Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Pescarias & Estórias– pontilhão de ferro –“Altèr ego aliunde’ – ‘Gavião carteiro’.”

Chovia muito naquele dia, manhã de 1846. Íamos com um agregado da família de Francisco Martins de Andrade, o juiz cidadão, o escrivão mais o padre Jeremias, num trole seco por entre a ainda verdejante Mata Atlântica, tão fechada; em trechos as arvores tombavam por sobre o caminho estreito, cuspido até, trazendo a memória da noite! Ainda bem que era manhã, pensava eu, entre os constantes solavancos do carro, segurava então, firme no contorno semi-roliço e rústico apoio do braço, do sofrido e sofrível, veículo.  Cumprir a lei, à vontade dum moribundo, não era fácil neste território semivirgem -margeando o raiar da criação! Nosso intuito era lacrar a vontade de alguém em uma “Carta Testamento”, para que, após sua morte, fossem cumpridas suas exigências. Podia sentir olhos de silvícolas, (1)Caingangues, ainda rondavam muitos por estas bandas; assim como tínhamos os foragidos – negros fujões e brancos, caboclos criminosos. Íamos justamente pelas bandas do norte, onde eles se refugiavam, no chamado “Quilombo do Pântano. Mas, estávamos a cumprir missão, não tinha outro meio ... !  Horas e horas, nas terras do solicitante, fazenda dos Cocais -Soledade-, o nome bem o diz. Hoje, tudo se faz com tecnologia, ninguém mais sai do seu posto para atender quem quer que seja! Bem, não é beeem assim ... !
Ia eu agorinha mesmo puxar meu anzol d`aguada turva ... Desta vez, resolvi jogar iscas, da ponte de ferro, sustento da composição da Paulista por sobre o meu Rio Bonito, pouco antes do Córrego da Prata, engrossar suas águas ...
Entre um tranco e outro, e reclamos do pároco, pensava eu no ‘caput’ do documento, a acontecer , ‘causa mortis dies certus an incertus quando’; será que dou começo igual ao do inventario, “Anno do Nascimento de Nopso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e quarenta e seis, aos dezoito de Abril do dito anno, nesta Freguesia do Bethlem do Descalvado em deligencia, e sendo ahi em casa do Inventariante...” Não, não, é outro o trajeto a narrar:

“Testamento de
Antonia Maria da Conceição


Testamento


Em nome da Santissima Trindade Padre Filho e Espirito Santo em quem eu Antonia Maria Da Conceição firmemente creio e em cuja fé protesto viver e morrer como boa e fiel catholica. Achando-me no meo perfeito juizo senhora de mim e de toda a minhas potencias e faculdades mentais com perfeito conhecimento do que fapso vou proceder a este meo testamento e ultima vontade a fim de dispor de meos bens na forma da constituição e mais leis em vigor para depois de minha morte. Declaro que sou natural da Freguezia de Nopsa Senhora das Dores da boa esperança Provincia de Minas . . .”
È, este é o modelo certo!

Puxa vida que belo bagre! Vou atrás do teu avô, menino..., de soslaio, percebo alguém, também a disputar meus peixes; ora bolas, se fosse um grande rio, mas logo aqui, será que vem sempre, este estranho, pensei ...? Venho sim respondeu uma voz atolada dentro de um surrado chapéu de palha, trançado a mão. Puxa vida, será que pensei tão alto assim! Preciso me policiar, devo estar falando e, não pensando... , coisas desta solidão,... acho...!
-“Tô aqui fais tempo, sempre puxo bagre nesse poço, mas, vou partilhar com ‘tu’ ...”
Fico quieto então para não arranjar discu..., interrompe minha frase –ou pensar-,
-“Tem peixe p`ra mais de dois, ‘tu’...”
Credo, que estranho! Ou lê meus pensamentos ou ... Sei que estas bandas têm muitos contos, cantos e encantos, mas, será que to no meio de um deles?
- “É rapais, tem muita coisa nesse mundão de Deus que ucê num magina!” - nem preciso dize quem é que falo!!! Êpa, agora já é demais, virei-me e ... êh!? Cadê o ‘tu’?!
Só vi umas moitas debruçando . . .  Peixe, do rio, sumiu! Caramba!!! P´ra onde foram todos!
Um silencio caiu tão suavemente, que até demorei a perceber que estava tudo mudo!!! Nem uma brisinha sequer!
-Silencio ‘tumular’... credo em cruz, Virgem Maria!
–Minha finada vó -que em paz descanse- foi quem me ensinou. Ela, benzia até tempo feio e, ‘miorava’, mandava p´ras bandas do nada, onde não “prijudicava” ninguém, nem bicho sem batismo!
- Me ensinou também umas rezas...!
Um frio percorreu minha espinha, se alojando nos ombros e pescoço ... sinal de alerta! Aí tem coisa!
Não ‘coisa’, mas algo estranho! Uma puxada violenta, e lá se foi tudo para dentro do rio, vara e tudo mais da traia que me rodeava! Que ‘béstia’, destes nunca vi nem senti –se a traia agüenta, ia ser aquela briga de entortar o rio- deve ser o tetravô do bagre que peguei... ué, cadê meu ‘sapiquá’? Não é que foi embora também! Arrisquei; como achei ser raso o remanso, comecei a descer o barranco para tentar recuperar alguma coisa -tinha até meu canivetinho de estimação, quase sem lamina de tanto amolar, também, era do meu avô, o sueco, veio com ele ..., eeera remanso; começou um rebojo repentino, e ‘chuento’ –chuá barulhento- tirando-me a chance, à vontade e, a coragem de continuar na empreitada... deixa p`rá lá... Já e´a segunda vez que fico sem as traias, a primeira foi na curva do ‘U’,da “Maria Lao”,  agora, até sem a traíra...!
Evolvido pelo pensar..., novo tropel. Tropel?!
Não, eram asas batendo -como classifico, asel, asarel... é, talvez...-, eia! Me lembro da 2Patativa, o de Assaré -Passaro Repentista. Olho espantado pois o que vejo...! Não acredito...!!!
Passo a passo, pata a pata, pé ante pé, cambaleante, um já bem curtido 3‘Gavião’... Espera, não é macho! É uma velha fêmea, e, com meu embornal de brim cru, preso no pescoço... Ah, ah, aquele dia na curva do ‘U” acho que dependurei o dito, no pescoço da velha ave, pensando ser um galho seco!!! Também, o bicho, já era de casa!!! Não queria mais caçar e roubava nossas iscas, lanches, ... Aí comecei a entender o porque dos ribeirinhos contarem sobre o ‘Gavião Carteiro’, que não era macho, mas sim, fêmea! Realmente, o dito era verdade, ela veio me entregar, devolver o que era meu de direito –cuique suum tribuere.
Muito tempo? Sei não! Só sei que deu até para criarem a lenda!!!

