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Alma Indecisa

      Mente concentrada, olhar medroso e mãos lentas. Possíveis letras impactantes. Profissionalmente dobrado, o envelope branco aguardava meu reflexo de coragem. Por alguns segundos concentrei-me nas curvas do logotipo do laboratório. Haveria um túnel no fim das curvas? Inspirei profundamente dilatando meus pulmões e fingindo força. Envelope escancarado, corpo balançado, mensagem assimilada. Resultado: POSITIVO.

      - Bom dia mamãe! Precisaremos da sua ajuda hoje.

      Impossível prever o sinuoso caminho da vida. Amor excessivo, cumplicidade exagerada, ingênuo conhecimento do futuro. Cada sintoma camuflava as reviravoltas do destino. As mãos que dançaram em meu corpo já não estavam estendidas quando desfaleci. Acordei sozinha imaginando, de forma pouco fantasiosa, como seria nosso futuro. Seria justo continuar?

      - Precisamos de mais força mamãe, mais força!

      Seria necessária muita força. Não só para construir o futuro ou administrar a vida, mas para abrir os olhos, a mente, a alma. Emocionalmente debilitada, meu corpo respondia a pequenos estímulos. Alguém, descartando os porquês da vida, insistia em lutar por mim. Valia a pena?

      - Não desista mamãe! Empurre, empurre!

      Não me parecia tão simples. Tantas vezes aguardei um “empurrão” para acreditar nos acontecimentos que desabavam sobre meus ombros. Sozinha. Descartável. Estupidamente descrente. Quem eram aqueles que tanto pediam e nada explicavam? Não precisava de mais dúvidas. Precisava decidir.

      - Falta só um pouquinho mamãe! Use toda a sua força!

      Não havia tempo! Após anos de desperdício sentia falta dos valiosos segundos.  Precisava decidir, pensar, avaliar, concentrar, medir, julgar, gritar....AAAAAHHH!

      Estranhamente, o silêncio parecia dominar minha mente afobada. Somente ouvia o canto. Afinado e alto, driblava meus ouvidos e furava meu coração. Singelos três quilos afundaram meu peito. Não estava mais sozinha.

      As dúvidas sumiram. Os pensamentos não. Mirando seus olhos cansados, porém sinceros, descobri quem havia lutado por nossas vidas. Protegi seu minúsculo corpo com minhas mãos e agradeci em silêncio.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 17/01/2006
Reeditado em 14/11/2006
Código do texto: T100211

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
232 textos (20872 leituras)
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Felipe Valério