Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A PESCARIA




    Naquela época, estávamos trabalhando juntos em uma imobiliária como vendedores e, depois de vários acertos, resolvemos pescar e aproveitar o feriado prolongado que estava por vir.
    Depois de tudo acertado, fizemos as compra e no outro dia de madrugada arrumamos a tralha dentro dos carros e saímos rumo ao rio que fora previamente escolhido.
    Havia notícias de que o rio estava bastante piscoso naquele ano. O feriado longo de setembro propiciava  alguns dias de completo relaxamento à beira do rio.
    Nós levávamos a tralha de pesca individual e o necessário para passarmos aqueles 4 dias na beira do rio com relativo conforto.
    A cerveja não foi esquecida. Além das caixas com garrafas, levávamos também quatro caixas de cervejas em latas. Por ser mais prático.
    No meu carro, além dos apetrechos de cozinha, ia a caixa com gelo e algumas cervejas.. Eu dirigia o carro enquanto meu companheiro, sentado no banco de passageiro, ia contando suas aventuras. O banco traseiro do carro estava lotado com barracas, alimentos e grande parte dos apetrechos de cozinha o fogareiro e até um colchão. O espaço não permitia maior numero de pessoas. No outro carro, iam o restante da tralha e a turma.
    Saímos bem cedo e depois de vencermos os 120 km de asfalto e estrada de terra com muitos buracos e caminhos, conseguimos chegar à beira do rio às 8 horas da manhã. Somente depois das 10 horas tínhamos conseguido armar o acampamento, com a montagem do fogão e das barracas dos componentes do grupo.
    Meu companheiro havia levado uma barraca pequena para duas pessoas, a qual ele havia tomado emprestado do filho que, também costumava acampar com amigos  em lugares diversos do Estado.
    Quando ele acabou de armar a barraca, ao tentar fechar o zíper, notou que este estava estragado e que não seria possível consertá-lo. Queria fechar a barraca para evitar a entrada de insetos ou mesmo pequenos animais. Na realidade o que ele mais temia era cobra.
    Depois de tentar consertar o zíper, desistiu, uma vez que não havia conserto. Na impossibilidade de consertar o zíper da barraca, começou naquele momento o drama dele e nosso.
    O drama dele se limitava ao medo de que alguma serpente viesse entrar na barraca durante a noite e o nosso, em ter que ouvir repetidas vezes a mesma lamentação do companheiro.
    E assim, com estes pensamentos, ele ficou durante todo o dia angustiado e imaginando que iria ser vítima de alguma cobra, quando ele estivesse dormindo, durante a noite.
    Alguém havia-lhe dito que as cobras detestam alho,  em razão disto passou a comer e mastigar  dentes de alho para poder exalar o cheiro e afugentar os répteis. Este era o seu pensamento. Por isso, nossa comida durante a estada no rio, ficou sem este tempero, a segurança dele era mais importante.
    Além do alho que ele mastigava durante todo o dia,  tomava uma cerveja. Como ele não queria assumir o risco de passar por mau pescador, resolveu assumir o compromisso de tomar conta da cozinha. Somente depois ficamos sabendo a razão do grande interesse em tomar conta da cozinha. A cerveja era seu motivo.
    Na hora do almoço, quando chegamos ao acampamento, como sempre, ele  estava com uma latinha na mão, degustando a cerveja que tanto apreciava .Assim passou o dia entre um dente de alho e uma cerveja.
    Quando chegou a noite, o drama veio em dose dupla. Ele, a todo o momento, falava do medo de ter que dormir na barraca sem zíper e ser vitima de uma cobra que iria mordê-lo enquanto dormisse.
    Ouvindo aquelas reclamações, ficamos olhando-o mascar os últimos dentes de alho e jogá-los na entrada da barraca para afugentar as cobras que viriam. Este era seu modo de pensar.
    Eu, que havia resolvido dormir dentro do carro, nenhuma preocupação me assaltava e tão logo me deitei, adormeci.   Quando o sol já se mostrava no horizonte ele reclamava  que não conseguira dormir e nos  contou a seguinte história:

    " Depois que se deitou, quando estava cochilando, ouviu um ruído e, ao abrir os olhos, viu, uma serpente quase que em pé pronta para o bote. Naquele momento, ficou praticamente paralisado, com medo e nem mesmo ousava se mexer, com receio que ela  o mordesse, o que seria fatal.
    E, assim, durante toda a noite, ficou estático, imóvel, quase sem respirar. A cobra  estava parada, pronta para o bote. Apenas esperava que ele se mexesse para atacá-lo. Ela ficou imóvel naquela posição durante toda noite e ele se limitava a respirar lentamente.
    Por várias vezes pensou em se lançar sobre ela e agarrá-la abaixo da cabeça e com isso ficar livre da mesma. Mas o medo o impedia de se arriscar. Se errasse na investida, ela poderia mordê-lo e, lógico, que a morte seria certa.
    E neste impasse ficou toda noite, praticamente  imóvel sem respirar  e, muito menos, sem se mexer.
    Quando o sol começou a raiar, ele conseguiu ver que a cobra, que estava pronta para o ataque, era apenas a faca que se encontrava na bainha, presa ao cinto, ao ser retirado da calça.
    Os raios da lua projetavam a sombra do cinto e da faca, o que tornara aquele instrumento em uma serpente ameaçadora, pronta para o ataque. O medo fora o grande vilão e o transformara em vítima  de algo que ele apenas imaginara"

    Depois de rirmos por algum tempo da história que nos foi contada, fomos pescar e o deixamos, mais uma vez, responsável pela cozinha, já que este era o seu desejo.
    No segundo dia, consegui entender sua devoção pela cozinha. Na realidade, ele preferia estar perto do acampamento, pois ali poderia, quando bem entendesse, beber da cerveja gelada que estava na caixa de isopor.
    O calor era enorme e a água do rio não se prestava ao consumo, muito embora houvesse muita água eu não iria me arriscar, bebendo-a.
    Quando cheguei ao acampamento, encontrei-o com uma lata de cerveja na mão. Ao abrir  o isopor para  beber uma cerveja, vi que só havia pouco mais de uma dúzia e pelo andar das coisas iria acabar ainda naquele dia. Nossa pretensão seria voltar só na segunda-feira, à tarde. Segunda era o dia do feriado e por isso estaríamos ali.
    Quando o questionei sobre as outras cervejas ele me disse que aquelas eram as últimas.
    Preocupado, sugeri-lhe que bebesse menos, senão as cervejas iriam acabar antes de domingo e depois não teríamos nada mais para beber.
    Quando lhe falei, ele ficou nervoso e, num ato impensado, atirou a lata que estava em sua mão na árvore que ficava bem  em  sua frente.
    Ao ver o líquido escorrendo da lata, quase toda amassada, correu até ela e, pegando-a, bebeu o restante que não fora desperdiçado.
    Depois do incidente da cerveja, ele concordou que deveria beber menos para evitar que a cerveja acabasse antes do tempo.
    Naquela noite, quando fomos pescar sob a luz do luar, cada um levava sua lanterna. Mesmo assim, ele quase pisou em uma cobra jaracuçu, quando andava pela beira do rio; isso o tornou ainda mais assustado a ponto de ficar os dois últimos dias sem dormir. A partir daquele momento, passou a ficar dentro do meu carro, sentado, durante toda a noite, no banco dianteiro, tentando dormir.
    E assim, depois de três dias na beira do rio, voltamos somente com aquilo que havíamos levado. Nada foi pescado.
    Agora, quando o chamo para pescar, imponho três condições básicas:
    A primeira, é que ele leve uma barraca decente;  A segunda, que leve um quilo de alho; E a terceira é que, além disso, leve 5 caixas de cerveja.
    Só para ele.


 11/10/05 -VEM
     
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 16/02/2006
Reeditado em 07/10/2010
Código do texto: T112444
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
1412 textos (110779 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 00:44)
Vanderleis Maia