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Escarros de rouquidão

_ Agora está pronto!
O pensamento de atravessar a porta era como uma estréia teatral. Uma vez por semana ia a mercearia do Seu Juca, fazer as suas compras  era a única vez que saia de casa. Junto com a compra havia a expectativa de que o que foi voltasse, ele era a pausa de uma vida, uma seqüência interrompida sedenta por continuar.
Resmungava os itens da lista como uma Ave Maria, volta e meia seus olhos miravam a porta. Não que houvesse medo ali, era apenas uma expectativa, um gozo de delírio, queria estar pronto para quando eles o vissem o reconhecesse, ele se sentia a surpresa dentro do chocolate.
Havia parado a 35 anos, tinha trinta e dois anos naquela época. Acordara, tomara o café e se arrumara para o trabalho, como sempre fazia, era um valete num jogo de pif, parte de uma seqüência, parte de um conjunto que podia representar a vitória, porém alguém bateu primeiro e o jogo foi interrompido.
Naquele dia sentiu o baque de um navio encontrando o gelo, a circunstancia do gelo cortando a madeira. Quando se é jovem a superficialidade pode ordenar a mente até o corpo ser escalavrado, é quando os sentimentos maneiam a vida para um labirinto onde o fim perfeito seria o próprio começo.
Ao chegar ao trabalho a surpresa poderia ser agradável, tinham mudado sua sala, a nova sala era maior e mais arejada. Algo se quebrou, como um vaso comprado em viajem que depois de quebrado nunca mais se vê um igual. Foi um desapontamento, refletido nisso, naquilo. Uma cólera frustrada, que inibiu qualquer proposta. Frustrantemente incapaz, insólito para novidades, transpassou-se nas viabilidades das seqüências. Parou, uma sonolência de continuar avassalou todos os seus impulsos, uma vela presa pela própria cera, derretida e resfriada, assim ficou, um resquício de luz nas profundezas das trevas. Naquela tarde não foi ao treino de futebol com os colegas, nunca mais jogou futebol, nunca mais foi à missa, nunca mais foi o mesmo.
Agora, apenas uma vez por semana ele saia para as compras, com a esperança de em algum lugar ou olhar, ele encontre o que foi perdido, ele se encontre, não na forma bruta que se mantinha, mas lapidado como um dia estivera.
O calor do sol lhe dava vida, seu corpo continuava pálido, mas ele misticamente sentia a força do sol, sentia-se um balão sendo soprado, abrangia-se multilateralmente, ampliando todas as percepções sociais. Via cada olhar curioso sobre si, sabia que o questionavam, queriam entendê-lo. O  mistério para o curioso é como uma flor para um colibri, enquanto ele não se enfia até o pescoço ele não se sacia, é algo tão forte que apenas o cheiro é capaz de hipnotizá-lo.
Será que sabem que acredito em duendes? Questionou-se. As fantasias de si mesmo eram muito maiores que a dos transeuntes. Todos o conheciam, este era o desespero de se morar em uma cidade com menos de Três mil habitantes, todos viam a nítida transformação que nele ocorrera, mas ninguém tinha a real idéia do porquê acontecera.
Tornou-se uma lenda, todos projetavam nele seus desapontamentos , suas frustrações, motivos pelos quais levariam cada um a mudar, mas a resposta verdadeira ninguém a tinha, o instinto social de convivência fez com que todos fingissem que não repararam a mudança, fazendo bonito na alegoria hipócrita da sociedade.
Ele com tudo isso se sentia mais nobre, se fazia rei, era como se ninguém ali fosse à sua altura, como se a insignificância da existência alheia o levasse um degrau acima de sua própria insignificância.
Até chegar a mercearia de Seu Juca era um oceano de sorrisos de simpatias, como ele odiava aquilo tudo, era insuportável para ele aquela falsa felicidade, aquela alegria rasa, uma poça formada pelo sereno da noite.
Chegando a porta do armazém encontrou um rapaz, devia ter seus 20 anos, era alto e loiro, seu corpo atlético lhe dava um ar imperial. Estava parado do lado da porta, vendo o velho não esboçou nenhuma expressão de simpatia, o que o deixou muito a vontade. O garoto fumava, soltava a fumaça como se estivesse em frente a inúmeros holofotes, como se ali fosse um palco e ele a grande estrela do espetáculo, inspirava arrogância e expelia soberba. Depois de passado instante de alivio, em que ele não precisou ver nenhum sorriso patético do rosto do “Boy”, ele ainda ficou alguns segundos olhando o rapaz. Num misto de piedade e repugnância ele só pode resmungar para si.
_ Imbecil! Entrou na mercearia.
No caixa encontrava-se uma moça. Era magra, mais de aparência do que realmente por falta de carne no corpo. Tinha os cabelos amarrados, uma trabalhadora, como tantas outras na cidade, mas mesmo assim não perdia aquela feminilidade esperançosa de moças do interior, que sonham com a chegada de um príncipe, que ao olhá-las vão reconhecer a mulher mais bela e virtuosa do planeta. Uma perola jogada aos porcos. Seu rosto parecia não descansar, tinha sempre um sorriso ali, eram andorinhas em catedrais. Para ele, ela era a seta que indicava o caminho oposto.
Vendo o senhor entrar, a moça se fez flor, floriu um sorriso, que para ele era um faca que cortava da virilha à garganta, nunca em sua vida conhecera alguém tão odioso, mas como de habito retribuía o sorriso.
Para a moça aquele sorriso representava um troféu, ela se sentia tão especial que faria alguém até acreditar em sua existência, achava tão romântico ser a única da cidade que contava com a simpatia daquele senhor.
Uma vez em uma situação constrangedora no emprego, onde seu patrão veio lhe chamar a atenção por conta do fechamento do caixa do dia anterior, acabou se alterando além da conta, até ameaçando de despedi-la. Ela na situação não notara ninguém na mercearia, até ver os olhos daquele senhor que vinha todas,as segundas fazer suas compras, ele estava sorrindo para ela. Ela observou uma ternura daquilo que quase correu para abraçá-lo, via nos seus olhos uma força, podia jurar que se seu patrão continuasse a ofendê-la, aquele senhor, que todos tinham como mal humorado e até feiticeiro, sairia em sua defesa, bravamente.
Passando pela moça, ele sempre se sentia um pouco constrangido, lembrava-se de um dia quando entrando pela mercearia viu o Seu Juca despedindo a moça, ele não pode deixar de sentir por aquela cena uma alegria, igualmente a alegria, um sorriso involuntário foi esboçado, quando deu por si a moça estava o encarando, ele não sabe o que sucedera a partir daquele dia, mas a moça não fora despedida, e ficou mais irritante que de costume, e agora sempre que o via lhe dirigia diretamente.
O armazém era de indiscutível simplicidade, não se podia andar sem esbarrar um algo, chegava a ser sufocante. Agora ele fazia as suas compra, a lista sempre posta a mão e os olhos variando nos produtos nas prateleiras.
Sua compra fora sempre fatídica , nunca se aventurara em novos produtos, podia ficar horas manuseando um lançamento, mas sempre levava o tradicional nunca se reservava a experimentar, era esplendidamente pontual, um copo cheio, antes da ultima gota para transbordar, um rígido limite coerente impossível de qualquer redimento.
Como sempre acontecera alguém do passado vinha-lhe abduzi-lhe do presente. Desta vez era uma senhora. Uma senhora com seus 50 anos, mas ainda com a carne tenra, tinha nos lábios um encanto e um chamado, como as lendas de sereias.  A pele viva também recebia um encanto por conta dos cabelos negros, escuros com piche. Ela ainda não o notara, ele a vigiava. Os dois já se namoraram, já se apaixonaram. Ela estava de conversa com a balconista.
Vendo-a assim tão leve, sem culpa nem frustrações, ele se deixou sonhar, a pautar uma vida que não conhecia. Como seria se tivesse se casado? Como seria ter alguém, algo por que viver, algo por sentir. Uma vida simples de cotidianos previsíveis, contábeis, filhos talvez. Pensava nas hipóteses e olhava para ela, o mexer de sua boca era tão convidativo, que ele imaginou como seria esmurrar aqueles dentes, não por sentir ódio, nem paixão, mas amor, uma curiosidade, a força do encontro do punho com os dentes, o sangue. Seus filhos teriam aquele sorriso? Quantos? 2, 3? Quem sabe mais. Um rapaz como aquele na porta da mercearia, uma moça irritante como a balconista?
