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3 - O ESPÍRITO E O MEDO

O ESPÍRITO E O MEDO

RF
«3 - Eu ainda estou na cama e isto tudo foi a memória funcionando. Ou será que não foi? Eu sou hoje um homem tão cheio de dúvidas. Não sei mesmo se fechei as portas e com isso não consigo dormir, chego até a sentir um peso no meu coração. Eu preciso dormir. Vejamos: na porta da varanda, ao checar o trinco eu fiz ploc-ploc com a língua contra os lábios.» Rubem Fonseca

Encosto a língua sobre o lábio inferior, depois abro e fecho a boca tentando fazer um ploc-ploc sonoro. Sai-me um ta-tcha-ta, uma coisa meio chocha. Embora seja interessante sentir este orgão vocal, a boca, a fazer sons que não consigo reproduzir para a escrita, nem tão pouco me deixa traduzir bem o tipo de expressão no rosto. Concentrado e atento, como quem espera uma ideia ou revelação!
A verdade é que escrever é a única salvaguarda para o parco equilíbrio do meu espírito que parece pairar e andar à deriva de medos irracionais, salvo quando o salvo. Quando, como agora, pareço dar-lhe a mão e - o - ir guiando enquanto escrevo. Sempre me surpreendendo como consigo dar esta confiança que não tenho a mim próprio, parecendo ser quem não sou?
Tudo isto tem a sua história, vou tentar a esta transformá-la num conto. Um conto sobre este exercício onde, mais do que entreter-me, procuro ter-me mais corajoso. Sobre tudo mais controlado e com menos medos, desafiar a sorte e o destino!
Contudo não me equivoco, não sou e não fico corajoso. Torno-me é mais analítico, consigo saber o que sinto sem me entregar ao que sinto. Isto faz de mim uma pessoa diferente, não tanto a pessoa que sente, mas mais um ente que pensa. Este pensamento leva-me a compreender muitas coisas: como é possível falar das encarnações e desencarnações, como se tornam concretas as abstracções do pensamento humano; como um erro dá uma certeza muito mais real do que qualquer verdade, por outro passível de ser transformada em nada!
Defendo-me do possível. É no entanto sempre um exercício doloroso querer ser consciente, a inconsciência é que nos arrebata e faz verdadeiramente humanos. Isto é, nós somos, maioritariamente, irracionais no nosso pensar. O que é natural, pois seguimos as nossas pulsões, desejos e volições mais voláteis e inconstantes. Quero, não quero? O que quero? Sei, não sei!?...
3 - Escrevi um número de ordem, procurando organizar-me, ficou esquecido, em desordem. É um três sem 2, sem 1. Mas isso é falso, porque a unidade existe em Deus que é trígono. Se não me lembrasse de Deus, outra explicação teria. Também me seria fácil ler: 1, 2...  3 - : Comecei! Qualquer outra coisa... justificaria coisa nenhuma, escrevo sobretudo para não ter que me justificar! Como justificaria o medo que sinto?...
Recostei-me na cama, escrevo. Há quem antes de dormir tenha de ler, também tenho essa necessidade. A essa somo esta, tenho de escrever. Como se, sem ter deixado uma marca do dia no meu caderno, o dia pudesse não ter existido ou perdesse sentido.
Tentei pensar o medo, ver como ele é familiar da dúvida. Criar uma história imediata, instantânea de tudo! Isso começou por pôr em causa estar a viver uma memória passada ou ter a impressão presente dum presente que ainda se sente e faz sentir. Neste, há sempre um grau de exigência diferente, se tenho fome, a dor de barriga deixa de ser uma memória antiga, torna-se actual.
Verdadeiramente... se tenho dúvidas é porque preciso delas para alimentar o meu medo e, se não tivesse medo, estaria entregue às certezas o que me daria um medo permanente e actual. Daí fazer uma ficção dos meus medos, como por exemplo:
O que seria de mim - que agora estou aqui confortável imaginando coisas - se as coisas não tivessem realidade alguma, seria eu real? Então torna-se bem real a história do conto que procurei contar:
Sou um homem cheio de dúvidas, não sei se fechei as portas, deste modo não vou conseguir dormir, sinto um peso no coração, sei que preciso de dormir, vou-o conseguir; estou-me a lembrar do meu ta-tcha-ta com a língua, vi a minha imagem na porta da varanda envidraçada, assim tenho a certeza de lá ter estado. Se alguém a forçar acciona o alarme, etc...
Amanhã volto a tentar um ploc-ploc, não! Tenho de tentar um som novo, em que não possa pensar estar a usar uma memória antiga. Se for necessário releio este conto, em vez de escrever um conto novo, este eu sei que é bem real e... antigo. Mas...
Na realidade todos os dias preciso dum medo actual, essa, esta é a minha realidade.

{«O leitor é convidado a continuar um texto dos cinco autores do Portal e concorre a um exemplar de um livro do autor escolhido autografado. Participe.», o convite está no Portal Literal. O mesmo que oferece aulas na Oficina Literária, como também já antes fiz questão de dar conhecimento. O endereço é: http://portalliteral.terra.com.br/
Espero que quem ontem comentou o conto anterior, possa hoje encontrar este meu − agradecimento público, a série continua.}
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 27/12/2005
Reeditado em 27/12/2005
Código do texto: T90865
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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