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O Ambíguo

          Fogos de artifícios clareavam e barulhavam no céu, enquanto que o tupy - o meu estimado cão -, amarrado em sua coleira grunhia e se urinava com medo dos estampidos.

          Enquanto isto, dentro de casa a mesa estava posta com fartas guloseimas e a criançada na maior algazarra não via a hora de se abastarem; de se empanturrarem nos comes e nos bebes e de se abraçarem e, depois, correrem para a casa dos amiguinhos e lá repetirem de tudo na maior festança tal como o fizera em outras datas.

          Eram os minutos finais de um Ano Velho e o prenúncio de um Novo cheio de boas-vindas, e nós estávamos festivamente contentes à espera do ansioso momento de confraternizarmos. Já preparávamos a despedida do  Ano Velho com cânticos, quando um táxi pára frente à minha casa e buzina barulhoso, provocando mais ira no tupy, que loucamente latia.

          Um relógio com seus tic-tacs, sobre a cristaleira, corria desesperado em direção à meia-noite e os minutos finais se aproximavam da hora H.

          - Quem será a essa hora? - perguntei a todos que estavam ao meu redor, e alguém me encabulando com mais dúvida respondeu-me gesticulando com movimentando dos ombros, como que a dizer: sei lá!

          Rapidamente saí em direção a rua para ver quem era, e todos de casa me seguiram até o portão.

          - Vejam, é a minha cunhada! Ela está cheia de crianças - comentei com um leve sorriso, quase sem graça, e pensei: isso é hora de se fazer visita?

          Tão logo todas foram se adentrando e se aconchegando como se em sua própria casa estivessem: coisas de parente, né?

          Logo depois das boas-vindas e das acomodações voltamo-nos para a festa e ao me deparar com aquelas crianças recém-chegadas veio-me a misteriosa curiosidade do saber:

          - Como é que se chama esse? E esse? E essa gracinha que está  mamando, que é? - por último, referi-me ao bebê que estava protegido ao colo da mãe.

          - É Leonardo - a mãe, assim respondeu-me.  E assim eu entendi.
         
          E para acrescentar mais nosso diálogo, eu falei:

          - Parabéns! Que nome bonito tem seu filho: Leonardo! Acho lindo este nome! Parece nome de artista, né?  - falei olhando-a e contentando-a pelo nome do filhote que sugava seu leite com muita gula.

          Nesse instante, a mulher - recém-chegada -, descobriu a cabecinha do bebê, acariciou-o com muita ternura e, com um dedo em riste e tom agressivo, ela me redargüiu:

          - Você é louco? O nome dele não é Leonardo! - e acrescentou murmurando: a gente ouve cada uma...

          - Ué! Mas não foi você mesma quem acabou de dizer que o guri se chama Leonardo? Ou eu estou surdo? Todos daqui ouviram você falar , L E O N A R D O

          - Não! - e acrescentou aos berros,: - Eu não disse que é Leonardo!

          Senti que o nosso diálogo estava muito áspero e era necessaria uma moderação, um abrandamento nas nossas falas e emoções.

          - Não? Não é Leonardo? E então, como é? Pedi explicações, ao que, embravecida me corrigiu, explicitamente soletrando:

          - E-l-e-o-n-a-r-d-o!          E-l-e-o-n-a-r-d-o!    Entendeu?

          - Mas você não está pronunciando o nome Leonardo? É, ou não é Leonardo?

          Este pequeno entrave chamou a atenção de todos. E o bate-boca prosseguiu:

          - Não é Leonardo. Eu já lhe disse que é  E-l-e-o-n-a-r-d-o! Entendeu?  E-l-e-o-n-a-r-d-o, Aaah! - disse tudo isso com muito desdém: aquele tipo de trejeito que identifica o desprezo. Fiquei muito preocupado, pois eles eram meus visitantes, vieram de longe, e eu não poderia, jamais, destratá-los, muito menos numa hora de confraternização universal:hora dos comes e bebes.

          - Ah!  Agora entendi como se chama o bebê: ELEONARDO.

          Levantei uma taça de champanhe e gritei a todos pulmões:

          - Viva Eleonardo! Feliz Ano Novo Eleonardo!

          E todos em coro responderam cantando:

          - Feliz Ano Novo/ Adeus Ano Velho/ Que tudo se realize.... .

          Depois dessa o estrondo das bombinhas cessaram. Já se distanciava da meia-noite.

          O Ano Velho já estava morto e sepultado na imensidão da eternidade.

          Hoje, passados alguns anos, o Eleonardo é simplesmente chamado de Leléo, e somente a sua mãe é quem teima em chamá-lo pelo seu nome próprio.

          Certa vez ele me confidenciou em lamúria:

          - Tio, por que não me batizaram de com o nome de Zé? Seria melhor!

          - Também acho, Léo! - Contentei-o
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 01/01/2006
Reeditado em 13/10/2012
Código do texto: T93046
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz