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Sonho ou Delírio

              Acordei cedinho para correr no parque.

              Era uma linda manhã fria, orvalhada e de céu azulado, o que me deu um agradável prazer em pular da cama e sair chutando pedras pelo caminho, e assobiando contente da vida entre os arvoredos e alamedas do parque.

              Ninguém era mais criança do que eu, que só queria estar só e ser feliz.

              Ah que bela manhã! Quisera que tantas fossem iguais... Pelo menos, mais uma.

              Vi o sol despontando entre o rosado das cerejeiras, e nelas as mais lindas flores revoadas de abelhas, de encantadores beija-flores e de melodiosos bem-te-vis. Parecia uma imagem nipônica.

              A brisa beijava a minha face como uma dádiva da natureza e o meu compromisso era somente com a felicidade, por isso, por um breve momento esqueci que eu era um adulto. O mundo era eu. O mundo era meu.

              Sozinho corri até cansar e depois me sentei para  recarregar as energias. Só então lembrei como a vida é turbulenta e cheia de brutalidade. Eu estava ali vulnerável, e suscetível à maldade.

              O sol já ardia na minha pele quando meu juízo saiu da infantilidade, e retornando-me ao siso da sã consciência e, obviamente, ao despudorado pensamento que só os adultos têm: o dinheiro e o seu próprio  bem-querer, é que pus-me a refletir: só tenho dívidas, que maldade! Nada me sobra. Como tantos são ruins. Eles levam tudo de mim. Vivo entre rapinas.

              E, cheio de melancolia, assobiei com melodia própria um velho poema que diz:

              "Oh, que saudade que eu tenho
               da aurora da minha vida.
               Da minha infância querida
               que os anos não trazem mais."

              Foi ai que lembrei de minha genitora cantarolando esta mesma melodia, e monologuei:

              - Vou embora, preciso voltar e cuidar da minha prole.

              Subi a ladeira regressando em marcha lenta e lamuriei:

              - Meu coração não é mais o mesmo: ofegou.
Lá de cima olhei para trás e vi que, aquela criança que estava em mim, ficara sozinha lá no parque… Sozinha!
 
              Meio sonâmbulo eu deslizei a minha mão áspera sobre o meu rosto barbado e um tanto  confuso sussurrei:
 
              - Será que foi um sonho?
                       *
              Nem eu mesmo sei.
José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 15/01/2006
Reeditado em 15/01/2006
Código do texto: T99107
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz