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Pobres Crianças

      Esconde-esconde. Futebol com bola de meia. Amarelinha. Crianças desarmadas de maldade e com o sono tranqüilo. Respira-se a felicidade sincera, justificada pela largura dos sorrisos e pela disposição ao desviar do pedaço de corda que esbarra suavemente no cabelo. Crianças abertas, sorridentes e normais. Crianças que não existem mais.

      Seria audácia e insensibilidade dividir com Carlinhos as vantagens de ser criança há tempos atrás. Aprisionado em seu apartamento, seus olhos não alcançam mais do que as paredes do prédio em frente. Só sai de casa uma vez por dia. Destino: escola.

      Carlinhos não reconhece sua escola como a instituição responsável pelo seu desenvolvimento intelectual. Nem mesmo acredita que seus professores preocupam-se com sua correta utilização dos tempos verbais.  A escola não passa de uma selva onde gazelas são diariamente perseguidas.

      - Gorducho!!!

      Pensando na infância de seu pai, recheada de bons momentos insistentemente comentados à mesa, o gorducho Carlinhos lamenta não ter nascido naquela época. Só lhe resta aguardar o sinal que anuncia, pontualmente, seu sofrimento.

      - Burro!!!

      O burro gorducho Carlinhos desce cautelosamente as escadas, verificando com rápidos movimentos oculares, possíveis perigos disfarçados de menina loirinha com pirulito ou de japinha de óculos. Dificilmente sabe quem será seu agressor, embora perceba olhares cruzados a todo momento.

      -Zarolha!!!

      Em um lastimável segundo de distração, o burro gorducho zarolha Carlinhos recebe um barulhento tapa na nuca, enquanto alguém, estrategicamente posicionado, quase lhe arranca as calças, deixando-o de cueca no meio do pátio. Percebe-se uma teimosa lágrima que insiste em não escorrer por seus olhos vazios. Enquanto demora para recompor-se, surdo pelas gargalhadas desordenadas da platéia, Carlinhos pensa em todos os sanduíches derrubados, nos tapas levados, nos cadernos rasgados, nas humilhações guardadas.

      - Covarde!!!

      Fecha os olhos por alguns segundos. Tempo suficiente para sonhar. Após abri-los, Carlinhos assiste seus coleguinhas caindo um a um. Como é gostoso pensar, sonhar, criar, fantasiar, matar.  Após limpar as mãos de sangue no próprio uniforme, caminha apressadamente.  Não vê a hora de aproveitar o resto de sua infância contemplando de sua casa a parede do prédio da frente.

      Hum...crianças.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 17/01/2006
Reeditado em 29/11/2006
Código do texto: T100212

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
232 textos (20872 leituras)
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Felipe Valério