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Insensível Sentir

        As mãos lacrimejavam os suores azedos, nervosos e evidentes. O tremor dos lábios iluminava parte da arcada dentária, alternando luz e escuridão no sorriso confuso. O bater dos dentes obrigou a mandíbula a liderar os movimentos, esmagando as pastilhas e realçando os ossos da face.  Facilmente sentiria os batimentos em qualquer parte do corpo. Ficaria feliz se ela percebesse o fluxo desordenado do meu sangue. Perceberia que sinto. O tapa atrevido fez com que engolisse o choro, mas a decepção berrava o silêncio escondido. Surda e cega, arremessava promessas afundadas no corpo, lutando contra os olhos que um dia elogiou.

        Pobres dos destinos desastrosos quando se cruzam sem obedecer às placas de “pare”. De quem era a preferência? Deveria reduzir, respeitando o comodismo sentimental, e evitar o encontro catastrófico? Ou deveria acelerar o sentimento que freia a tristeza, fechando os vidros para as caronas da estrada escura? Sinceramente, rasgaria o ar com o chaveiro pesado e correria a pé. Mas não era opção minha. Nem dela.

        A fala incessante tornava o ambiente apertado, repleto de caixas traumáticas aguardando nossos tropeços. O controle dos gestos manchava a disputa pela razão. Mesmo assim, preferi não me mover. Arrisquei falar, mas a parede acrílica que constituía sua postura trancava minha versão. Sempre fui calmo. Pensando bem, sempre fui frio.

        Assisti a falta de fôlego que acompanhava seu rastejo. A fêmea imponente, com argumentos afiados e comportamento desafiador, havia encontrado o chão gelado. Filtrei os murmúrios decadentes e os soluços sufocantes para poupá-la da lembrança. Aos negar os momentos transformaria vida em fumaça, distância em alívio, ódio em paz. Ambos ganhariam...ambos viveriam...eu não choraria.

        Iniciei meus passos para fora, deixando a porta entreaberta para que o sonho fugisse. Obediente, sumiu antes que virasse o rosto. Nunca saberei se voaria mais alto aos olhos dos outros ou se estaria condenado a nunca ser realizado por covardes cotidianos. Seria eu mais um? Desculpei-me com um suspiro envergonhado e abandonei seu corpo encolhido, torcendo para que fosse resgatado pela verdade. Vesti-me de farsa e aceitei o desnível da calçada.

        Só queria um beijo...nada além disso.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 13/02/2006
Reeditado em 14/11/2006
Código do texto: T111464

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério