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riacho amarelo

Joaninha tinha os cabelos aneladinhos e a pela bronzeada do sol que não dava trégua no Vale.  Joaninha nunca viu o mar, morava num lugar onde não tinha praia, mas vivia cercada das cachoeiras de Minas.  Não tinha televisão e sua casa era de pau-a-pique, que seu pai mesmo tinha construído.  Falando nisso, ando com saudades do pai, ele foi embora, dizem que para os lados de Mata Verde.  Caçar o que, hein?  Não sei não.
Ainda restam algumas galinhas no nosso quintal, uma para cada dia de festa, e muita farinha de puba, que mamãe faz biju.  Isso cresce na barriga e eu quase nunca tenho fome.  Sempre aqui na roça tem festa, é festa para tudo que é santo, e sempre com aquelas luzes coloridas que parecem estrelas.  Estrelas bem aqui embaixo, só para nós.  Tantos santinhos a consagrar, e o que eu mais gosto é de São Francisco de Assis porque ele vive perto de todos os bichinhos que eu amo.
Joaninha nem sabe, mas é feliz vivendo perto do riacho de tantas lembranças; e ela, ainda muito criança mastiga o doce dessas lembranças no lugar dos caramelos dos quais nunca sentiu gosto.  Hoje é dia de Santo Antônio e ela acha que terá uma janta gorda, gorda como ela não é, mas tem os cabelos aneladinhos que estarão enormes quando seus quinze anos chegarem.  E minha irmã fará uma linda trança para mim.  Meu vestido será amarelo, da cor do riacho.  Haverá festa, será?  Mamãe anda tão abatida de capinar e tentar criar meus outros irmãos.  Dá muita preocupação, esses meninos.  Eu não dou mais.  Uma irmã minha já está bem grande, em idade de casar, Lita vai para a cidade em breve, eu sinto.  Mas eu gosto tanto dela, tem nos cabelos um cheiro de alfazema, mas ela só lava com sabão preto.  Como será que apanhou aquele cheiro?  Cecil é muito pequeno e franzino, parece que não dura muito, mas sei que ele é forte, mais forte que parece.  Será que chega a casar, será?
Hoje é um dia de sol bonito no Vale, não sei direito o nome da minha terra, nem muito bem onde fica.  Chamamos de Colina esse morrinho cheio de casinhas.  Todos os nossos vizinhos tem casa pequena, mas alguns nem tem galinhas, mas são tons bons e carinhosos e eu amo todos eles.  Alguns não são bonitos, mas são bonitos mesmo assim.  É que eu brinco de achar bonito as coisas feias, que assim a vida fica melhorada.
Mas moço, o que eu mais gosto aqui é do riacho, ele é amarelo e quando vou brincar por lá ficam uns passarinhos grandes, que chamam sabiá.  Os sabiás cantam sempre para mim e me dão sementes quando eu tenho fome.  Quando é mês de dezembro, eu não preciso das sementes, porque as mangas estouram no chão e elas são tão amarelas, que dá vontade de não parar mais de comer.
Ainda tenho outros irmãos, mas nunca mais vi, só Lita e Cecil que ficaram.  Só sei que quero chegar logo no riachinho e dar de brincar com os passarinhos, mas essa época do ano enche muito, e sempre que o rio enche, carrega muita coisa pelo caminho.  Foi assim que ele me carregou um dia quando minha mãe foi trabalhar, Lita foi à cidade e não tinha ninguém para cuidar de mim.  Chovia muito, mas mesmo assim eu quis sair e não contei para ninguém, senão eles não deixavam.  Então eu abri a cancela de madeira e fui correndo pelo mato.  Eu fiquei lá brincando sem roupa, porque de dia eu fico sem roupa, né. Mamãe diz que é para economizar e ficar novinha para a festa de Santo Antônio.  Eu gosto dessa festa, mas não posso mais brincar nela não, porque agora eu moro no Rio, eu vejo todo mundo que vem aqui nadar e colher flores miúdas para dar a namorada, mas ninguém me vê mais.  Eu consegui ficar invisível, acho que foi milagre dos passarinhos naquele dia da enxurrada.  Os passarinhos do riacho amarelo são mágicos, não sabe?
Jan Morais
Enviado por Jan Morais em 06/01/2006
Reeditado em 18/07/2006
Código do texto: T95274
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Sobre a autora
Jan Morais
Gibraltar
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