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O Réu Negro

          Digo sobre um fato ocorrido num pequeno povoado incrustado no coração do árido sertão nordestino, onde lá, seu povo vivia feliz cheio de prosa e verso, aconteceu um episódio nos idos de 1950, e que ainda insiste em permanecer memorizado.

          Num clima de pureza do corpo e da alma é que aquele povo foi surpreendido com um acontecimento não muito peculiar para a sua realidade: a violência. Esta, desencadeada a partir de uma denúncia de roubo, onde a vítima, um forte comerciante e pecuarista local, acusava a um de seus diletos e subalternos criados.

          - Pela acusação de roubo eu te condeno a três dúzias de palmatoadas - disse-lhe a autoridade local mostrando ao seu cativo o instrumento da execução da pena: uma apavorante palmatória.

          - Pelo amor de Deus não me bata! Sou inocente, sou inocente. Não me bata. - Gritava o réu em profundos lamentos ao ver aquele pesado madeiro.

          - Abra a mão, - a autoridade ordenava segurar-lhe pele punho e... (pa) - zunia no ar o estampido da malvadeza. - A outra mão(pa), a outra, a outra; abra a mão, a outra (pa, pa, pa,. . .), e o troca-troca de mãos sucedia-se na mais estúpida cessão de violabilidade nunca dantes presenciada por aquele povo pacífico, que agora se espremia frente à única janela da cadeia, somente, para ver e ouvir aqueles absurdos.

          Gritos espantosos e barulhos aturdidos causavam arrepios e arregalo de olhos, apavorando a consciência daqueles que em murmúrios o inocentava, ao tempo em que seus algozes se enchiam de júbilo e prazer por aquele mérito castigo. Ali, os conceitos populares se mesclavam: uns eram a favor das palmatoadas, já outros, achavam-nas absurdas. Era como numa espécie de jogo, onde as torcidas aclamavam seus favoritos.

          - A outra mão (pa), a outra (pa). Onde está o dinheiro? - Aos gritos, interrogavam-no.

          E a tortura castigava-lhe na carne e na alma como se ele fosse um inumano. A ordem de abra a mão, a outra; ressoava-lhe nos tímpanos como um rosnar de satã e não lhe haveria perdão nem escapatória.

          - Onde está o dinheiro? Fale, negro! Cadê? Fale?

          - Pelo amor de Deus, não fui eu. Não me mate. Sou inocente, juro! Sou inocente.

          Ninguém lhe ouve. Seus apelos são em vão e os ânimos, lá fora, acirram-se.

          Enquanto isso, o castigo continua-lhe mais intenso e animalesco.

          - Este negro vai morrer. - Foi o que alguém da turba chegou a dizer.

          - Ele tem é que agüentar. E tem que pagar - Retrucou um outro.

          - Das três dúzias, faltam-lhe ainda uma e meia. Fale, onde está o dinheiro? (pa) Abra a mão, a outra, a outra. Cadê o dinheiro, seu negro sujo? Diga! Aonde escondeu os duzentos mil réis do seu patrão?

          - Por Deus eu lhe peço. Não me mate! Não roubei ninguém!

          - Você roubou o dinheiro de quem ia comprar mercadorias para o armazém: duzentos mil réis: para ti uma fortuna. Foi você seu negro ladrão filho da puta. Vou lhe capar seu mijão e depois vou fazer você comer sua própria carne. Onde está o dinheiro? Fale?

          Todos os olhos e todos os ouvidos do lugar estavam lá, lá na frente, do outro lado da parede: na rua. E todos queriam testemunhar áudio e visualmente aquela violação imposta por um veredicto sargental, pois ali estava em carne e osso a maior autoridade abaixo do céu: o sargento Salomão. Ele fazia a sua justiça particular e impunha seus limites jurisdicionais a seus cabisbaixos subalternos. - Verdadeiro Calígola dos tempos modernos -.

          Um episódio retrogrado aos velhos tempos medievais e agora transportados para aquele momento, ali, na carne de um negro indefeso e, quem sabe, deveras inocente?

