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O BATATÃO – Um Pereirinha


Um dos Pereirinhas andava com uma coceira no saco que dava dó. O pequeno não dormia, passava a noite se coçando. Tomar banho era um holocausto dos maiores. Uma gota de água nos colhões e o Pereirinha se sacudia no banheiro, puxando o ar pela brecha dos dentes e não adiantava soprar por que qualquer vento ardia.

O saquinho do pobre já estava em carne viva daquela coceira. Parecia até que o coitado carregava um saco de coloral entre as pernas.

Dona Dora já não sabia o que fazer, melava o pobre do saco com tudo que podia. Remédio caseiro não faltava. Um dia andiroba, outro copaíba, sebo de Holanda (ou é de Iolanda?). nada, nada mesmo curava a coceira. Sim, a coceira, porque pobre não tem alergia, nem processo alérgico. Pobre tem é coceira e essa era das brabas.

Pereirinha andava triste, não podia brincar, se suava ardia, se secava ardia, se caminhava coçava, mas coçava mesmo. O pequeno não tinha mão pra outra coisa.

Até que Seu Pereira aparece na história. Lá no quartel, o barbeiro que aparava os cabelos dos fardados, conversando com seu Pereira, ensinou um remédio, que, segundo ele, era tiro e queda. Sarava na hora qualquer ferida. Era o BATATÃO.

Uma mistura de coisas que não dá pra relatar aqui, vai ficar enfadonha a leitura e é urgente sarar o pobrezinho. Sei que levava álcool, querosene, sal (oh, Deus! Sal de novo.) batata moída, não sei quanto de pimenta malagueta, claro que tinha limão, mas dessa vez tinha açúcar e outras coisas tantas.

- Lá com os meus não uso outra coisa, Pereira. Se você quiser eu preparo e amanhã trago uma garrafa pra você e o pequeno vai ficar bom.

Seu Pereira chega em casa no dia seguinte com o veneno debaixo do braço, desculpem-me, remédio. Recomendação do barbeiro. - Cuidado, Pereira. Não sacode muito a garrafa que isso pode explodir.

Seu Pereira não esperou. Qual pai gosta de vê o filho sofrer? Chamou logo o pequeno.

- Senta aqui. Arreia o calção. Nossa mãe! isso tá parece um vulcão em erupção.

- Vai doer, pai? – Sê frouxo menino, homem não sente dor.

Chamou o outro e deu a ordem: - vai lá na rua e procura uma ficha de refrigerante pelo chão. Rápido o outro trouxe a tal ficha cheia de terra. Seu Pereira bateu na cadeira, limpando a sujeira. Segurou o pinto do Pereirinha e não contou conversa, raspou o saco do pobre com a ficha, voava poeira. (Não, não, não pare a leitura por aqui. Esse é um mal necessário. É uma cirurgia. Só que sem anestesia, é claro).

Desculpem as palavras em minúcias, mas já imaginaram um colhão do avesso? Já sim, agorinha mesmo. Então pronto, foi assim que ficou o do Pereirinha, em carne vivíssima, mas não vou contar como tava a cara, nem o gemido que fazia.

Segue o procedimento cirúrgico. –Dora, traz a garrafa, mas cuidado, não precisa balançar, não. Seu Pereira, tirou a rolha, ensopou o algodão e molhou o saco do menino. Foram contados cinco segundos, ninguém segurou o Pereirinha. Saiu desembestado porta a fora, correu um quilômetro gritaaaaaaaaaaaaannnndo.

Voltou pra casa dez minutos depois, nem se dava conta que tava nu, tão esmorecido, tão verde, verdinho foi pro colo da mamãe.

Prossegue a cirurgia: Seu Pereira abriu as pernas do filhinho amado e viu a coisa mais encolhida e enrugada do mundo. Um vulcão tinha morrido, agora só aquela crosta dura, um cascão roxo.

- Daqui a meia hora pode tomar banho, viu?! Disse o médico.

- Tá doendo, filho?

- Tá não, mãe. Eu não tô sentindo nada. Uma lágrima rolava pela face do Pereirinha.

Nunca mais ninguém teve coceira na família. A garrafa do BATATÃO tá lá no armário.

Edmir CARVALHO BEZERRA
Enviado por Edmir CARVALHO BEZERRA em 07/12/2005
Código do texto: T82305
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Sobre o autor
Edmir CARVALHO BEZERRA
Belém - Pará - Brasil
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Edmir CARVALHO BEZERRA