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O Ladrão

O Ladrão



Pega ladrão...! Pega ladrão...!  Os gritos da senhora ecoaram pela Avenida São João. Logo outras vozes uniram-se ao som de sua voz. O reboliço tomou conta do lugar no momento, naquela tarde nublada de um dia  rotineiro, na cidade de São Paulo. Um menino maltrapilho e descalço, de cor negra, com seus doze anos corria, desesperadamente. Desviava-se ora de um, ora de outro, na tentativa de se livrar da multidão que agora o perseguia. Os algozes, aos gritos, procuravam de todas as maneiras alcançá-lo. O desespero espelhava-se nos olhos esbugalhados e amedrontados daquele guri, franzino e mal nutrido. Em quanto isso, a mole enfurecida de perseguidores ia se engrossando. Fugir? Sim! Mas para onde? Atrás vinham os seus perseguidores e na frente formava-se outra barreira humana a interceptar  seus passos, evitando-se assim a fuga. Em questão de segundos, o “nosso” pequeno ladrão, o menor fugitivo, o menor desamparado, o marginal, seria alcançado. Seria espancado, chutado, arrastado pela sarjeta e depois, a morte...!
 Qual seria seu crime? A necessidade de saciar a fome. O desejo de sobreviver a mais um dia de sua pequena, ludíbria vida de encontros e desencontros. Vivida numa sociedade desumana, insensível que negava-lhe o mínimo essencial á sua sobrevivência. Segundo a Constituição Brasileira, somos todos iguais e temos os mesmos direitos de cidadãos. Devemos ser providos de estudos e alimentação. Mas, esse minúsculo ladrão, de bolsas de senhoras idosas, estava à margem da vida. Trazia na garganta um grito calado, sem ter o direito de colocá-lo para fora. Seus anseios sufocados. Seu pequenino corpo marginalizado, esquecido, corrompido, indesejado. A destruição fazia parte de seu dia a dia. Não provocada por si mesmo, mas, por algo que brotava, que se agigantava e se impunha; cujas raízes estavam sedimentadas numa sociedade sem consciência e sem humanismo.
Onde vivia? Naquele colorido, quase insólito, mundo feito de pedaços de tábuas mal pintadas, que se constituíam em míseras moradias. Estavam encravadas ns encostas  íngrimes daquele morro, tendo logo abaixo o rio, extremamente, poluído. Essas “palhoças” gritavam bem alto a miséria de um povo. O grotesco de vidas, o espúrio de uma sociedade, os restolhos da humanidade. Clamavam a viva voz por algo humano, justo, merecido. Mas, a consciência dos que poderiam interferir nessa paisagem de desolação e fracasso estava adormecida pelo egoísmo, pela indiferença, pela ganância e pelo poder. Era nesse amontoado de retalhos  de outrora coisas, hoje espectro de uma vida não vivida, que vagavam centenas de zumbis cambaleantes. Eram velhos, mulheres, crianças e pseudo-homens na busca do inatingível, no caminho do nada, porque as chances de sobrevivência eram mínimas. As que restavam eram tiradas ou então negadas por uma sociedade vivida num país reconhecido como cristão.
O cheiro fétido que exalava das poças de água servida, que corria a céu aberto misturava-se ao azedume da vida que ali levavam. Isso tudo, resultava num insólito de marginalidade e total desrespeito pela vida humana. Onde os mais poderosos ou, os que supunham estar no poder, usufruíam o direito de impor o medo aos mais fracos. Todos menos favorecidos curvavam-se perante os “traficantes de vidas”, pagando-lhes pedágio, jurando-lhes lealdade. Existiam os traficantes de drogas, os traficantes de crianças, os traficantes de mulheres e os traficantes de almas. Por alguns trocados tiravam vidas muitas vezes inocentes, confundidas depois de um dia de céleres bebedeiras. Era nesse intrincado mundo de mediocridade, que nosso anti-herói, vivia. Pés descalços, peito exposto, por falta de tecido no que restava de uma