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As cordas



Brincava de pular corda e por isso mesmo, guardava todo tipo de corda em casa. Desde as mais fininhas e delicadas feitas de tranças de náilon, até as mais grosseiras feitas de cisal.  Não se achava colecionador de cordas, mas comprava todas as que encontrava pelo caminho. Por vezes, comprava duas, três ou quatro iguais só pelo prazer de não deixar nenhuma na prateleira para outro comprador aficionado. É. Ele gostava de cordas. Sua casa borbulhava cordas por todos os lados. Os armários abarrotados e estufados de cordas e mais cordas. Aprendeu e treinou várias manobras com elas. Pulava com uma enquanto com a outra fazia laços sobre a cabeça. Numa noite um pouco quente, havia ido dormir levando consigo um cigarro e um livro sobre cordas e nós. Estava mesmo aprendendo a fazer nós nas cordas. Deitou acomodando o travesseiro um pouco alto para conseguir uma visão melhor das letras enquanto o cigarro no canto da boca fazia brasa. Não é preciso ser muito esperto para saber que acabou por adormecer com o cigarro na boca e, por incrível, quando abriu a boca para babar um pouco de sonho, o cigarro rolou para o chão sem tocar sua pele. E estava feita a cena. A brasa muito próxima das cordas espalhadas pelo chão buscou alcançar um fiapo de cisal e logo.. chsss a brasa cantava na corda fina que logo iniciou a dança do fogo queimando-se e queimando cordas mais próximas. A fumaça vagava pelo ar da noite parada, entrando narinas. Acordou num susto amarelado e nebulou negro tentando sair do quarto já tomado pelo fogo  sem conseguir. A fumaça fugia pela janela e ele desesperado pensava no que poderia fazer para escapar dali. Abriu o armário e, sem entender direito o que acontecia, as cordas ali guardadas pulavam por sobre ele como se pulsassem vida e ódio, uma  por sobre a outra, embaraçando pernas e braços e um pouco da cabeça. Já preso e sem saída, rodopiava tentando se desvencilhar das cordas que abraçavam cada vez mais apertado. E já quase tudo negro e cinza carbônico e outro chsss. Colméias de brasas pulavam pontas de cordas que emaranhavam já o corpo todo. Sentiu, então, o fogo chegar-se para o abraço nefasto. Despediu-se da vida entre todas as cordas, beijando uma das grossas que agora lhe tapava a boca.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 12/12/2005
Código do texto: T84828

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury