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A menina dos olhos

            Somente depois de vinte anos de matrimônio, é que seu Alfredo e dona Adélia foram agraciados com a vinda da primeira filha, amavelmente batizada com o nome de Laura. Ela chegou entrelaçada de afago, afeto, amor, e de um indescritível mimo reverenciosamente dispensado àquela criaturinha de olhos cor de anil e de pele macia tão quão pétalas de dália.
 
            Ela era a graça do lar.

            Aquela casa nunca mais seria a mesma como antes, pois a felicidade impregnara-se no ar tal como o perfume do sândalo, e toda alegria era pouca para aquele casal, que, apesar de seus cinqüenta anos de vida, sentiam-se juveníssimos e apaixonados pela graciosa filha que viera ao mundo tal como uma abençoada dádiva da Natureza. Estavam eles, pois, radiantes de luz e prazer com a pequena Laura, que só lhes davam a razão do bem-viver.
 
            Mas o tempo foi curto para aquela alegria, pois quando a bela menina começava a desabrochar sua graciosa feminilidade juvenil, surge-lhe o primeiro namorado, e um grande sentimento invade o seu meigo coração, que, movida por uma imatura paixão, entrega-se ao prazer, o que lhe proporciona uma inesperada gravidez, a qual veio abalar toda estrutura de afeto que antes lhe era dedicada e sua vida preenche-se, apenas, na mais absoluta tristeza.
 
            A voluptuosa paixão que, há pouco, transbordava no coração de Laura, agora se transforma na mais perversa desilusão, e o seu grande sentimento de amor estava ferido na sua plenitude.Turbulentos meses se passam até que nasce a graciosa Laurinda, que veio ao mundo ladeada de mimo tal como chegara sua própria mãe. E a história se repete.

            Com a alegre chegada da querida neta, seus avós conquistavam mais uma vez o doce prazer de viver, e passam o tempo a admirar a beleza daquela criaturinha de cabelos dourados, de adorável sorriso e de olhos brilhantes como estrelas e, felizes, diziam ser ela a cópia fiel da própria mãe.

            A netinha foi crescendo agarrada aos avós que lhes davam a segurança de verdadeiros pais, uma vez que a mamãe Laura a deixara e preferira seguir mundo afora.

            Quatro anos se passaram e um imenso amor estava enraizado entre a neta e os avós, estes, já um pouco debilitados, viviam a tomar remédios para o coração e temiam pelo futuro da netinha que não tinha mais ninguém para cuidá-la.

            Certo dia o destino mudou o rumo daquela linda história de amor. Foi quando um homem parou o seu caminhão frente à casa de seu Alfredo, e este foi dar-lhe uma informação, tendo tão logo retornou para casa.

            Passados alguns minutos, seu Alfredo sentiu falta de Laurinda, ela deve estar escondida nos armários, disse dona Adélia, pois era costume da mesma se esconder.
 
          Procurada em todos os lugares, só restava a rua, e, ao chegar ao portão, seu Alfredo teve um enfarte: lá estava Laurinda esmagada no meio da terra. Ela, gracejando, escondera-se do avô sob o pneu do caminhão.

            Dona Adélia, desesperada, também enfartou.

            Aquele foi o dia mais triste de todos, e, toda a cidade, chorosa, se enlutou.

                                   O autor–14/maio/2005 -SP


José Pedreira da Cruz
Enviado por José Pedreira da Cruz em 25/01/2006
Reeditado em 25/01/2006
Código do texto: T103672
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Sobre o autor
José Pedreira da Cruz
São Paulo - São Paulo - Brasil
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José Pedreira da Cruz