suposta camisa de terceiro dono. Cabelos por cortar, nas faces a expressão de desânimo e vergonha pela situação em que se encontrava. Preferia ficar nas ruas da cidade, perambulando sem ter para onde ir, do que voltar para seu barraco de um só cômodo. Onde vivia supostamente uma família de doze pessoas. Sendo o quinto filho, não tinha nenhuma atenção, porque não era o mais velho e muito menos o mais novo. Apenas era o quinto, aquele que estava ali, nada mais, para ocupar espaço. Comer dos restos que sobravam dos mais novos, isso quando sobrava. Carinho? Nunca havia recebido um só beijo sequer, da mãe, porque o pai nunca soube quem era. Era maltratado pelos irmãos porque era o único negro de uma família de raças variadas. Era odiado, espezinhado, ignorado, pela família e pela sociedade. Até o direito a educação era lhe proibido, porque o governo deixou de aplicar aquela verba destina à educação, não tendo assim vagas nas escolas públicas. O desejo de aprender era imenso, de se realizar como ser humano. De ser alguém de que sua mãe pudesse ter orgulho, mas, era covardia se apresentar de cabeça erguida perante uma sociedade voltada para o capitalismo, onde a miséria tinha seu mundo particular e impenetrável.
É óbvio que esse pequeno garoto não sabia para onde ir, o que buscar ou o que fazer. Encontrava-se numa encruzilhada da vida, onde todos os caminhos o levavam para o nada. Sua vida nada mais era do que um mourejar descabido, onde o rastejar constante, embebido da lama do desprezo, da solidão, do fracasso era apenas um espectro de vida. Essa situação deplorável é o reflexo do mundo atual, cheio de egocentrismo, onde a maioria está preocupada demais onde colocar os próprios pés, para levantar a cabeça e olhar para o próximo. Mantendo-se cada um, como se fossem ostras, voltados para dentro si mesmos. A experiência de vida tem demonstrado com clareza que quando nossas vidas estão em perfeita sintonia com os que nos cercam, descobrimos qual o caminho que nos leva ao cumprimento da cidadania. Mas, infelizmente, são poucos aqueles que se esmeram em transformar suas vidas em uma sublime arte. Estão perdidos num labirinto intrincado de preocupações, esquecendo-se que foram criados para viver uma vida plena. Muitos riscam o espaço da existência humana, como um fogo fátuo, a procura da realidade sensível e valiosa, mas, com tristeza nada encontram. Por isso não conseguem  existir realmente.
...Agora, estava estendido na sarjeta como um amontoado de lixo, jazia inerte e complacente.  Apenas os sons vindo dos automóveis eram ouvidos. Todo grito se calara. Toda agitação deu lugar a um silêncio constrangedor. Apenas os sentimentos demonstrados, nas faces daqueles algozes de apouco, eram marcantes. Muitas mulheres choravam baixinho. Outros oravam, talvez pedindo perdão por ter participado da chacina. Mas, eu encostada no muro de minha existência, mantinha-me com os olhos rasos de lágrimas. A culpa fazia-se presente em minha alma. Não por ter participado da multidão que faminta de justiça, a fazia com as próprias mãos. Mas, por ter me calado, consentindo tal monstruosidade. Percorrendo os labirintos de minha mente, esquadrinhando os recantos mais secretos de minha alma, deparei-me com a pergunta: O que realmente é o existir? Será que a existência era só isso? Para mim, com certeza não! Mas para aquele garoto, sua existência, simplesmente, diluiu-se no tempo e no espaço. Como cinzas de uma fogueira feita de ilusões, levadas pelo vento da incongruência humana. Passou sem deixar rastros, pegas ou sequer, impressões digitais. Apenas...! Deixou de existir!


Ester Machado Endo.




mendo
Enviado por mendo em 31/03/2005
Código do texto: T8861
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