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CINZAS. I - Normanda - Lia Lúcia de Sá Leitão - 01/12/2004

A nuvem encobre o sol e forma-se a massa escura e o dia  desaba em noite, as árvores encolhem-se, as flores escondem-se por baixo da folhagem, o sorriso do menino perde  o fogo do desejo e se fecha em portas, cobertor, televisão.
Um frio percorre o corpo e toma a alma ainda envolta na efêmera esperança de um porto seguro um ponto de aconchego  sem o sorriso de despedida. Permanece em pé diante da tela e seus olhos turvam-se no desalinho da saudade.
Estático, diante da janela, os mil sonhos driblam a correnteza, como marinheiro ágil desvia uma pedra, arrebenta-se numa lata de refrigerante, voa sobre um buraco enorme no asfalto, se contorce frágil entre um pneu e o cimento do meio fio sinalizando estacionamento livre, em pleno naufrágio segura-se à mínima oportunidade de resgate, tudo inunda, tudo chove desmancha-se em segundo  o sonho de  papel.
O ânimo esmorece, o frio intenso, o silencioso coração mergulha finalmente naquela aterradora perda de leme.
Cinza!
As perguntas ainda mal elaboradas sobre as leis da Física misturam-se na mesma freqüência dos relâmpagos e trovões, a tempestade abala o mundo, a paisagem do caos funde-se à sensação de abandono e medo.
A claridade da energia arrasta o rufar dos tambores de uma guerra insólita, associa com a pouca idade como quem chora o brinquedo perdido; onde errou o mundo para Céu brigar com a Terra?
Pensamentos de criança sem ciência do pecado.
A ventania decola abruptamente um jornal como uma pipa esquecida das mãos que seguram o fio, vadio de peso, voa aos trambolhões pela rua esquecida de transeuntes distribuindo notícias da novela e previsões do horóscopo.
Tudo ali era novidade da semana anterior.
Cinza!
O mundo perde o chão.
A vida perde o sol.
O sorriso esmaece diante o espanto.
A luz  pede um arco – íris.
As mãos que buscam ávidas o corpo
deixam escorrer pelas luas a água do chafariz
O coração bate num ritmo descompassado.
Falência é o sentimento traduzido pela impotência de não ser Deus.
Perdida infância!
Perdido desejo!
Cinza!
A menina dos olhos brilhante sonhava em seu diário a realidade do dia que findava.
Traçou sem menor pretensão mais uma parabólica entre a realidade circundante e a ficção. Ninguém podia ler suas cartas escritas para ninguém.
Os seus dissabores ou suas alegrias sempre estavam seguras, guardava-as para si em uma caixinha de papelão que encontrou na sala dos brinquedos.
Os segredos, sim! Os segredos de vida,  sorria olhando para o papel,  pensava com a caneta entre os lábios, os segredo de morte todos falam,  ninguém guarda reserva por que defunto não fala, não reclama, não livra o outro da responsabilidade, os segredos de morte são egoístas por  se tornarem públicos na ausência.
O grande lance seriam os segredos de vida, esses sim sempre vivenciados bem debaixo das sombras e os olhos de todos, porém ninguém percebia com nitidez o limiar da felicidade ou tristeza, os segredos de vida não são problemas iminentes; para esconde-los basta sorrir e falar coisas boas, acreditar nas pessoas e só revelar aquilo que deve agradar o outro, assim como verdades que nunca assustam por que só as boas meninas permanecem sem os dias de tempestade, casam-se, tem filhos e são felizes assistindo novelas pela televisão.

