEQUENO ENGRAXATE

       

   Não faz muito tempo que um menino passava pela calçada do Excelsior Hotel, segurando uma pequena caixa de madeira com a flanela nos ombros, os olhares aguçados, direcionava-se aos pés dos transeuntes daquele hotel, localizado na terra dos babaçuais, berço do poeta Gonçalves Dias. É lá que se hospedam os viajantes, os turístas, assim como os demais clientes que adentravam para comprar cigarros, beber uma cerveja e relaxar no bate papo atualizado.

Já perfazia umas quatro horas que o menino repassava de um lado para o outro, batendo na  caixinha de madeira com leves toques. 

A rua Dr. Berredo no centro comercial em pleno movimento de velhos que aguardavam em filas, na espera desagradável de abrir as portas do banco do Estado do Maranhão, confrontante com o Excelsior Hotel. 

Na calçada havia várias mesas e cadeiras da marca Brahma na manhã de sexta-feira, expostas na entrada do recinto hoteleiro. O menino olhava os pés dos viajantes, e via que os sapatos estavam engraxados e bem limpos, batia com a escova de sapatos, rapidamente na caixa, quando estes estavam sentados apreciando a paisagem da cidade. O menino se aproximou e disse:

- Moço, não quer que eu engraxe o seu sapato? É só cinquenta centavos. Não vai lhe fazer falta. Por favor!

O viajante deslumbrava olhares para as moças que desfilavam na calçada, e pouco escutava os chamados do menino. Logo, podia se ver que a calça do guri havia vários remendos de costura manual com retalhos coloridos em diversas partes, alinhavados em tons de várias cores, vestindo uma camisa encardida, tingida por uma brancura nas laterais, enquanto assobiava, cantava e falava sem ninguém perceber, aproximando-se do viajante.

- Pare! Pare!, não pedir pra engraxar.

Atrevidamente em tom macio, o garoto esclarece.

- Já tou engraxando, agora, vire-se para lá.

O travesso colocou o pé direito do viajante em cima da maletinha, e escovou, dando um brilho, bateu com a escova na caixa, ordenando que pusesse o outro pé, prontificando o serviço com um assobio, bateu novamente na caixa.

- Não vou lhe cobrar nada. Mas o senhor pode me ajudar!
          
Retrucou o viajante numa brincadeira arrogante.

- Olha menino, eu não pedir pra engraxar.

-O senhor não precisa pagar, basta o senhor me ajudar. Preciso de uma graxa nova. Eu sei que o senhor vai ganhar muito dinheiro e pode me dá.

O viajante olhou para os lados, enquanto isso, o proprietário do hotel, senhor Oliveira, aproxima e fala em bom tom ao garoto.

- Garoto, eu já lhe avisei. Não quero você aqui engraxando sapatos sem o cliente pedir. O senhor vai me desculpando, esse garoto é teimoso.

Os olhos penetrantes daquele menino murmuravam medo, suas mãos tremiam até que a lata de graxa caiu, e o restante do conteúdo da lata, partiu-se ao meio. As pupilas encarnadas, já bastante esfregadas pelas mãos soluçavam prantos. O viajante observou o guri pegando o resto da graxa.

- Hei garoto, não se preocupe, eu vou lhe dá outra. Não chore!

- A minha mãe vai me bater, até agora não arranjei nada pra comer e ainda perdi toda a graxa.

O viajante entristecido com a situação, indagou deste.

- Porque sua mãe vai lhe castigar? Você não fez nada!

- Moço, eu já estou devendo três latas de graxas, duas pretas e uma marrom, fora a flanela que o senhor Chico Bezerra me deu. Ele é gente boa dono do supermercado Bezerra. E ontem não apurei nada, e tenho muito fiado pra receber.

- Garoto, você não respondeu a minha pergunta. Por que sua mãe vai lhe castigar?

O garoto ficou pasmo, sua voz entrelaçada, desfigurava-se, cabisbaixo, olhava para os lados, e a resposta não vislumbrava de sua boca.
Aquele menino sorridente, demonstrando felicidade no decorrer do dia, coçava a cabeça, seus prantos marcavam o chão da porta do hotel, e num único tom, balbuciando falou.

- é porque eu não levo dinheiro pra casa. Ela pensa que tou brincando com os moleques. Moço! tou trabalhando, se hoje eu não ganhei, amanhã posso ganhar, pior é se chover, aí a coisa pega. Uma coisa eu lhe digo, eu nunca irei roubar como fazem os meninos da Fazendinha, eu quero ser homem com ficha limpa.

Interrogou o viajante.

- E que fazem os teus pais?

- Eu não tenho pai, só tenho mãe e uma irmã pequena de 04 anos. A mamãe deixou de lavar roupa por causa de uma coceira na mão. Ela tá dodói. Sabe moço, o povo enrola muito ela. Ela faz os lavados e na hora de pagar. Cadê o dinheiro? E só dizem assim: Maria depois tu vem pegar o dinheiro. E o tempo vai passando e agente tem que comer, ninguém quer vender fiado pra nós, moço. Se vende fiado de manhã, ao meio dia tem que levar o dinheiro.

O viajante indagando, atravessou uma pergunta.

- E você estuda a que horas?

A resposta do garotinho veio na ponta da língua.

- Hora nenhuma moço! Como vou estudar, se eu tenho que ajudar a minha mãe e minha irmãzinha. O senhor não sabe de nada não. Só está tendo luz lá em casa por causa do doutor advogado que eu engraxo pra ele, ele viu a nossa situação quando tava pedindo voto pra vereador. E ele sabe que lá em casa ninguém vota, mais assim mesmo ajudou.

O viajante, ouvindo suas histórias, penalizou em lágrimas, abriu a carteira e deu várias notas de cinqüenta reais.

O menino estranhou e surpresamente disse:

- Moço que é isso! O senhor está louco? O meu serviço, é só cinqüenta centavos! O pessoal vão pensar que roubei!

Levantou-se calçando as velhas sandálias em cores sortidas, de pares diferentes e arranjadas para ele, que já não lhe serviam mais. E devolveu todo o dinheiro. O viajante, afirmou ser um presente e não o pagamento de um serviço, aconselhando o pequeno engraxate a estudar e cuidar de sua mãe. Pois ele um dia seria um grande homem.

- Moço! Deus lhe pague em dobro.


ERASMO SHALLKYTTON
Enviado por ERASMO SHALLKYTTON em 28/11/2005
Reeditado em 07/09/2011
Código do texto: T77607
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
ERASMO SHALLKYTTON
Caxias - Maranhão - Brasil
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