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Sobre azul e chocolate

Lya andava devagar, repassando a agenda atribulada do dia: já havia limpado a sala e os quartos, o banheiro estava com um vazamento, tinha que chamar o síndico... Andava com a sacola de pão na mão, percorrendo o caminho da padaria a sua casa com a calma dos justos (ou seria a indolência dos burros?).

Era preciso, todas as tardes, preparar pão, leite e ovos mexidos para as crianças. O café do marido. Era preciso deixar as toalhas limpas para quando ele saísse do banho e mesa sempre posta, alimentos hermeticamente fechados e guardados na geladeira. Sempre. Todos os dias.

Não que fosse ruim. Lya se entregava a essas tarefas com a paixão com que Michelangelo se entregava à arte. Tinha até orgulho disso. Dir-se-ia que os panos mais limpos do bairro eram os seus, que sua sala cheirava a limão, as comidas eram boas, os filhos bem educados, uns amores. Só que Michelangelo, ela pensou, Michelangelo era lembrado.

Nunca se perguntava muito o porquê de fazer aquilo tudo. Todas faziam. Era o normal. E assim, os dias passavam, ela rainha do seu pequeno tabuleiro de colchas de retalhos. Lya executava seus afazeres mais ou menos como um ator repete a peça nos dias seguintes à estréia: muda-se um detalhe aqui, outro ali, alguns dias são piores, outros, melhores, mas, no âmago, era tudo a mesma coisa. E, mesmo representando bem, depois de vinte anos do mesmo enredo qualquer mulher se cansa.

Ela pensava nisso quando uma visão tentadora lhe despertou medos alegres dentro do vestido.

Era uma confeitaria nova, aos moldes antigos. Na vitrine, um jovem vendedor organizava confeitos em forma de coração, feitos de chocolate branco e negro, crocantes, com nozes, doces, amargos, enfim, corações de todos os tipos, variedades e tamanhos. Eram tantos que faziam uma montanha de doce numa cesta que os braços fortes do rapaz sustentavam. E ele ainda tinha olhos azuis.

A essa altura, ela já estava diante da porta, observando e apreciando. O vendedor solícito convidou para conhecer o estabelecimento. Ela apontou para o relógio, num gesto de desculpas, e saiu apressada. Que idéia, ir a uma doceria sem as crianças, sem ele. Não que houvesse nada demais nisso, só que ela não se dava a essas futilidades. Era mulher adulta e bem-comportada, centrada, sem desejos de desfrutes, sem máculas, por menores que fossem. Fora criada para viver para seu marido e não queria outra coisa na vida. Foi pra casa.

Saindo do campo de visão do vendedor, voltou a caminhar lentamente, pois eram 3 da tarde e o marido só chegaria às 7, com os meninos. Deus que a perdoasse, ela odiava as 3 da tarde. Deixavam-na nervosa e hesitante porque eram vazias. Não havia nada para fazer. Era o momento em que a dona-de-casa da manhã entrava em metamorfose para assumir ares de mamãe à noite. No meio da tarde, entretanto, fica livre para ser apenas Lya, e isso assustava.

Chegou em casa, acendeu as luzes, e pôs-se a esperar no sofá até que eles chegaram. Ele chegou, o sol da sua vida. Mas estava frio, e os filhos eram pequenos, barulhentos e elétricos. O marido beijou-lhe o rosto como quem entrega a passagem a um cobrador de ônibus, comeu e dormiu. Ao cair da noite, ela se deitou lembrando o rapaz de olhos azuis. Mas era uma impressão besta, leve, esquecível.

No dia seguinte, trabalhos iguais aos de ontem arrancaram essas impressões da cabeça. Limpou a sala, os quartos, chamou o síndico para ver o vazamento.

Mas foi comprar pão e escolheu o mesmo caminho. Dessa vez, o balconista fez sinal para que parasse e fez questão de entregar o folheto publicitário da loja.

Desculpe, vi a srta aqui ontem e julguei que parecia interessada em nossos serviços, É sra, Desculpe, não parece, Você é muito atencioso, deve ser o dono da loja, De fato não, é que cuido bem mesmo não sendo meu, não gostaria de experimentar, Outro dia, obrigada, Sempre às ordens.

Nesse dia, sequer ganhou o beijo de trocador de ônibus, mas as crianças andavam mais barulhentas. Á proporção que o marido lhe negava, sua boca seca e esquecida salivava mais e mais, por algo doce, fosse gosto de chocolate, fosse de outra boca quente dos vapores de uma loja. E nesse desespero voluptuoso do conflito entre obrigações e desejos escusos, esquecia-se em tábuas de passar, pia, vassoura.

Certo dia, passou pela loja e viu seu marido lá dentro, acompanhado de outro rapaz. Acompanhdo, realmente, por outro rapaz. O vendedor, com o gesto costumeiro, convidou-a a entrar, e arregalou os olhos azuis quando ela cruzou a porta pedindo corações crocantes, por favor.

- Esse distinto senhor aí sentado freqüenta a casa todos os dias?

- Sim – disse o rapaz – geralmente vem com o namorado....

- Namorado...Sei. Você o conhece?

-Só de vista...

Ele franziu o cenho. Pôs os confeitos num saquinho.

- Só isso?

Ela recebeu o pacote e já ia sair, quando se voltou:

- Você tem chocolate com pimenta?

Ele riu para si.
- Estranho.

- O que foi?

- Como a gente se engana com as pessoas. Pensei que a sra gostasse de chantilly, essas coisas...

Ela riu para si.

- Não hoje.

Naquela noite, quando ela chegou em casa o marido a esperava no sofá. Era tão tarde que já era cedo. Ela lhe deu um beijo de trocador de ônibus e foi dormir com o coração na boca e vendo tudo azul.
Jéssica Callou
Enviado por Jéssica Callou em 27/01/2006
Reeditado em 30/01/2006
Código do texto: T104567
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Sobre a autora
Jéssica Callou
João Pessoa - Paraíba - Brasil, 28 anos
44 textos (139769 leituras)
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Jéssica Callou