          Um pelourinho aqui, outro ali. Não importa. Tinha-se ali um negro que por pouco, muito pouco, não esteve acorrentado nas plantações de seu amo, mas que agora estava subjugado às leis do sargento Salomão, o senhor absoluto da ordem local e da sua própria lei. - ele era um negro, ladrão, e... pronto! Êi-lo acuado, humilhado, maltratado na sua dignidade, e, por todos olhado, olhado e falado: bem falado e mal-falado.

          - Vou descansar um pouco a minha palmatória e depois você me dirá onde está o dinheiro. Entendeu seu negro ladrão, safado. Logo logo voltarei, e você há de se acusar. É a lei, a minha lei, a lei do sargento Salomão. Entendeu?

          Cabisbaixo e em prantos é levado para seu cárcere: um quarto de dois por dois, por três metros de altura, com telhado de barro cozido, uma porta de sucupira e um mini visor quadrado que dele via-se todo o interior da cela, e lá dentro trancaram o negro Mundinho: assim chamado, ao invés de Raimundo, Edmundo ou como fora batizado, mas, não importava: ele era um negro ladrão e pouco valia o seu nome.
Mundinho gemia tal qual um suíno na hora do seu abate, e suas mãos, agora avermelhadas como fogo, começavam a bolhar, enquanto seus olhos aterrorizados, corriam em suas órbitas desgovernadamente, como que à procura por um socorro que ele não podia ter.

          Nada mais lhe doía senão as palavras ouvidas e repetidas, e que agora na solidão de seu cárcere passam em sua mente tal como a música de um disco que, arranhado, fica a repetir: ("onde está o dinheiro?" , "fale", "diga", "onde escondeu os duzentos mil réis?", "negro ladrão", "filho da puta", "vai comer sua própria carne". "Salomão, Salomão" , "entendeu?". Tudo isso a se repetir, repetir e repetir.

          - Vou enlouquecer. Não vou agüentar. E ainda terei que apanhar. Valha-me Deus! - Era um terrorismo mental.

          Soprava suas mãos desesperadamente e a sede era-lhe implacável.

          - Melhor seria eu não ter nascido. Assim, não seria escorraçado nem chamado de "negro ladrão filho da puta, nem estaria subjugado à lei do sargento Salomão, castigado e humilhado perante pai e mãe".

          Ó velho Sertão cheio de histórias e estórias; abastado de amor e ódio.

                               *

          Ninguém arreda o pé. Todos do lugar estão lá fora, de plantão, para registrarem o final deste triste veredicto. É quando, mais uma vez, o acusador narra a sua versão. A versão do fato.

          - Sargento, mandei este negrinho ai - dizia mostrando com o indicador na direção da cela , onde estava o preso -, arrear meu cavalo. Eu tinha que viajar para fazer as compras do armazém. Coloquei nos alforjes tudo de necessário para a minha viagem: roupas, comidas e o dinheiro: duzentos mil réis. Forrei a sela com um coxim e... dentro dele... dentro dele. dentro deeele! - Concluía sua fala, totalmente aturdido e espantado.

          - Sim, meu senhor! Dentro dele? - Inquiriu o sargento Salomão.

          - O dinheiro sargento! O dinheiro! O dinheiro está lá dentro do coxim. Diz o acusador, atônito; com as mãos na cabeça. A vergonha, agora, era sua. - Pelo amor de Deus, sargento! O negro é inocente, é inocente. Soltem-no. - gritando, e com as mãos no rosto, ele concluía: sargento, o dinheiro não estava dentro dos alforjes tal como pensei. Ele está dentro do coxim sobre o cavalo e eu estava sentado nele. Como pode? Desgracei com a vida de Mundinho.

          E aos prantos o acusador implora:

          - Perdoe-me Mundinho. Por Deus eu te peço, perdoe-me.
          Nesse ínterim, a autoridade ordena:

          - Soldado! Traga-me o negro.

          Este, imediatamente sai, e tão logo retorna aos brados:

          - Sargento! Sargento! O negro fugiu pelo telhado. A cela está vazia. Pode ir conferir.

          - Como? Como pode? Gritava o sargento Salomão com os olhos arregalados de espanto.

          E Nunca mais se viu nem se ouviu falar do negro Mundinho: nem vivo, nem morto.
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 09/12/2005
Reeditado em 09/12/2005
Código do texto: T83184
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz