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4 - MORDE POESIA

MORDE POESIA

FG
«
Como se o tempo
durante a noite
ficasse parado junto
com a escuridão e o cisco
debaixo dos móveis e
nos cantos da casa
», Ferreira Gullar

Acordo e dou acordo de mim, acordo-a e pergunto-lhe: O que é para ti a Poesia?
- Não sei se me acordaste para falar de versos? Poesia é o ar que respiramos e, agora, é sobretudo poder dormir descansada!
(Toma e mais nada!!)
Nem me deu a possibilidade de lhe explicar que estava a ter um pesadelo, tinha sonhado, estava a sonhar com uma poesia, queria-lhe perguntar se ainda se lembrava de lha ter lido antes de adormecermos e iria dizer os versos...
É evidente que ela tem toda a razão e teve muita calma, admiro-lhe essa alma e por isso me é tão fácil amá-la. Talvez por isso a tenha acordado, ela sabe sempre dizer e fazer o que quer e nunca se zanga. Completamo-nos às mil maravilhas: eu às vezes não sei o que quero e só digo coisas que nem sei...
Escrevo poemas e tenho imenso cuidado em os estruturar, para não me acontecer ficar na terra de ninguém onde a poesia é uma ideia que deu versos e os abandonou à prosa.
O meu pesadelo passou por aí, perdi o ritmo dos versos e entrei num rumo diferente. Já não o canto da história, os seus recantos, recessos, acessos a um mundo «Como se o tempo durante a noite ficasse parado junto com a escuridão e o cisco debaixo dos móveis e nos cantos da casa» com_pacto com os demónios da linguagem mais prosaica onde a realidade não é descodificada, dita como tudo e nada, vertida como uma verdade assombrosa!
Ela virou-se para dormir e dorme, eu estou aqui com as palavras atravessadas...
O que amo na poesia, aquilo que verdadeiramente é poesia nas palavras é este encontro e pronto, lá estou eu agora a reler... versos.
Realmente o tempo parece parado a fazer companhia ao silêncio da noite. Porque não? Tempo e Silêncio fazendo companhia à escuridão «e o cisco debaixo dos móveis e nos cantos da casa»...
Sei o que me apetecia mas não estou a conseguir, deslizar como cisco para debaixo dos móveis e ir habitar os cantos da casa ou qualquer outra coisa depois de obter uma profecia breve e intensa: qualquer coisa!
Acordei porque já lá estava e era cisco, estava nos cantos da casa e não conseguia dar outras palavras a esses cantos e começava a sufocar. Acordei para escrever, sair do sonho, do pesadelo. Não encontro outra explicação e procurei esta solução como resposta e remédio. Vou pensar nela!
Quando me deitar ao seu lado saberei de novo e como sempre que a poesia é com cor de ânsia a concordância com nós próprios e por isso temos de sentir toda a poesia como nossa e às vezes... é necessário respirar até debaixo de água para poder ser peixe.
Talvez agora consiga dormir, mas nem toda a poesia deve ser lida antes de dormir. Só que não há pesadelos sem razão e a razão que me acordou ainda me continua a tirar o sono, porque sonhei ser cisco?
A poesia é como uma mézinha, uma mágica:
rimo tempo com alento, noite com açoite, junto com unto, cisco com petisco, e e e, casa e casa e... depois duma sextilha, acabo com uma quintilha!

MORDE POESIA

Ganho alento
depois do açoite
meu corpo unto
como um petisco
para sonhar e
sou isco à casa

Habito o escuro
agito este anzol
onde pus versos
até o silencio vir
morder a poesia


{«O leitor é convidado a continuar um texto dos cinco autores do Portal e concorre a um exemplar de um livro do autor escolhido autografado. Participe.», o convite está no Portal Literal. O mesmo que oferece aulas na Oficina Literária, como também já antes fiz questão de dar conhecimento. O endereço é: http://portalliteral.terra.com.br/}
Francisco Coimbra
Enviado por Francisco Coimbra em 28/12/2005
Reeditado em 28/12/2005
Código do texto: T91212
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Sobre o autor
Francisco Coimbra
Portugal
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