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A Moça da Janela

Todas as manhãs se repetia sempre a mesma cena. A moça chegava na janela e abria as venezianas, quando fazia sol. Quando o céu desabava, ela ficava atrás da vidraça fitando com seus olhos imensamente azuis a vida que  passava do lado de fora. Na pequena cidade do interior, a moça era conhecida por todos. Quem passava por debaixo da janela, saudava-a, alegremente. E ela respondia, da mesma forma. Quando fui morar lá, acostumada que estava com grandes civilizações, estranhei um pouco aquelas saudações. E mais ainda porque nunca via a jovem além dos limites daquela janela.

E assim ela passava seus dias. E eu, os meus. Ela ficava um pouco pela manhã. Vinha pela tarde, saía, voltava. De noite, se enfiava na casa antiga e não a via mais. Seu sorriso era iluminado. Os cabelos desciam livres pelas costas, também sempre iluminados pelos raios de sol. Ainda me sentindo estranha ao lugar, morria de vontade de parar embaixo da janela, olhar para a moça, cumprimenta-la, perguntar seu nome, enfim, convida-la para dar uma volta.

Mas nunca fiz isto. Apesar da simpatia dela, nunca tive a coragem de me aproximar. Mas me encantava com a sua vivacidade, com a sua magia, com os seus olhos luminosos. Sentia até um misto de inveja e admiração, queria um pouco daquele carisma para mim.

Numa manhã ensolarada, despertei cedo para ir até a padaria. Já previa um dia como o anterior, como os outros, sem nada que me incomodasse naquela pacata cidadezinha. Dobrei a esquina, já antevendo a cena. A jovem estaria na janela e, até para mudar meu dia, tomei a resolução de me aproximar dela. Poderia convida-la para um chá, uma conversa, amenidades. Porém, para meu espanto, ela não estava lá. As venezianas estavam fechadas. A casa parecia até estar vazia.

Caminhei alguns passos, um pouco desnorteada. Ela não estava na janela. A praça em frente também estava mais silenciosa. Entrei na padaria, intrigada. Fui atendida por uma mulher de semblante triste, que mal abria a boca para falar comigo. Senti que algo estava estranho. Algo estava fora do normal. No final, ao receber meu troco, a senhora que me atendeu pediu desculpas, uma pessoa da cidade havia morrido e todos estavam muito tristes.

Meu coração acelerou e segurei o pão com mais força. Perguntei quem, já sabendo a resposta. Mesmo assim quis saber, para nã mais olhar para aquelas venezianas fechadas esperando encontrar os mesmos olhos azuis brilhantes e o sorriso iluminado pelo sol. Fui informada que a moça, aquela ceguinha que ficava na janela do sobrado antigo, havia morrido na noite passada. Coitada, estava doente há muitos meses.

Saí atordoada da padaria, assim como toda a cidade. Cega! E aqueles olhos cintilantes? Doente há muitos anos. E aquele sorriso radiante? Voltei para casa, apertando o pão, com um nó na garganta. As venezianas da janela agora estavam abertas. O vento suave daquela manhã balançava as cortinas brancas, como se alguém fosse aparecer há qualquer momento.

Mas ninguém apareceu naquela manhã. Pela tarde, as venezianas continuavam abertas e vazias. À noite, foram fechadas. Nunca mais vi ninguém naquela janela, acho que ninguém mais teve coragem de passar por ali.  A vida voltou ao normal. Meses mais tarde, o sobrado foi demolido. As lembranças aos poucos foram se desvanecendo. A moça da janela… eu ainda sento saudades dela.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 01/02/2006
Código do texto: T107043
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
572 textos (37895 leituras)
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Patrícia da Fonseca