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Herói

        Céu nublado e gotas finas. Cuidadosamente descanso minhas malas no carro. Agarro o volante com força, temendo desistir. Posiciono os espelhos, que mais parecem molduras para meus olhos assustados. Imagino o carro ancorado ao chão quando engato a primeira.  Força. Aceno e acelero.

        Não estava sozinho no carro. Abaixei os vidros para que meus pensamentos respirassem ou, covardemente, escapassem. As lágrimas caíam do céu e, em segundos, faleciam no carro. Quem choraria por elas se não as nuvens? Talvez eu.  E quem choraria por mim? Nada adiantaria suplicar por respostas se nem mesmo entendia as questões da vida. A decisão de abandonar o carinho e as boas intenções foi minha. Decisão pessoal e intransferível. Naquela manhã gravei o olhar do meu pai.

        O limpador varria as gotas com violência. A visão distorcida me acalmava, mas nem a isso eu tinha direito. Privado da distorção do mundo, só me restava fechar os olhos. Encarar a realidade? Nem pensar. Fechei os vidros.

        Por que a voz desaparece justo quando precisamos gritar? Será uma maneira de obrigar o cérebro a transformar o berro em idéias? Como comandar sentimentos se o próprio raciocínio amedrontado abraça os joelhos e chora no canto do quarto? Perguntar é fácil e cômodo.

        Que grande homem era meu pai, percebido à distância pelos iguais de coração quente e idolatrado pela sua cria. Deveria saber que o momento da fuga, ou melhor, de sair de casa para conquistar o mundo chegaria. Conhecidos meus sonhavam com o momento em que despiriam a mente e controlariam a própria vida. Eu não conseguia me sentir assim.

        Quando pensei que havia percorrido quilômetros sem nada concluir, percebo um rosto no vidro embaçado do carro. Entendi que a distância alcançada pelos pensamentos não acompanhava meu corpo, que permanecia imóvel desde o último olhar. Aquele rosto pacientemente molhado pela chuva não mentia. Seu sorriso me convidava a ficar mais um dia, ou dois, quem sabe uma vida.

        Sobrava força e disposição para retirar as malas do carro. Ao trancar o porta-malas deixei mais do que espaço. Deixei a dúvida da próxima vez.

        Ao abraçá-lo recebi as boas-vindas sem nunca ter ido.

        Naquele instante, enquanto milhões de pessoas sonhavam em ser alguém...Eu simplesmente sonhava em ser meu pai.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 17/01/2006
Reeditado em 29/11/2006
Código do texto: T100174

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério