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Desencontro

- Eu não amo.

Todo reencontro era igual. Mesmo acostumados àqueles desabafos, o grupo não controlava a surpresa. Os casais abraçavam-se e prometiam, com olhos carentes, não deixar aquela aberração anti-sentimental abalar seus futuros. Os solteiros, mesmo que distantes exemplos de companheirismo e fidelidade ao sexo oposto, condenavam a naturalidade das palavras. Os tímidos mal-resolvidos engoliam a respiração, largavam os copos e se despediam, vermelhos. Talvez fugissem do destino desenhado para seus perfis.

- Solta mais uma rodada! O que é amar?

O desafio causava inquietação e a justificativa surgia com a expressão do óbvio. Os casais, com as mãos suadas e sorriso sem-graça, defendiam-se alegando ausência de habilidade comunicativa para descrever o que sentiam. Os solteiros, mesmo que dissessem amar seus carros e apartamentos de frente ao mar, preferiam arremessar o dilema para os tímidos e fingir superioridade teórica. Infelizmente, nenhum deles havia voltado.

- Pega no fundo que tá mais gelada! Amar pra quê?

Por que insistiam em se reunir se o desconforto era geral? Talvez o som da voz que intimidava gerasse força para que prosseguissem caminhando em busca do oposto filosófico. Assim pensavam os casais, claramente incomodados. Um dos solteiros, disposto a lutar pelos ideais sexistas que defendia, tentava florear um belo discurso. Foi interrompido por um tímido, no auge da vermelhidão, que apenas havia esquecido as chaves do carro mas suava como primeiro dia escolar. Ironicamente, ninguém estava preparado para aquele tipo de aprendizado.

- Outra rodada e troca os copos! Quem diz que ama está mentindo.

Percebeu-se certa desconfiança entre os casais que, já esboçando impaciência com as carícias repetitivas dos companheiros, exigiam maior demonstração do amor defendido. Mais do que isso, cansados dos olhares cúmplices, se levantaram e alegaram compromisso, evidenciando a longa conversa que ocorreria no caminho de casa. Os solteiros fingiram atenderem os celulares e comentaram sobre uma tal festa, em tal lugar, com tais pessoas e que seria imperdível. Disseram ainda estarem atrasados e despediram-se com um aceno, ainda agarrados ao dispositivo móvel.

Mais uma vez ele havia sobrado. Mais uma vez sua tentativa de entender o que sentia, desde o dia em que fora abandonado, não funcionara. Todos os encontros, propositalmente organizados com enorme ansiedade, terminaram sem respostas.

Engoliu uma última vez, juntou seus pedaços e seguiu sofrendo por amor.
Felipe Valério
Enviado por Felipe Valério em 23/02/2006
Reeditado em 14/11/2006
Código do texto: T115345

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Sobre o autor
Felipe Valério
São Paulo - São Paulo - Brasil, 37 anos
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Felipe Valério