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A SENHORA

   
Durante horas seguidas ela ficara ali parada, como se nada mais lhe importasse do que sentir o calor sobre sua pele encarquilhada e ressequida pelo tempo. O sol da manhã esquentava, enquanto um vento frio e cortante soprava do leste para o oeste, indicando uma brusca mudança do tempo.
O sol tentava espantar um frio que teimava em ser soprado pelo vento que aumentava à medida que as horas iam escoando, como se fossem água passando pelo ralo.
As pessoas transitavam apenas olhavam despreocupadamente àquela senhora que se mantinha quieta, sentada no banco da praça, alheia a todas as coisas do mundo.
Uma tosse entrecortada de escarros indicava que, além da tosse, havia em seus cansados pulmões mucos presos que teimavam em impedir que uma respiração fosse normal.
O tempo apenas cobrava a insensatez de uma fumante inveterada que ousara ir contra todas as recomendações que lhe haviam sido apresentadas como forma de argumento. As desculpas e a própria incapacidade de ousar uma tentativa a tinham impedido de parar um hábito pouco recomendável, principalmente no tocante à saúde.
Saíra bem cedo de casa, como todos os dias, e procurou sentar-se num banco da praça, como se fosse aquilo o necessário para curar-se de todos os males que houvera cometido contra si mesma.
Já há muito tempo ela se encontrava só, ocupando um espaço que outrora fora tão movimentado, com a presença dos filhos, dos netos e mesmo do próprio marido que ousara partir,  abandonando-a.
A solidão de todos os dias se repetia há mais de dez anos. Ficava ali quase todo  os dias presa a lembranças e recordações de um passado que mais se distanciava de uma época quando ainda tinha uma família junto de si.
O vento aumentava enquanto o sol praticamente desaparecia atrás de nuvens que começavam a surgir no céu, que mudava à medida que aumentavam os ventos que pareciam indicar que uma chuva deveria vir trazendo consigo o frio muito comum nesta época do ano.
A pobre senhora, sentada do jeito que estava, ajeitou a blusa já rota e gasta pelo uso constante. Os idosos sempre sentem frio, as gorduras que são escassas na pele não  impedem  que o frio atinjam  as partes internas do corpo cansado e gasto.
Enquanto tentava de um jeito desajeitado arrumar a blusa, uma menina com cerca de doze anos de idade, passando da infância para adolescência, passou em sua frente apressadamente, sem mesmo olhar para o lado onde estava sentada a idosa mulher.
A velha olhou os modos e o jeito de andar da menina e se lembrou de um passado já muito distante que ficara esquecido no tempo. Suas recordações a levavam a uma praça parecida com aquela, sentara-se com o primeiro namorado que furtivamente ousara pegar a sua mão. Um sorriso amargo sem graça brotou em sua boca cheia de marcas.
Um passado que nunca mais irá retornar, tudo ficara para traz e somente algumas lembranças vinham despertar um passado que logo estaria esquecido e morto no tempo.Primeiro se fora o marido que a acompanhara durante mais de quarenta anos e logo depois aquele acidente havia levado sua filha que carregara tantas vezes no colo e que tantas vezes brincara naquela mesma praça, correndo de um lado para outro como se  nada mais existisse além dela e de seus folguedos.
Olhando para o céu, notou que escurecia, o surgimento das nuvens carregadas de água ou de frio, era como se tudo aquilo a mandasse de volta a seu espaço que ficava bem perto dali.Com dificuldades, levantou-se e , apoiando-se na bengala que sempre carregava, sorriu quando uma jovem mulher passou em sua frente como se o tempo exigisse que chegasse a algum lugar o mais rápido possível.Novas recordações lhe vieram à cabeça que, embora cansada ainda teimava em sonhar com o passado.
Novamente um sorriso surgiu em seu rosto cansado e coberto de rugas ocasionadas pelo tempo e até pelo seu excesso de vaidade com  as constantes exposições ao sol, procurando  ficar morena, sem as devidas precauções. Aquela jovem mulher que passava em sua frente era igual ao que ela já  fora.
Com passos lentos e estudados, apoiando-se na bengala, ia seguindo rumo a sua casa que deveria, como sempre estar vazia, mas que servia de refúgio a um corpo e ossos gastos e cansados pelo tempo.
Antes mesmo de conseguir sair da praça e atravessar a rua que, naquele momento se encontrava deserta, passou em sua frente uma senhora de seus quarenta anos, que sem, pressa seguia em direção contrária a sua. Novamente as recordações de tempos que haviam ficado perdidos no tempo.
O vento frio e cortante ia aumentando à medida que se aproximava das onze horas, e quando sempre lhe vinham  entregar a comida que  era trazida todos os dias pelo sobrinho que ficava incumbido de prover sua alimentação.
Abriu a porta lentamente e entrou, pois a mesma se encontrava sempre aberta e só sendo fechada somente depois que o sobrinho lhe trazia sua alimentação. Sentiu o cheiro forte de fritura que estava exalando dos famosos bolinhos de arroz que todos os dias acompanhava a comida. Era a reciclagem alimentar.
Depois do almoço, a costumeira novela deveria ser o seu único divertimento naquela tarde fria que deveria ser longa. Não ousaria sair novamente naquele dia, a tarde parecia indicar que a mudança do tempo poderia também trazer chuvas.
Sentou-se e se cobriu com um velho e roto cobertor que lhe servia de agasalho já há muito tempo e ligando a tv, fechou os olhos e sonhou.
Nos sonhos, ela era uma criança, uma moça fogosa que passava e depois uma senhora que seguia em rumo diverso do seu e, finalmente, a velha decrépita que se encontrava sentada frente à tv.
 Saiu do corpo rumo a um mundo onde a idade não marca o corpo, onde as recordações são apenas um estado onde um espírito liberto sorri dos seus acertos e desacertos.
Aquele sonho parecia ser apenas uma etapa, quando poderia no descanso que lhe é proporcionado planejar um futuro para corrigir as falhas que sempre comete quando perde a consciência no corpo.

04/06/04-VEM




Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 10/03/2006
Reeditado em 07/10/2010
Código do texto: T121495
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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Vanderleis Maia