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Romeu, o gato

        Tinha sobrado um pouco de churrasco. Eu coloquei tudo em uma vasilha da minha mãe e, apesar dos protestos dela, embalei, disposta a trazer um pouquinho para ele. Já eram três horas da tarde e eu estava com saudades. Fui embora abraçada ao churrasco, pensando na sua satisfação quando visse o que eu estava lhe trazendo. Imaginava aqueles olhos verdes e lindos, brilhantes ao ver o regalo. Até acelerei com o carro para chegar mais rápido em casa. Subi as escadas correndo. Visualizei a cena. Ele estaria deitado, preguiçosamente no sofá, aguardando-me. Assim que ouvisse o som da chave, já viria me receber. Ele era um amor.
Era um amor quando queria. Abri a porta e me deparei com o sofá. Vazio. Nem havia mostras que ele teria estado ali. Sem vergonha! Mal esperou que eu pusesse os pés na rua para fazer o mesmo. Sentei-me no sofá, com ganas de atirar o churrasco pela janela. Maldito! Se minha mãe soubesse mais uma destas, nossa! Eu iria escutar. É, meu destino era sofrer em silêncio.
Não suportei ficar sentada por muito mais tempo. Larguei a vasilha na mesa e fui até a janela. Quem sabe ele estaria pelas redondezas? Para minha surpresa, dei de cara com a Valentina, também na janela. Que gata! Aqueles olhos azuis encararam-me, friamente. Sim, parecia que ela também estava buscando por ele. Altiva demais ela para o meu gosto. Ignorei a Valentina e me debrucei na janela, procurando-o. Nem sinal. Voltei para o sofá, desconsolada. Uma amiga ligou. Eu desabafei que ele havia sumido. Como resposta, ouvi vários impropérios, coisas do tipo “já foi tarde” e “você ficará melhor sem ele”. Não era justo. Está certo que ele nunca foi dos mais simpáticos com o meu círculo de amizades e com minha família. Os dois lados se evitavam. Será que desta vez ele dormiria fora de casa?
Ele sempre retornara para casa das suas orgias noturnas de madrugada. Nunca passara uma noite inteira fora. Eu aceitava isto, calada. Eram dez horas da noite e não havia mostras de que ele voltaria. Sentia-me abandonada e triste. Talvez um acidente… eu podia até sair na rua para dar uma busca, mas fiquei com medo de descobrir a verdade. Meu amor morto… Não!
Fui tomar um banho, arrasada pelo curso dos meus pensamentos. Chorei todas as minhas lágrimas. Não tinha mais a quem recorrer. O outro dia era segunda-feira. Como iria trabalhar sem saber onde ele estava? De manhã cedo iria telefonar para a minha chefe e alegar indisposição. Eu estava indisposta mesmo. Minha cabeça doía, meu estômago estava embrulhado. Se eu revelasse o real motivo para não ir ao trabalho, seria demitida por justa causa.
Quando saí do banho, apenas enrolada em uma toalha, um som vindo da sala me atraiu a atenção. Seria a televisão que eu deixara ligada? Fui passo por passo, desconfiada do barulho. E se fosse um ladrão? Somente coloquei o pescoço para dentro da sala. Lá estava ele, meu amor. Ele rondava o churrasco em cima da mesa e parecia faminto.
- Romeu! – berrei!
Apesar dos protestos dele, segurei-o no colo e apertei meu gato com toda a força. Ele não gostou muito, saí um pouco arranhada daquele abraço unilateral, mas nem me importei. Grande e forte, lá estava meu gatinho, faminto e rebelde, querendo seus pedaços de churrasco. Saí correndo para fechar as janelas, receosa que ele resolvesse comer e se mandar de novo. Nunca. Aquela noite ele seria meu. Meu amado Romeu.
Ele se saciou com o resto do churrasco do meio dia. Depois, deitou-se de barriguinha para cima para que eu o acariciasse. Aqueles olhos verdes ligeiramente fechados fitavam-me, cansadamente. O que meu gato pensaria de mim? Achava que eu era uma trouxa por lhe dedicar tanto amor sem quase nenhuma reciprocidade? Ou que era um ser humano legal, que por não ter filhos, dedicava todo o seu amor a um ser de quatro patas? Talvez não pensasse nada também. Meu Romeu vivia um dia de cada vez, saltando telhados, namorando a gata siamesa da vizinha, a tal Valentina. E eu, pelo contrário, preocupava-me com coisas que nunca aconteceram. Assim como Romeu, eu queria namorar o gato do oitavo andar, mas a atitude que meu bichano possuía, não havia nascido comigo. Eu também queria saltar telhados, subir em árvores, namorar sem me importar com ninguém, pelas madrugadas da vida. Queria ser uma gata feito a Valentina, que até capa de revista já havia sido. Romeu sempre teve bom gosto. Porém, eu não era a Valentina e tinha que me contentar com o ser humano que era, sem sequer saltar muros ou escalar árvores, sem estardalhaços em madrugadas de amor.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 05/03/2006
Código do texto: T118938
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37909 leituras)
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Patrícia da Fonseca