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Diário de uma suicida

Acordou tarde, como sempre, tarde demais para aproveitar o sol que insistia em nascer e ela não via. Abriu os olhos mais por necessidade do que vontade. Vontade já não se fazia parecer havia anos, havia uma vida inteira. Era apenas a necessidade de olhar as mesmas paredes, as mesmas roupas jogadas no chão entulhando os dias passados numa quase fogueira desiludida de suor e mancha. Era tarde, como todos os dias, embora não esperasse mudança que fosse no cheiro do ar ou no gosto do café da esquina. Sentou na cama sem esperar o corpo acordar e procurou o par de chinelos comportadamente revirados da mesma forma que os deixara ao deitar.  Calçou a preguiça e levantou tentando cantar alguma música meio triste de ter de fazer o mesmo caminho. Arrastou as fantasias sonhadas até o banheiro e largou-se perdida no zumbido do rádio por quase meia hora sem saber o que fazer com o tempo que passava sem um motivo qualquer de sorriso. Olhou espelho e não reconheceu rugas e cravos que brotavam no queixo, na testa. Afinal havia algo que se lhe prendesse, mesmo sendo os odiosos pontos negros na pele branca sem sol. Lavou os dentes sem vontade por não ter o que morder da vida e penteou os cabelos que abandonavam sua cabeça sem pedir licença e sem adeus. Já era tarde demais para pisar ruas de salários e quase pensou em não ir trabalhar mais uma vez. Passou olhos pelos cantos empoeirados e desejou ter forças de aspirar toda a sujeira junto com toda a tristeza que coabitava seu sofá já gasto de tantas tardes vendo o sol ir para um novo dia do outro lado do mundo sem nada acontecer. Voltou ao quarto e por segundos subiu-lhe aos olhos a vontade de se enfiar baixo os lençóis para um novo sonho quem sabe feliz. Trocou de roupa sem olhar a pele passada como se já não lhe fosse parte e saiu sem arrumar a cama. Já tarde demais para algum sorriso de bom dia, caminhou  ruas de olhos baixos procurando algum novo caminho sem encontrar senão as mesas pedras de todo dia. Empurrou-se para o bar e engoliu o café que lhe corroia o estômago enquanto acendia o primeiro cigarro. Havia contas a pagar. Tarde demais para não pagar juros e não tinha dinheiro para o cigarro. Caça as moedas e deposita uma a uma no balcão e fia o cigarro até a próxima semana. Caminhou pelas ruas esperando que olhos olhem e vejam o que ela já não sabe ser e decepciona todas as caras viradas para qualquer outro lugar. Segue para o trabalho que não é seu. Sem sentido como tudo parecia de fazer o contrário do que gostaria só esperando o dia do pagamento para saldar quem sabe alguma prestação vencida. Já era tarde e por isso sorrir se tornou tão fácil sem ser verdadeiro nas piadas que inventa para chamar atenção de quem nem a conhece. Correu mal feito o trabalho e voltou fugitiva para casa. Largou-se no sofá e olhou para a janela esperando o dia acabar numa conversa interminável com os últimos raios de sol de tentar entender o que faz sem querer fazer e nada muda no pó acumulado na janela e sobre a televisão. É tarde. O céu escurece sem que a luz se acenda e agora em meio algumas lágrimas ela é penumbra dentro e fora numa mesma ausência de qualquer cor. A cabeça sabe apenas pensar absurdos de encurtar o caminho de tudo o que lhe parece sem sentido e não há voz que lhe acalme os soluços escorrendo pelo braço do sofá encharcando o chão cinza de poeira e solidão. Já é tarde e ela não quer dormir como queria antes durante o dia que passou. Agora esperava algum milagre tocar sua campainha e espera por quase tantas horas de apenas dois cigarros  e poucos minutos para amanhecer. E já tão tarde e nada acontece perto dos olhos fixos num ponto qualquer de interrogação enquanto o sol tenta raiar mais uma vez como todas às vezes. Ela levanta o cansaço de esperar sem banho e na meia claridade arranca a roupa e amontoa no mesmo velho monte de tantas outras roupas. Descalça mais um dia sem sentido. Deita o corpo que já não consegue carregar e se larga na cama desfeita tentando, quem sabe, no sonho encontrar outra vida nem tão tardia enquanto o relógio marca horas sem razão e ela fecha os olhos enquanto o sol nasce primeiros raios de mais um dia.

Paula Cury
Enviado por Paula Cury em 13/01/2006
Código do texto: T98305

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Sobre a autora
Paula Cury
São Paulo - São Paulo - Brasil, 47 anos
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Paula Cury