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O ACUSADO

Naquela noite não dormiu bem. Teve sonhos ruins e acordou várias vezes. A boca seca denunciava um pesadelo e o coração batendo forte também.
Abriu a cortina e a luz do sol invadiu o quarto. Estava com dor de cabeça e uma sensação estranha no peito, uma espécie de angústia.
Fazia seis meses que não conseguia trabalho. Tinha enviado o seu currículo para todas as agências de empregos do Centro de São Paulo. Pudera, quem daria emprego para um rapaz negro, com apenas o 2º grau e com poucas qualificações?
O dinheiro que tinha, daria apenas para mais um mês. E depois? Voltaria para a sua cidade, derrotado? Não! Cumpriria as promessas feitas à sua mãe: venceria na Cidade Grande!
Pegou alguns trocados e saiu para a rua. Compraria um jornal de empregos e ...
Parecia que estava sendo observado. Talvez fosse só impressão.
Não tinha andado nem cem metros quando foi abordado por dois policiais. “Mão para a cabeça”!
No susto pensou, em correr, mas não devia nada. Parado, com os braços acima dos ombros e encostados na parede, sentiu vergonha. As pessoas começaram a parar, uns riam outros faziam cara de pouco caso. Seu rosto estava pegando fogo, nunca se imaginou numa situação como aquela.

Os policiais terminaram a revista e o empurraram em direção ao camburão.
“Seu guarda”, balbuciou. “Cala a boca”, foi a resposta.

Na parte detrás do veículo, tinha mais dois “passageiros”, com as cabeças encolhidas. Não entendeu nada.
Ao chegarem na delegacia, foi informado que juntamente com os outros, passaria por uma averiguação. A polícia estava à captura de um estuprador e uma das vítimas dera descrições que coincidiam com as deles.
Ao entrar na pequena sala, a sensação de desconforto aumentou. Algo muito ruim iria acontecer...

Passados alguns minutos, pediram que desse um passo a frente. Sua testa latejava. “Meu Deus”, pensou. Os policiais o prenderam, baseado no depoimento de uma das vítimas. As outras duas não tinham certeza.
Na sua ficha, além de estuprador, ainda tinha assalto à mão armada e roubo de objetos valiosos de uma casa de decoração. Dali, não voltou para o seu quartinho de pensão.

Estava preso há dois meses, não tinha sido julgado e o advogado que lhe fora designado só aparecera um vez. Numa cela onde cabiam quatro, doze homens se revezavam na hora de dormir, ficar em pé, agachar... Não podiam nem reclamar, pois estavam separados dos outros presos devido à condenação de estupro.

Chorou muitas noites pensando em sua mãe, na namorada e na ironia daquilo tudo. Pensou em quantas vezes pedira a Soninha para fazer amor com ele e na sua birra em permanecer virgem. E agora estava ele, sendo acusado de um crime que não cometera.
Ali, todos se diziam inocentes, será?
Passado mais um mês, outra advogada apareceu. Dra. Glória. Mulher séria, sisuda e disposta a ouvir. A primeira pergunta que fez foi: “Você é culpado ou inocente”?
Antes mesmo que ele respondesse, ela se antecipou. “Vou defendê-lo de qualquer forma, só quero saber com quem estou lidando” e dentro dela uma voz dizia que aquele pobre rapaz negro, era inocente e se isso fosse verdade iria tirá-lo de lá.
Ele contou-lhe sua história, o porquê de estar em São Paulo e a forma arbitrária como tinha sido preso. Quando ela saiu, sentiu-se aliviado. Deus tinha ouvido suas preces.
Passados alguns dias a Doutora Glória voltou.Tinha juntado algumas provas. Procurara ouvir as mulheres que o acusavam e uma delas, a que tinha-o acusado, disse que tivera dúvidas, mas “achava” que era ele.
Enquanto ele estava preso, os estupros no local não haviam parado, mais um motivo para inocentá-lo. A advogada teve acesso a documentação e pode constatar, que ele era muito parecido com um outro suspeito (Paulão), poderiam até passar por irmãos.
Paulão estava na condicional e residia próximo ao local dos crimes. Tinha uma ex-mulher vingativa, que queria vê-lo preso novamente. Ao ver algumas fotos de Paulão, a Dra. Glória percebeu ao fundo alguns objetos de valor, tais como, relógios, quadros e uma idéia ocorreu-lhe.
Dra. Glória voltou à delegacia e pediu que as vítimas fossem chamadas com urgência. Pediu para todas ficarem juntas e colocou fotos em uma mesa. Dentre as fotos, estava a foto de Paulão, que foi reconhecido por todas como o agressor. Tinha descoberto a verdade.

Ao sair da penitenciária, mais magro cinco quilos, a única coisa que queria era voltar para sua terra.

Ao chegar na pensão, suas coisas estavam no depósito, foi até lá e retirou um montinho de cartas. Uma era de sua mãe, outra de Soninha e a última era de uma agência que dizia que ele tinha sido aprovado no processo de seleção e deveria apresentar-se na segunda-feira.

Tinha um trabalho, não precisaria ir embora e... ainda venceria na Cidade Grande.




CRISTIANE DONIZETE
Enviado por CRISTIANE DONIZETE em 31/01/2006
Reeditado em 19/05/2012
Código do texto: T106710
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Sobre a autora
CRISTIANE DONIZETE
São Paulo - São Paulo - Brasil
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CRISTIANE DONIZETE