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JEREMIAS E O CAPACETE

 

     O filho, orgulhoso, mostra ao pai o capacete que recebera para proteger de sua frágil cabeça. Fora convocado para a guerra precisava defender tudo aquilo em que acreditava ou aquilo que outros queriam que ele acreditasse.

    Não tinha ainda formado todas as suas opiniões, eram muitas as controvérsias que giravam em torno de uma só idéia.

    Defenderia a pátria com sua própria vida, mesmo sem saber que ninguém se preocupava com a sua, exceto seus familiares que, aflitos, quase chegavam ao desespero.

    A juventude servia-lhe de confiança de que tudo acabaria bem e, tão logo derrotasse o inimigo, retornaria a sua casa, cheio de comendas  e glórias.

    A insensatez humana cria, alimenta e dá seus filhos ao repasto dos vermes e das feras, sob o pretexto de pseudo-ofensas à pátria. Tudo isto lhe serve de motivos escusos e inconfessáveis dos mandatários, para a prática da guerra que alimente seu orgulho ou vaidade, independente do que possa realmente acontecer.

    O jovem indefeso é compelido ao campo da morte, sem saber por que luta ou morre; tudo não passa de ilusões criadas pelos governos ou governantes.
    O pai, após olhar detidamente para aquele capacete, que poderia servir de recipiente para colocar qualquer coisa, menos defender uma cabeça como armadura.

    Sem poder se mostrar preocupado, abraça o filho que parte  para o campo de batalha, que  poderá ser a primeira e última.
    Despedindo-se choroso, o pai apenas recomenda-lhe que tenha cuidado, como se isto pudesse salvar-lhe a vida perante os mortais projéteis que teria que enfrentar, diante de outro igual a si mesmo.

    No campo de batalha, os corpos caem como frutos maduros nem mesmos os capacetes podem  impedir que a morte ceife vidas de jovens inocentes.
    Após alguns dias naquele inferno, tomba o jovem  para o lado, enquanto seu capacete rola para o lado e ambos permanecem inertes e mudos  à espera do nada.

    Depois de meses de batalha, a guerra termina sem vencedor nem vencidos, restaram apenas as dores, sofrimentos e recordações dos que ficaram vivos, lembrando seus mortos, vítimas da ignorância humana.

    O tempo corre célere e vai apagando as feridas e, no imenso campo de batalha, agora ermo, somente se vê a presença do capacete esquecido e empoeirado pelo tempo...

    Jeremias já algum tempo andava de um lado para o outro, sempre à procura de uma companheira que pudesse dar-lhe carinho, compreensão e quiçá filhos.

    Há muito completara 30 anos e muito raramente tivera uma companheira definitiva que pudesse ouvir seus anseios e com ela compartilhar seus sonhos.
    Tivera várias namoradas, porém nenhuma que pudesse dar-lhe a  verdadeira compreensão que tanto desejava. Por várias vezes as suas arremetidas foram frustradas e sua esposa ideal escapara-lhe.

    Além do aspecto físicol, que não lhe ajudava muito, sempre encontrara entre suas pretendentes um rival de um corpo mais avantajado ou corpo atlético, que sempre causara melhores impressões e com  isso sempre perdera o páreo.

    Todos os dias, em suas orações, pedia a Deus por uma esposa, pois não queria chegar à velhice só e sem filhos.A natureza fora cruel com ele, tirando-lhe certos atributos  que sempre o impedia de ser mais ágil em suas andanças e, conseqüentemente, em sua constante procura.

    Apesar de tudo isto, Jeremias sabia que ainda tinha esperanças e que decerto iria encontrar a sua companheira e com isto realizar todos os seus sonhos e anseios que, na realidade, eram os sonhos de todos os seus semelhantes.

    Suas esperanças renovaram-se, quando, de longe, vislumbrou aquela que poderia em definitivo completar-lhe. Apressou o passo, olhando para todos os lados constantemente, como que procurando vislumbrar a presença inoportuna de um rival  que pudesse  frustrar-lhe, mais uma vez, as esperanças.
    Enquanto se dirige para uma possível conquista, apressa-se a fim de evitar os costumeiros dissabores da concorrência desleal.

    Aproxima-se da pretendida, dirige-lhe a palavra, porém ela estática como estava, ficou.
    A princípio Jeremias pensou que não fora escutado e, encostando-se suavemente nela, passa a falar-lhe, contar-lhe seus sonhos, porém ela,  realmente, parecia não notar sua presença, pois continuava impassível ante os apelos do amado.

    Ele, que vivia em constante procura, logo imaginou que ela fosse cega ou mesmo surda, pois além de não lhe responder, ignorando-o Após minutos daquele monólogo e vendo frustrados todos seus esforços, retira-se e fica  a certa distância, observa a mudez de sua pretendente.

    Passam-se os dias e ele, de tocaia, observa sua amada, esquecendo-se com isso de realizar os suas  mais básicas necessidades físicas.
    A visão já turva, a fraqueza já se faz sentir em seus passos hesitantes e inseguros. Observa  que dois garotos se aproximam correndo pela pradaria. O que era maior e parecia ser o mais velho passa por Jeremias sem notar sua presença e, aproximando-se de sua amada, inclina-se sobre a mesma e, segurando-a, levantou-a e se dirigindo ao companheiro que o segue, diz:

    - Veja, Pedro, achei um velho capacete usado pelos soldados durante a guerra.

    Pedro observa o companheiro e responde:

    - Enquanto você se preocupa com um simples capacete, eu acabo de encontrar o nosso almoço. Veja este jabuti que acabo de encontrar, vamos embora prepará-lo para o almoço.

     E lá se foram os sonhos de Jeremias...

              10/08/2001 -VEM


                       
     

 



Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 30/11/2005
Reeditado em 08/03/2009
Código do texto: T79080
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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