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O primeiro conselho

O primeiro conselho


Mesmo hoje, se eu pudesse ver a aura dele, lá no âmago assim, diria que era barrenta. Assim, escura com veios de dourado, ou reluzente maculada pelas manchas, mas sempre conferindo aquela aparência fosca, que fazia dele bem e mal numa só pessoa.

Eu ainda acho que era só incompreendido, mal interpretado. Penso nele como um rapaz de potencialidade pura, incrível talento e vontade de viver, mas que os desastres da sua vida o fizeram rumar por caminhos tortuosos, por experiências que a gente manda as crianças saírem da sala antes de contar. Uma vida pesada, ele teve. Nunca é bom julgar um homem que passou por uma vida pesada.

Sua mente era daquelas complexas, que produziam coisas sublimes para o mundo e criavam, para si própria, armadilhas de pensamentos funestos, desespero e solidão. E, apesar de tudo, eu ainda hoje bateria em quem falasse mal dele, em quem não dissesse que ele era lindo.

“Não é hora de mudar?”. Começou assim, com essa insolência do rapaz branco de cabelo preto. Eu andava pelo conservatório, já cansada de tocar o violão. Era o mesmo violão que eu tocava há 5 anos e tentava reinventar, sem sucesso. “Vem, eu te mostro o saxofone.”Coisa lúdica, pensei, vamos ver se me divirto... Mas já estava me apaixonando.

O sax dele era tenor. E eu, na mesma semana, mudei para sax soprano. Um completava o outro. Fazíamos ensaios, duetos intermináveis de grave e agudo, até que nossas bocas se cansavam daquele gosto frio de metal. Então abandonávamos os bocais sem vida para abocanhar, como se o mundo fosse acabar, um a boca do outro. Eu tocando sax tenor nele, e ele também fazendo de mim seu instrumento preferido.

“Instrumento”. Me perdi na sutileza da palavra. Pode ser mesmo que, no final das contas, eu nada mais tenha sido que um instrumento. Ele agora saía comigo, não saía? Subia na esfera social. E dava em cima das outras na minha presença. Mas eu sabia que eram excentricidades de músico, não eram? “Sim, você sabe que só quero você. Vem cá...”; “Você está bêbado.” E ele fazia um olhar que me fazia assumir todas as culpas, até as que não tinha. E pagar todas aquelas contas altas que não eram minhas.

Minhas amigas é que se chocavam por eu abandonar faculdade por causa daquela vida, daquela companhia. Não entendem. Nunca vão entender, porque, tal qual eu já fora um dia, elas eram muito puras e imaculadas. Há coisas e sensualidades que “estragam” uma mulher para sempre, e, entretanto, nenhum outro mal me fazia tão bem.

Quase enfartam quando recebem a notícia de que visitei a cadeia para pagar-lhe a fiança de uma briga. Diziam que eu estava afundando lentamente. Confesso que, por mim, tinha sonhos mais altos, mas os braços dele eram minhas algemas. Tortura que eu merecia por nascer mulher, ou talvez laços de natureza sexual, materna, fraternal, que me prendiam a ele como uma escrava rica, feliz por ser pertencida. Ademais, havia tantas moças arrastando seus bêbados para fora das celas! Eu era apenas mais uma, puxando o meu bêbado. Como se estivesse expiando os pecados de Eva.

Era uma mulher que amava um homem e assumia seus problemas, agora me digam qual o problema nisso. Vocês é que nunca iriam entender. Vocês corretas, que conhecem bons partidos, casam cedo, e passam a vida sendo exemplares, rasas, sofredoras e felizes para sempre.

Minha vida não era um inferno como diziam. Não a maior parte do tempo. Quando ele estava lúcido, era ótimo e cordial. Brutalidade, só com os amigos(?) de farra da rua.

Até que, um dia, a brutalidade atingiu a mim, também. As mãos dele. Antes carinhosas de professor, depois doces de namorado, eu senti, agora, a fúria louca daquelas mãos que sempre julgara incapazes de me ferir. Mas que se mostraram bem capazes. Houve gritos, lágrimas e sangue. Tive vergonha dele, na minha primeira surra. Incomprendi-me por amá-lo e tive vergonha por ele.

Mas pior do que a pele em brasa e os ossos quebrados foi olhar fundo nos olhos do meu homem e encontrar um velho desconhecido.

Então eu, que há tempos não ouvia conselho, resolvi seguir a primeira recomendação que ele me dera (único, dentre tantos ensinamentos, o único que prestou).
Não fiz mala. Garimpei o armário, à procura do meu violão (novo, porque há muito esquecido). Peguei também o saxofone, porque um amor vencido não é um amor inútil. Alguma coisa dele eu levava. Mas o rapaz branco de cabelo preto não iria comigo a lugar nenhum. Então juntei as duas únicas coisas que queria, deixei a porta aberta e fui embora. Era mesmo hora de mudar.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 30/12/2005
Código do texto: T92495
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
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Jéssica Callou