_Seria um inferno.
A senhora agora também o vira, talvez tenha se lembrado do passado, de alguns momentos de paixões em que a época permitia, mas perdera a intimidade, o convívio com ele foi um pombo correio que levou a carta e não trouxe a resposta, e agora ela vinha para a janela e olhava o horizonte deslumbrando grandes possibilidades, mas nenhum ponto plausível, um nada de tudo. Meio tímida ela sorriu, como quem diz: ele ainda esta aí? Ele, mal humorado, dos últimos acontecimentos pensados, retribuiu o sorriso, como que diz, acabou de sair:
Com a compra quase feita, ele já se preparava para partir, lembrou de um ultimo item, o álcool. Já sabia a prateleira em que se encontrava, mas não quis correr para buscar, sabia que agora só semana que vem estaria de volta e afinal de contas, esta semana nem foi tão ruim assim as compras..
Às vezes um cansaço o arrebatia, poderia parar e ficar naquela mercearia por dias, sem fazer menção de sair, era um sentimento de nunca mais, um adeus. Nem tristeza nem alegria, um marasmo.
_Moça! Vocês não têm álcool?
_Temos sim, esta na segunda prateleira.
_É que fui lá e não vi.
_Quer que eu pegue para o senhor?
_ Pode deixar, eu mesmo pego.
Algo fermentava, não era algo entendível, era apenas algo.
_ Não encontrei.
_Pode deixar que eu pego.
Do lado de fora da mercearia, o sol ardia em vida, tudo vivia. Ele se sentia meio atraído. Seu coração tinha tantas certezas, que não o deixava respirar, era um sufocamento. Num mundo de duvidas ele tinha certeza. Na fronte, o suor escorria, mas não era calor era o medo.
_ Aqui está senhor.
_ Não, eu quero é um litro de álcool.
_ Claro, este é o novo álcool gel. Só temos o álcool gel, é que o governo esta querendo proibir o comércio de álcool líquido, então já estamos substituindo os produtos, para não ficar na mão caso a lei seja aprovada.
_ Mas eu sempre comprei do outro.
_Sim, mas não muda nada, pelo contrario, este é mais seguro e faz o mesmo que o outro.
O fantasma tirou a máscara no palco da ópera, mas já não tinha ninguém para ver a parte do rosto que estava deformada. Poderia ter acontecido de tantas formas, poderia ter sido provocado por tantos outros motivos. Quando ele ficava  observando o vôo dos pássaros, e não entendia onde a física entrava naquele ato, acreditando que aquilo não passasse de magia, ele chegou a pensar que poderia ser naqueles momentos que poderia acontecer. Quando as formigas passavam enfileiradas carregando a grama ele pensou que poderia ser ali, ele ficou anos esperando, e justamente na mercearia, justamente com o álcool gel a coisa viera se arrebentar, com tão pouco romantismo, então era por isso que vinha sua reclusão?
_ Então? Vai Querer?
A resposta, foi a resposta que estava sendo guardada há 35 anos, a resposta era a pergunta de 35 anos, era o roteiro de 35 anos, e agora estava ali nua, exposta para a moça mais odiosa da cidade.
_Vou, me dê.
_Deixa que o entregador leve com o resto da compra.
_Não, esse eu levo na mão. Mande a conta com a compra, eu pago lá em casa.
_Tudo Bem. Até semana que vem!
De volta ao caminho de sempre algo mudara, ele não entendeu se a ferida cicatrizou, ou se estava mais exposta, ele pesava menos na ida que na vinda. Perambulando pela calçada, ele ainda digeria tudo, digeria nada, dirigia-se e se dava por satisfeito.

Cobalto
Enviado por Cobalto em 20/02/2006
Código do texto: T114168
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Sobre o autor
Cobalto
Ouro Preto - Minas Gerais - Brasil, 36 anos
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