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Amor em linguagem medieval



 AMOR MEDIEVAL
José Augusto Carvalho
A cada quem seu destino...

      De mulher é pouco o falar muito, que todas son uma só, de diferentes rostros, mas a pran de igual felonia. E conto-vos per que faredes de mi gran juízo desto meu guisar de quedar-me solitário e pera mostrar que sandice maior non há que a de fazer-se creúdo da dereiteza de tôdalas mulheres.
    E foi do modo seguinte.
    Muito afazida com as coisas da casa e do lar diziam ser Dona Urraca, dama bem talhada, de muita fremosura e recato. Acaeceu, enton, que o marido, muito mal andante, enfermou de danoso mal que o achantou de vez em caixão de amesurado porte. Aguardei-me de declarar, sem aguça nem adiano, o meu amor de apaixonado sentir, per que non achava de aguisado proceder dizer-lhe que estava cobiçoso de ela, em per diante de tan recente enviudamento. Ao velório fui, muito acordado de morte tan desejada, mas enfingindo sofrença, e louvaminhando de passo calado a albergada dolorência que em mau ponto lhe tirara a ela o grado de viver.
      Non queria eu agravecê-la com o apoer mal prez ou contar que o marido era doneador, mui galanteador de outras damas, aquestas pouco adestradas, per serem desvergonhadas e se darem a tôdolos que lhes pagassem. A viúva semelhava muita desaventurança e careza de saúde, tantas eram as lágrimas doridas que trilhavam seu rostro de alvaiade. Muito desensinado seria de minha parte propor entendença nova de amores con viúva recém, que orava em perante o corpo do marido. Per esso de muito ser cavalheiro foi que só lhe disse, mentireiro, per delicado devotamento:
      — Senhora Dona, non sabedes vós desse marido con que vós agora non sodes mais, porende vos digo que duvidança non há que outro mais honesto en este mundo non acharedes, nem tam virtuoso de tôdalas virtudes de cavalheiro.
    E afirmei-lhe que tôdolos cabelos canos de minha cabeça eu cortaria per câmbio de vê-la viçosa a ela, sem mais doloroso pranto.
    E fui-me.
    Alguns meses quedei-me à sua porta per vê-la de negro vestida entrar da missa, muito desejoso de um olhar seu dela. Mas um dia albergou meu coração façanhuda coragem de achegar-me a ela e falar-lhe de meu sentir.
      — De mi non duvidedes, Senhora Dona, que muito vos amo de amor mais ancho que o mundo; que de tôdalas damas que conhoço, outra non há como vós, de aguisada dereiteza de dona bautizada e cristã. E acharedes en mi, pera correger vossa solitude e pobreza, em juntando casamento comigo, que sou um cavalheiro que non sabedes cujo é o passado, mas que acredita que tenhades en el um futuro aventurado.
       Desbulhei assi minha lazeira de amor, na querência de resposta esperançosa. E acalei-me, à espera do seu guisar, que non tardou, e que me fez trilhar de novo, mal treito, o chão da realidade treda: ela non havia queixume de mi, que me sabia homem de bom proceder, mas apenas aos domingos ela podia acordar-me dereitos de marido, per que em tôdolos outros dias da semana já outros cavalheiros a ocupavam com esses mesteres de cama, e que nem uma solitude sentia nem ouro lhe falecia, em desde que enterrara o esposo.
     Arar com lobos non é aguisado de uma dama que eu pensei de boa formação cristã e virtude numerosa. Muito sanhudo teria eu me quedado, mas faça quis cada quem seu mester pera o qual é nascido. E todo o meu amor per ela se foi, na tristura desso que escuitei de seus próprios lábios. E assi me quedo eu hoje, solitário e triste, per que outra dama nunca mais olhei, descreúdo de tôdalas outras. E nunca mais tornei a vê-la de novo, pera non acender a paixão que ainda teima em quedar-se nos perdudos da minha saudade.

(De: “Uma história em quatro estilos”, do livro O braço e o cutelo (Vitória: Nemar, p. 27-8, 1993)


José Carvalho
Enviado por José Carvalho em 29/12/2005
Código do texto: T91669
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Sobre o autor
José Carvalho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 76 anos
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José Carvalho