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SONHOS DOURADOS

    Chovia muito nesta sexta-feira, dia mundialmente eleito para a caça de novas emoções que, adicionadas aos perigos de uma metrópole, embalavam as noites da cidade no Rio de Janeiro.
    Eram vinte e três horas em ponto e nada de seu colega chegar. Estava na esquina de sua rua no bairro da Tijuca a duas quadras da praça Saens Peña esperando. A noite se tornava longa.
    Ele sempre tinha lembranças de sua mãe, Dona Georgina, comentando como o conservador bairro era calmo (era onde sua família tinha se estabelecido faz décadas). Pena que os tempos muidaram e nos dias de hoje a Tijuca já não é tão pacata assim, principalmente nesta época de grandes transformações em todo o mundo, onde o Rio comtemporâneo reflete, como uma imagem num espelho, o que outros países têm de mais belo e hediondo.
   --Somos privilegiados meu filho. Falava ela com toda sua pompa de mulher realizada na vida.
    Pobre coitada, não imaginava que seu filho único de vinte anos estava fazendo naquele momento. Disse a sua mãe e a seu pai que estaria na casa de um amigo fazendo pesquisa para o vestibular, pois tudo que o pai queria era que fizesse concurso para a Academia da Força Aérea, onde ele, alta patente, estudou. Sua mãe, professora de matemática, só fazia os cálculos da idade que o veria encaminhado na vida. Em casa, passavam a maior parte do tempo planejando milimetricamente todo o seu futuro, porém, o rapaz dava um jeito de agir a seu modo, acreditando que quaquer plano forçado de vida seria tão frágil quanto um diário escrito por um velho senil, "pois na verdade percorremos nossos destinos com todos os pontos, linhas e retas da vida já traçados antes de nós nascermos". Uma tia sua esotérica fez o rapaz acreditar no "Maktub", e crer também que estava numa fase de percorrer becos obscuros de sua vida.
    Neste exato e chuvoso momento, o jovem espera uma pessoa que chama de colega, mas nem sabe se este "cidadão" algum dia teve consideração por ele, apenas o vê poucas vezes na semana, sempre com sorriso amarelado e olhos secretos delatando certa malícia, com seu jeito arisco olhando para todos os lados enquando se aproxima para entregar o que o rapaz, chama de "sonho dourado". Estava na hora, e ele finalmente chega, se aproxima com cautela, e estende as mãos.
   --Aqui está Guto. Você já sabe o valor, não é mesmo?
   --Estão todos os meus sonhos de hoje aí?
   --Tudo o que você pediu.
   
    Deu-lhe o dinheiro e o sinistro se foi, mais uma vez devolvido às sombras. Consumiu em poucos minutos todos os seus "sonhos", contudo seu efeito era miúdo e eles se desintegraram mais rápido que pensara. Voltou para seu apartamento e exatamente às vinte e três e trinta abriu a janela do quarto para arejá-lo e viu, há pouca distância do prédio, um monumento com silhueta avantajada sendo iluminada pelos "holofotes" da rua como se fosse um desfile do Salgueiro. Um desfile da campeã. O rapaz estava no segundo andar e a enxergava bem, era uma mulata com seus vinte e tantos anos com cabelos esvoaçantes e de corpo ofuscante, com um belo quadril e espaçoso rebolado. Escultura prima. Ela percebeu que estava sendo observada sem folga, olhou de canto e o notou, fixando no rapaz seu expressivo olhar. Neste raro momento, quando a chuva parecia ser inconveniente, a luz do sol inexistente e estar vazio seu coração, o vento lhe trouxe um sopro de vida e uma mensagem: "Não deixe sua felicidade passar como passa essa moça, tente novamente".
    Ele ouviu a pequena mensagem numa espécie de transe e em micro-segundos despertou, só que já era tarde, pois ela já tinha passado. O rapaz ficou triste e feliz ao mesmo tempo. Triste por achar difícil conhecê-la ali do segundo andar e feliz por saber o horário que ela passava, "tente novamente" a voz lhe dissera. E foi assim que aconteceu: ele tentou.
    Esperou ansiosamente passar o final de semana para que nas noites de segunda a sexta, neste mesmo horário, espreitasse na janela e esperasse a moça passar, marcando uma espécie de plantão, entretanto ela não passava. O rapaz impaciente quase desistiu, mas ele sabia que lhe faltava alguma coisa em sua vida, algo frutífero em se apoiar. Começou, então, nas noites de espera, refletir sobre sua vida, sobre o que estava fazendo de certo e de errado e descobriu que na verdade não sabia o que era certo e nem o que era errado, seus instintos o comandavam, vivia como o vento que lhe mandou a mensagem: em constante mudança. Não tinha um nome, pois só se referiam a ele através de seu apelido: GUTO, também pouco sabia de seu sobrenome, pois não conseguia descobrir sua própria identidade. Entendeu que, em toda sua vida, não tinha conquistado nada de valor.
    Foi em uma das noites de espera que decidiu realmente tentar, com esta palavra no seu sentido mais amplo. Acordou bem cedinho, botou sua melhor roupa e foi atrás de um emprego, neste dia não conseguiu, mas se sentiu mais aliviado, descobriu que estava carregando um peso e não sabia. Tentou no dia seguinte, e no outro, e no outro, até que conseguiu um humilde trabalho num escritório no centro da cidade. Parecia pouco, mas era um recomeço, estava tendo aquela mesma paixão pela vida que tinha quando era criança, ou seja, quando sonhava; apesar de ter sido uma dócil criança e agora ser um rapaz rebelde, ele aprendeu uma coisa com a vida: nem tudo que se sonha se torna realidade, porém, tudo que é real poderia se tornar um sonho.
   Guto, semana a semana, tentava e, contrastando com um passado não muito distante, encontrava o que estava procurando. Trocou seu sonho dourado por outros que nunca tinha pensado que lhe trariam a felicidade. Começou a sonhar num futuro melhor, numa cidade melhor para os que viriam. Foi voluntário de uma organização filantrópica voltou a estudar e tudo isso por causa daquela bela e única visão daquela mulata, quem sabe um anjo, que uma noite lhe soprou sua real vocação: ser um brasileiro apaixonado pela vida.
Milton Roza Junior
Enviado por Milton Roza Junior em 13/01/2006
Reeditado em 03/06/2011
Código do texto: T98308

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Sobre o autor
Milton Roza Junior
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
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