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O Espelho mágico


Num lugar qualquer onde o calor sufocava os olhos num amarelo seco, na rua do comércio havia uma pequena loja de quinquilharias. Entre véus e seda multicoloridas, algum ouro espalhado por sobre a mobília usada, havia um espelho de moldura de algum metal indefinido já criando pontos de limo do tempo. Sua face virada para o sol não permitia a quem passasse refletir sua imagem sem que fechasse os olhos à cegueira da luz. Estava protegido, rodeado de estacas e cordas que o distanciava das pessoas. O proprietário da loja assim o fez por dizer ser o tal espelho mágico e quase demoníaco e a morte seria certa a quem conseguisse ver sua imagem refletida. Durante todo o dia, o espelho girava sobre uma engenhoca movida a manivela, fazendo com que sempre e sempre refletisse tão somente o sol e quando este se punha, o espelho era coberto por uma grossa manta e guardado nos fundos da loja, onde ninguém o poderia tocar. As pessoas do lugar, já acostumadas com as esquisitices do comerciante, não lhe davam ouvidos e o espelho, em pouco tempo, perdeu o status de novidade, ficando esquecido entre os transeuntes. Os anos passaram sem que o espelho fosse vendido. Algo que não se sabia explicar impedia as pessoas de comprá-lo. Houve uma velha rica que imaginou que o espelho, com sua magia poderia torná-la nova e bonita como antes e pretendeu comprá-lo, porém quando estava para finalizar a compra,  nunca havia moedas suficientes para o pagamento. E, embora ela retornasse  várias e várias vezes levando consigo cada vez mais moedas, sempre ao contá-las, eram insuficientes, como se houvessem-na roubado pelo caminho, mas quando chegava em casa e abria novamente a pequena bolsa, estavam todas as moedas lá, sem faltar centavo que fosse. Algum tempo depois, um rico senhor de outros cantos também quis levar o espelho. Pensou que com ele poderia refletir todos os oásis do deserto, multiplicando-os para vender, podendo assim, ser o homem mais rico do mundo. Porém após o pagamento, ao tentar carregá-lo parecia que o mesmo se tornava tão pesado que era impossível  dez homens o levantar apenas alguns milímetros do chão. E por esses e outros motivos, o espelho continuava a aguardar tranqüilamente o tempo passar. Fora tido como amaldiçoado pelas pessoas que pararam de comprar naquela loja fazendo o comerciante empobrecer mais e mais a cada dia. Sem muito sentido, a mulher do comerciante já aborrecida com a situação já não sabia o que fazer e, num ímpeto, resolveu colocar o espelho para fora de sua vida. Mandou o marido levar o espelho para longe porque já estava cansada de sobreviver de migalhas.  O comerciante tentou explicar o perigo à mulher, que não lhe deu outra opção. Era o espelho ou ela. Sem solução, o comerciante, cobriu o espelho com outras tantas mantas e tentava levá-lo para fora da cidade, mas quando chegou ao centro da rua do comércio, o espelho tornou-se tão pesado que ele não pode mais carregá-lo e o deixou no meio da rua por não saber o que fazer. No dia seguinte, quando o sol raiava, as pessoas começaram a sair de casa e alguém viu o objeto largado no meio da rua e sem saber do que se tratava retirou as mantas e deparou-se com o espelho. Sua primeira reação foi tapar os olhos com a mão, mas tendo a curiosidade lhe tomado toda a alma. A mão foi escorregando e os olhos abrindo e apenas viu sua imagem refletida como em qualquer outro espelho. Soltou altas gargalhadas, o que fez com que mais e mais pessoas se aproximassem e se olhassem no espelho e vissem tão somente o reflexo deles mesmos. O comerciante tentou por tantas vezes fazer com que parassem de se olhar, alegando que havia magia no espelho, mas ninguém lhe deu ouvidos. Nem mesmo sua mulher que correu para olhar-se reflexo. O espelho virara novamente a atenção do povoado. As pessoas passavam e olhavam-se, porém não houve quem conseguisse tirá-lo do lugar, nem mesmo o comerciante que ao perceber seu erro, não conseguiu carregá-lo de volta para a loja. Tentou quebrá-lo à pedradas mas as pedras esfarelavam e nenhum risco conseguiam fazer na face lisa e brilhante do espelho. As pessoas se amontoavam cada vez mais para se olhar. O dia passou agitado até que a lua despontou no céu e todos se recolheram. No dia seguinte ao nascer do sol, quando o dia começava mais uma jornada, as pessoas voltaram à rua e tornaram a se olhar no espelho. Algumas mulheres pararam por mais tempo frente a ele, observando alguma pequena mudança em volta dos olhos. Alguns homens viram a barba um pouco mais branca que no dia anterior. As crianças sentiam os pés apertados nos sapatos. Os dias foram passando e as imagens no espelho modificavam-se. As pessoas estavam envelhecendo e  de tal forma e com tanta rapidez que crianças já eram adultos e adultos já eram velhos e os velhos morriam por não conseguir mais carregar a carcaça envelhecida. O comerciante, agora viúvo, arrumou suas coisas, e partiu da cidade sem olhar para trás.  O terror tomou conta da cidade que envelhecia os corpos a cada dia até que numa certa noite o silêncio tomou conta do lugar. O mais jovem e único sobrevivente suspirava o seu último ar. Na rua o espelho refletia a lua e algumas poucas estrelas recém nascidas no céu.
Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 09/01/2006
Código do texto: T96423

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury