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O PASTOR


 
    As portas se abriram e novamente ele havia conquistado a liberdade. Era a segunda vez que cumpria pena por estelionato e outros pequenos crimes. Na cadeia, encontrara-se com um pastor e desde então resolvera que iria mudar de vida.
    Jesus iria mudar a sua vida.
    Pensando no que ouvira do pastor, dirigiu-se a uma igreja mais próxima, pois já sabia o que fazer para viver de forma  folgada dentro da lei, sem ser segregado do convívio de amigos e familiares.
    Depois de meses de intenso aprendizado, foi declarado apto a assumir de imediato a direção de uma igreja. Agora, sim, faria um grande negócio e dentro da lei.
    Havia decorado a bíblia. Sabia quase tudo que ali se encontrava escrito, embora em nada daquilo acreditasse. Aprendera até a ter respostas para as perguntas que lhe fossem feitas.
    A figura de Deus era apenas uma suposição que iria ajuda-lo a “se dar bem” e viver da forma que sempre desejara, enganar  pessoas e dentro da lei.
    A lei estaria do seu lado, embora muitos soubessem que o engodo era grande. Muitos se davam bem usando do proselitismo tão comum às pessoas que se valiam de conceitos e  de um  nome de pastor.
    Andando por uma rua da cidade, encontrou um "amigo",que conhecera durante sua estada na cadeia. Zé Pretinho, como era conhecido na cadeia, era um verdadeiro artista. Sabia representar como ninguém e, muitas vezes, enganara até os colegas que já estavam acostumados com suas cenas e representações.
    Enquanto conversava com o " amigo", passou por sua cabeça que poderia se valer do Zé para adquirir fama rápida e com isso ficar rico em pouco tempo.
    No dia combinado, lá estava ele todo compenetrado, fazendo o sermão. Durante o sermão falou que Jesus lhe dissera que ele, a partir daquele dia, deveria curar os doentes e enfermos. Assim dizendo, se dirigiu aos fiéis e perguntou se havia alguém doente ou aleijado que quisesse ser curado.
    Naquele momento, um negro baixo, com uma perna mais curta, andava capenga e usando muletas se aproximou do Pastor e pediu em nome de Jesus que o curasse e alongasse  sua perna que era atrofiada.Tivera paralisia.
    O “Pastor” ajudou o aleijado a subir os degraus,  deitou-o no chão e depois de cobri-lo, começou suas ( orações) encenações.
    Fechou os olhos e enquanto orava pedia aos fiéis que o ajudassem. Durante  o processo de cura, fazia questão de frisar que somente aquele que tivesse fé seria curado.
    -Você tem fé?
    -Sim, sim, respondia o pobre negro que se encontrava deitado no chão e coberto por um lençol.
    O pastor depois de algum tempo, falou com voz firme e convincente:
    -Em nome de Jesus, eu te ordeno que te levantes e abandone estas muletas, pois estás curado. Em nome de Jesus estás curado!
    O negro obedeceu e fingindo-se surpreso levantou-se "completamente curado" e enquanto pulava gritava para a  platéia :
    -Aleluia, Aleluia, estou curado, Jesus operou através deste santo homem.
    Os fiéis, atônitos, assistiam a toda aquela encenação como se fosse uma verdadeira graça divina e gritavam de forma convicta.
    -Aleluia! Aleluia! Salve Jesus! Aleluia! Aleluia! aleluia, salve o nosso pastor!
    Algumas mulheres caíam ao chão em estado de histeria, outras choravam  e outras gritavam como se estivessem loucas enquanto homens batiam no peito e puxavam os cabelos. Toda aquela cena era observada pelo pastor que mantinha os olhos entreabertos, enquanto fingia estar orando.
    Ele olhava tudo com uma satisfação que sabia conter silenciosamente. Seu ator já fizera o trabalho. A partir daquele dia tudo seria diferente. “Jesus” iria mudar a sua vida.
    E assim foi. Enquanto o tempo ia passando, cada vez mais pessoas procuravam o pastor para serem curadas de seus males. Muitas apenas se imaginavam doentes e através da sugestão ficavam aliviadas de suas dores e assim alimentavam mais ainda a fé dos incautos  fiéis.
    Os que tinham problemas  reais, não eram curados e tudo era atribuído à falta de fé. Somente aquele que tivesse fé seria curado.
    Enquanto o teatro encenava suas peças, o pastor engordava a conta bancária que ele mantinha em outra cidade. O carro, a sua residência, eram as bênçãos de Jesus. De vez em quando o Zé Pretinho aparecia e conseguia através de certa pressão arrecadar sua parte no grande bolo que aumentava a cada dia.
    O fermento da fé era o ingrediente que aumentava cada vez mais a fama do “pastor”
 que procurava  de todas as formas aplacar a gula do inoportuno sócio.
    Com o decorrer do tempo tinha medo de que pudessem descobrir suas armações. Vivia imaginando um meio de se livrar do único homem que poderia prejudicá-lhe e acabar com o seu fabuloso negócio.
    Três vezes por semana, nos chamados “dias de cura”, ele representava o papel de curador possuído pelo espírito santo, enquanto os secretários corriam a bolsa para arrecadar para a OBRA DO SENHOR.
    Quando comprou dois imóveis de uma só vez, disse ter recebido uma herança do pai que havia falecido no Paraná. A maior parte da arrecadação ele depositava em bancos de outras cidades e   ali aplicava em imóveis.
    Durante o almoço, recebeu a visita do Zé, que exigia mais dinheiro para ficar calado e não "abrir o bico". Naquele dia resolveu livrar-se do sócio que se tornara um problema.
    E assim fez, iria levar o Zé a uma pescaria e lá faria com que ele desaparecesse. Os irmãos seriam seu álibi, as testemunhas do "acidente"
    E como tudo fora cuidadosamente planejado, o Zé Pretinho tornou-se mais uma vítima da imprudência. Morreu afogado no lago quando nadava, sem saber que tomara um calmante sutil, que lhe paralisara  os membros.
    Ele ficou "consternado" quando soube do acontecido e enquanto encomendava a alma do pobre diabo, dizia:
    - Estou vendo, estou vendo! Jesus está levando nosso irmão para junto de Deus.  Aleluia!  Aleluia!
    Os companheiros que olhavam aquela cena apenas repetiam:
    - Salve, Jesus! Salve, Jesus Aleluia!





     20/01/06 -VEM
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 21/01/2006
Reeditado em 15/08/2008
Código do texto: T102082
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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