Verdade verdadeira!!!

Quanto a “Carta Testamentária”, publico-a em “Cartas”

1Os Caingangues ou, Kaingang, índios Coroados,  da família dos Jês/Gês,  viviam em covas, cavernas, de até 20 metros de diâmetro por uns outros 6 a 8 de profundidade –daí uma lenda, de que teriam vindo do centro da terra. Caracterizavam-se pelo uso de instrumentos de pedra lascada e de ossos de animais. A sobrevivência era baseada na caça, pesca e nas plantas alimentícias.

2Antônio Gonçalves da Silva, conhecido como *Patativa do Assaré, nasceu no  dia 9 de março  de 1909. na Serra de Santana, próximo a Assaré -Vale do Cariri,  que compreende o Sul do  Ceará e parte Oeste da Paraíba – nasceu e cresceu Analfabeto ‘sem saber  as letra onde mora’, versejou desde a infância e, nos primeiros versos perderia a visão  direita,  segundo ele,  pelo "mal  d'olhos". Para mim,um humilde admirador, digo que poeta Patativa do Assaré, versejava com a pureza da alma.
*Patativa- pássaro cujas penas tem a cor do chumbo, asas e cauda pretas e canto manso, morador das caatingas, campos e matas do nordeste do Brasil

3 Gavião -Accipiter nisus: Alguns dados desta bela ave, do reino animal, da família dos Vertebrados, subclasse Neonirthes – aves verdadeiras, do Cretáceo recente. Ordem Falconiformes, parente do urubu, do abutre, do Falcão e da Águia.
É uma das aves de rapina das mais pequenas, tem a cauda comprida e um vôo firme.  O macho é diferente da fêmea: na parte inferior o macho tem listas ruivas e a fêmea, cinzentas; na parte superior o macho é cinzento acastanhado e a fêmea é castanha, apresentando ainda uma listra no supercílios, marcante, o macho não tem. A fêmea, é bem maior que o macho. Ambos têm na cauda listas escuras. Medem uns 40cm de altura e, uns 80 de invergadura, alimenta-se sobretudo de pequenos pássaros, que rapinam em voo. Nos meses Abril e Junho num ninho montado pelo casal, no alto de uma árvore, com ramos desajeitados, coloca seus ovos, uns 4 ou 5, brancos com manchas castanhas escuras, cuidados zelosamente pela fêmea que faz a incubação, mas o macho se encarrega do sustento, leva a comida necessária durante 42 dias, tempo do ‘chôco’.  Estas aves são monógamicas e ficam unidos por toda a vida.
Temos muitas por aqui, nos nossos campos e mesmo próximo à minha casa, tem um casal, donde as vejo caçando e, ninhando.


Ah! As expressões latinas:-

Altèr Ego:- outro eu
Aliunde:- de outro lugar
Caput:- cabeça, abertura do documento
Causa mortis dies certus an incertus quando:- por causa da morte, dia certo e incerto quando.
Cuique suum tribuere:- dar o seu a seu dono
marinho
Enviado por marinho em 09/01/2006
Código do texto: T96531
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
marinho
Descalvado - São Paulo - Brasil, 67 anos
146 textos (78689 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 23:03)
marinho