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Insônia

         Irresponsável caminho sinuoso. Arremessa nobres de coração às mazelas dos amantes putrefatos. Perturbo meu sono com seu canto estridente, mesmo que seja para relembrar a cor e a dimensão do seu sorriso. Lembrei. Largo como quem me larga. Os olhos encharcados recusam-se a abrir. Pra quê? Olhar a escuridão do quarto sem janelas? Prefiro o contato intenso com as pupilas. Por sinal elas nunca me abandonaram.

         Os vacilos que cometi, verdadeiras bigornas mentais, disputam espaço com o álcool que ingeri. Tarefa árdua definir quem lateja mais ou quem ganha a infame batalha do “foi a última vez”. Não acredito em promessas futuras, e sim, em destinos comportamentais que, sem a mínima coincidência, nos levam ao mesmo sono triste e pesado. Imagino o lustre parafusado no teto e reflito se sustentaria meu corpo roxo. Hum, melhor não arriscar, não teria condições para nova aquisição caso o plano não funcionasse.

         Ao tentar virar meu corpo esbarro em minha infelicidade e prendo a respiração. Detestaria despertá-la e explicar tamanha falta de jeito. Afundo a boca aberta no travesseiro e expiro lentamente, quase queimando o tecido. Lembro dos bons tempos, aniquilados com o passar dos minutos e com o desabamento das máscaras. Politicamente incorretas, as promessas escondem-se da fala e falecem em suas próprias fraquezas.

         Penso em catapultar meu corpo o mais alto possível, apenas sentindo a força do vento secar minhas gengivas e pensando no momento em que cairia desajeitado no chão sujo quebrando-me em pedaços irreconhecíveis. Aperto os punhos, sentindo as unhas contra a palma da mão, e surro a alegria prometida, mesmo que de raspão, pelo puro prazer de bater.

         Xingo o sono rebelde e, com extrema cautela, me levanto. Os olhos arregalados denunciam as horas de viagem reflexiva, meditação amorosa, ou se preferir, caos mental. Ao contrário do meu estado, sou seduzido pela sua imagem plenamente suave, misturando a cadência dos seios ao respirar e o sensual resmungo ao mudar a posição do sono. Inúmeras vezes aqueles lábios ficaram colados aos meus, enquanto as mãos ágeis percorriam a extensão de sua espinha.

         Carregado de lembranças caminho até a cozinha, tropeçando em nossas peças de roupas e nos restos de bebida.  Aumento o gás do fogão e volto para a cama, com os olhos menos estourados. Abraço o corpo que não se move como antes e fecho os olhos.

         Enquanto o sono não vem.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 17/01/2006
Reeditado em 09/06/2007
Código do texto: T100175

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério