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2 - ROO AS UNHAS DE INVEJA?

ROO AS UNHAS DE INVEJA?

LFT
«Abro meu guarda-roupa e pego a boina e as luvas cor-de-caramelo que a tia fez. Mas essa boina não ficaria melhor sem essa pena de ganso? Mas se tiro a pena pode ficar um buraco no crochê, paciência, eu digo, e enterro a boina até as orelhas. Dou uma eriçada na franja que de tão comprida está entrando pelos meus olhos, tenho que aparar essa franja. Calço as luvas. E aparar as unhas. Olho Matilde que continua taque-taque, roendo as próprias.», Lygia Fagundes Telles

Lygia demorou tanto tempo a arranjar-se que deixou Matilde nervosa, entregue à poda das suas unhas com os dentes. Enquanto uma se arranja, já a outra se desarranja. Pois o trabalho de manicura é tão importante que alguém que esteja no supra sumo dos requintes de vestuário, adorno e decoração, decerto não será salvo pela maquilhagem se apresentar unha sujas ou mesmo apenas ratadas...
O conto que vos trago bebi-o dum trago, lendo-o da imaginação, memória e fantasia de Matilde. Não deixa de ser curioso saber, como sei, que mesmo depois de a ler por dentro, não faço a mais pálida ideia de quem seja, o que faça, tampouco do que gosta ou deseja para além do que imagino eu. O que me deixa um pouco apreensivo sobre a história que vou contar, será que a mesma diz assim tão pouco de quem a pensou?
O que vejo é Lygia a olhar uma boina macia, a acariciá-la com os dedos, poisá-la na cabeça, caminhar até uma mesa, sentar-se e começar a escrever com uma caneta de tinta permanente sobre uma folha branca A4. Vê-se que o papel é de boa qualidade, há uma espécie de volúpia nos seus gestos. Quase imagino a suas narinas dilatando suavemente para inspirar mais profundamente e o pensamento corre vertiginoso e célere, como se montasse em pelo Pégaso o cavalo alado representado na sua cor branca tendo por pele a folha onde voa uma imaginação prodigiosa entregue a minuciosas minúcias com a atenção dum jogador de roleta viciado no jogo. Roleta onde os números foram substituídos por letras e se forma uma frase em espiral continua, num movimento encantatório onde a escrita brilha com o fulgor do metal fundido a ser vertido líquido e incandescente quando sai da fornalha ardente, neste caso, da imaginação. Embora o que mais uma vez visita a minha seja a boina de croché cor-de-camelo com a grande pena de ganso que substitui a caneta apenas ficando o aparo a brilhar e a deixar correr sobre o marfim da folha... o metal fundente e fulgente dum pensamento urgente tomado de vertigem e febre unindo todas as ideias na corrente da consciência.
Matilde respira fundo, Lygia abriu a porta e pergunta (finalmente...): Estou bonita!?
- Maravilhosa! A resposta parece agradar, não demoram saem e ficamos sozinhos abandonados, como se as personagens dum conto deixassem o seu autor e leitores entregues à sua sorte. Sendo que a sorte dum autor é sempre a mesma, a imaginação que o alimenta, as imagens que vive e reproduz. Por momentos ainda não me sinto só, de toda aquela energia recolhida, ainda me resta pensar que sentimentos animavam a minha personagem e reconheço mais uma vez o que sentia no inicio: não sei.
Sou no entanto tentado a pensar que passa pela admiração mas filia-se num sentimento muito mais profundo, estranho, obscuro, quase uma matriz recolhida nas origens da espécie, uma espécie... de luta pela sobrevivência: criar!
Tenho para mim que Matilde estava a criar como crê cria Lygia que é escritora, deixando-me, transmitindo-me, esta sua necessidade agora minha de procurar um rio para deixar fluir a corrente de consciência tendo por meta o mar, amar, desejar a imortalidade das palavras, guardar a vida dum personagem, procurar a vertigem onde se tingem as ideias, onde ganha cor o pensamento onde, por um momento ou por momentos o artista transcende o homem. Deve isto querer dizer, o homem se transcende e vê artista.
Quereria poder entrevistar Matilde, saber como conhece Lygia. Poder, a final de contas, continuar a escrever sobre elas. Ser capaz, no fim das contas todas... de ter contado tudo, das conhecer melhor.

{«O leitor é convidado a continuar um texto dos cinco autores do Portal e concorre a um exemplar de um livro do autor escolhido autografado. Participe.», o convite está no Portal Literal. O mesmo que oferece aulas na Oficina Literária, como também já antes fiz questão de dar conhecimento. O endereço é: http://portalliteral.terra.com.br/}
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 26/12/2005
Reeditado em 26/12/2005
Código do texto: T90609
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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