Precisava criar, criar e criar, toda palavra servia como arte, toda música como sinfonia e cada poema como um amor, alguém disse que só os bobos escrevem cartas de amor.
Em suas cartas para ninguém não escreveria para o amor.
Era fácil escrever sobre amor, tudo azul, tudo zen, tudo cheirava a rosas e fores do campo, o amor não erra, o amor não sofre, o amor sempre é alegre e destemido, também não é nada tímido. Queria um amorzinho tímido, cheio de casinhas de duendes, bosques, o verdadeiro conto de fadas com príncipe e direito ao beijo de língua.
Decididamente seu diário não teria uma linha sobre amor, todos os que amam esse amor  caem desbragadamente nos azedumes sem esperança, ensimesmados. Chega de amor retrato do egoísmo e revestido de arrogância devido à sua perfeição.
Ela perdeu o rumo da escrita, rabiscou o texto sobre o amor, afinal, amor é amor, embora mesmo que todos os amantes sofram.
PIB PIB atenção! Voltando ao texto da carta para ninguém metáfora do hoje.
Afinal fora lhe dado um cérebro e lhe disseram pense, você faz parte do MUNDO, um mundo tão real que cabe até o amor que jamais deixam quebrar os cristais, um universo que conspira caro e obvio. Um mundo exato, quem erra paga pelo prejuízo, linear, manuseia-se numa equação de perdas e ganhos repletos de surpresas positivas ou negativas, mas só na maturidade apelidam as rabugices de experiências.
Ela escreve em seu diário as notas sarcásticas sobre esse mundo que os cristais na verdade podem partir, esfarelar-se sem direito a emendas, na verdade, o grande segredo gira entre o saber e o poder.
Curvar-se ao sabor da brisa como a mais simples das gramíneas, observar a lua que ilumina o chafariz e cantar desentoado como fazem os lobos em noite branca.
Jamais teve a intenção de ter em seu diário, aquele mundo real de um Jequitibá Rei, estaria imponente e solitária, naturalmente sentiria inveja das árvores pilhadas pelas  crianças  que roubam frutas nos quintais vizinhos.
Copiaria em seu diário as frases feitas, por mais que lhes dissessem: isso é pobreza vocabular, deu de ombros, bateu a caneta entre os dentes, olhou o caminho das formigas e sorriu para a alma.
Exclamou  bobos.
O seu amigo seria o náufrago imaginário, sem nome, sem identidade, afinal era mais um personagem da palavra errante, caso criasse corpo teria que ter dentes e escova-los a cada refeição, nasceriam cabelos que não podia despentear, teria unhas e remelas, melecas e raladuras superficiais, as raladuras profundas doem muito, se era homem como faria xixi diante dos olhos da menina? Soltaria puns e deixaria as folhas brancas do seu diário amareladas, para isso ela tinha o tempo como aliado, se o náufrago tomasse uma personalidade ganharia poder real e partiria do universo metafórico da escrita, saberia explicar os dilaceramentos da dor e teria alma.
Seu amigo não teria formas definidas, quando olhasse o arco-íris só teria olhos; quando cantasse uma melodia só teria boca, quando ouvisse o segredo de vida só teria ouvidos, quando pusesse a chorar seria lágrima.
O náufrago do pensamento escrito é como marulhar das ondas nas areias, sem diques, nu, desigual das verdades reveladas pelos segredos de morte.
Será sobrevivente misterioso e silencioso das letras que se compõe o texto, a solidão do poeta, o olhar que paira sobre as nuvens de algodão alinhando os sonhos da mulher que na era informatizada do terceiro milênio ainda escreve no diário os desejos de caramelo, ursinhos, aviões, pássaros canoros, pipas, picotes de papel brilhante jamais jornal sem rumo derramando notícias de ontem.

Contundente ser náufrago daquele que inverte a razão, subverte a ordem das leis.
Olhou mais uma vez para o teto pensou, o que é ser náufrago de um doido?
A razão invertida  da própria razão?
Cinza, apenas, cisalvação haja luz e calor.

nza assim como aquele que pensa e sabe que a massa é cinza e a cor do mundo é cinza mesmo que por cima das pesadas nuvens e da tempestade que levou o náufrago a buscar a alma de Ariel
Nomanda
Enviado por Nomanda em 02/01/2006
Reeditado em 24/07/2006
Código do texto: T93585

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Sobre a autora
Nomanda
Olinda - Pernambuco - Brasil
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