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A Sandália Dourada

        Poderia ter tido um final feliz.

        Lembro que eu ainda não havia completado dezoito anos. Meu pai determinara que eu deveria estar à meia noite em ponto em casa. Nem um minuto a mais. E quando ele dizia alguma coisa, era para ser cumprido na íntegra.
Eu estava na festa de um clube, na companhia das minhas melhores amigas. Divertia-me muito. Porém, assim como eu, elas também tinham pais rigorosos que se comunicavam entre si. Todas nós quatro deveríamos estar em casa à meia noite. Um amigo taxista do pai de uma delas estaria na frente do clube pontualmente às 23:45. Tempo suficiente para eu estar em casa na hora marcada. E as meninas, minhas vizinhas de prédio, idem. Também tempo suficiente para não se ter tempo de fazer coisa alguma.

         Mas aquela noite estava especial. Finalmente eu havia conseguido conquistar o Dani. Depois de meses de amor platônico, ele notara minha existência. Nos refugiamos no jardim, próximo às piscinas, e me atirei nos braços dele, jurando que encontrara o homem da minha vida aos dezessete anos de idade. E, obviamente, esqueci-me das horas.
Gritos chamando meu nome me tiraram do meu encanto. Eram as meninas procurando-me, apavoradas. Olhei para o relógio. Faltavam cinco minutos para a meia noite! Se eu me atrasasse para chegar em casa, meu pai me faria amargar um exílio para as próximas cem festas que eu seria convidada. Olhei para o Dani, consternada. Apaixonadamente dei-lhe um beijo e sussurrei que o veria em breve. Ele não disse nada; julguei estar tão triste quanto eu estava naquele momento. Saí correndo pelo jardim e na minha afobação, quebrei o salto da minha sandália. Uma das meninas me puxava pela mão. A sandália me atrapalhava. No desespero, arranquei-a do meu pé esquerdo e a atirei no jardim. Dani observava toda a cena. Saí manca até o táxi, mas com um sorriso no rosto. Uma das gurias me perguntou porque eu havia abandonado a sandália. E eu respondi, triunfante:
- É para o Dani ir pessoalmente na minha casa entregar.

Sentia-me a própria Cinderela. Dani já tinha meu endereço. Uma das primeiras coisas que fiz foi passar minha rua, nº do prédio, do apartamento, telefone, tudo. Ele com certeza amanheceria na porta da minha casa com a minha sandália na mão. E viveríamos felizes para sempre.

Para meu azar, já passavam quinze minutos da meia noite quando apareci em casa. Meu pai me aguardava sentado no sofá, com o bigodão lhe deixando com uma aparência mais severa. A coisa piorou quando ele viu que eu estava com um só pé de sandália. E aconteceu o que eu previra: estava proibida de freqüentar festas pelos próximos quinze dias. Para quem tem dezessete anos isto é o fim do mundo. Chorei, bati pé, acordei a vizinhança com meu ataque histérico. Não adiantou. Fui dormir. Sonhei que Dani havia passado lá em casa para colocar a sandalinha nos meus pés e me pedir em casamento. Acordei no paraíso e quando me dei conta que havia sido mais um dos meus sonhos de amor, levantei-me emburrada.

Minha mãe ficou furiosa quando descobriu que eu havia abandonado a sandália sem ao menos tentar leva-la ao sapateiro. Agüentei mais um sermão do meu pai em plena mesa do café da manhã. Mas meu coração me dava a certeza de que Dani apareceria lá em casa com a minha sandália dourada. E todos seríamos felizes para sempre.

O Dani não apareceu. Fiquei aquele domingo esperando o infeliz e nada. Convenci, naquela mesma tarde, uma das meninas a ir comigo até o clube ver se achava a sandália. E ela estava lá, nos achados e perdidos. Levei-a para casa, muda. Minha mãe ficou muito contente, afinal aquela sandália dourada custara um dinheirão e ela costumava usar também quando saía com meu pai. O resto do dia fiquei de beiço e me recusei a jantar.

No outro dia, na escola, soube, boquiaberta, que o Dani havia ido embora. O pai era militar e fôra transferido para o interior do país. Meu mundo caiu. Por que ele não dissera nada para mim? Mas eu só tinha dezessete anos, logo o Dani foi esquecido. Apareceram outros meninos mais interessantes no decorrer da minha vida. Do Dani, nunca mais soube nada. Devo ter sido apagada da memória dele também. No entanto, minha sandália dourada continua lá em casa, intocada, com seu salto reparado. Eu a usei mais algumas vezes, depois foi aposentada. E toda vez que eu a olho, sem coragem para coloca-la em uma lixeira, lembro dos meus doces momentos de adolescente, quando os nossos amores eram eternos e todos os homens eram príncipes.
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 06/02/2006
Código do texto: T108717
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
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Patrícia da Fonseca